Imagens Dramáticas de Como a Extração de Areia Ameaça a Vida na Ásia

O Vietname é o exemplo supremo de uma ameaça global pouco conhecida: a extração de areia do leito dos rios para alimentar o setor da construção de cidades mundiais em franco crescimento.terça-feira, 8 de maio de 2018

Numa tarde do ano passado, Ha Thi Be, de 67 anos, estava sentada com o seu filho no seu pequeno café, na cidade de Hong Ngu, com vista para o vagaroso rio Tien, o principal afluente do rio Mekong no Vietname, quando, subitamente, o chão por baixo dos seus pés cedeu. A margem do rio era engolida pelas águas. “Gritámos e fugimos,” conta. “Foi um ruído tremendo, bum, bum, bum.”

Be e o filho escaparam ilesos, mas o café e a sua casa ficaram destruídos. “O rio levou-nos tudo o que ganhámos para construir aquela casa e agora ficámos sem nada,” suspira. Ainda assim, Be diz ter tido sorte. “Se tivesse acontecido durante a noite, eu e os meus netos teríamos morrido. Dormíamos, habitualmente, naquela casa,” conta.

As principais causas do desabamento podem ser vistas a flutuar ao longo das águas turvas do rio Tien: dragas, equipadas com bombas ruidosas aptas a extrair do leito do rio grandes quantidades de areia. Nos últimos anos, esta humilde matéria tornou-se, surpreendentemente, num bem precioso. A areia é a base principal do cimento, o material de construção de eleição para a construção das cidades vietnamitas em rápido crescimento. A procura por esta matéria subiu a pique e está a gerar o caos não apenas nos rios do Vietname, mas também no importantíssimo delta do rio Mekong.

Em cidades e aldeias ao longo do rio Mekong e em tantos outros rios espalhados pelo país, as margens enfraquecidas pela dragagem estão a desabar nas águas do rio, arrastando consigo campos agrícolas, lagos de peixes, lojas e casas. Nos últimos anos, perderam-se milhares de hectares de arrozais, e, pelo menos, 1200 famílias tiveram de ser realojadas. Outras tantas centenas foram evacuadas de ilhas que foram, literalmente, desaparecendo por baixo dos seus pés. Fontes governamentais estimam que só na área do delta de Mekong tenham de ser retiradas das zonas críticas cerca de 500 000 pessoas.

Nguyen Gia Lac, de 10 anos, e Nguyen Trung Kien, de 12, brincam num monte gigante de areia junto à sua aldeia, na ilha de Chau Ma, na província de Dong Thap, perto da fronteira com o Cambodja. O monte de areia proveniente do rio Tien ocupa o espaço do que foi, em tempos, um terreno agrícola e pertence a um empresário do Vietname. Enquanto que a extração de areia é vista com desagrado pelos aldeões, por causa do ruído e da erosão que provocam, a montanha de areia é uma atração local.
Fotografia de Sim Chi Yin

O Vietname está longe de ser o único lugar onde a extração de areia está a causar tamanhos danos. No mundo em vias de desenvolvimento, as cidades estão a crescer a um ritmo vertiginoso, devorando areia em quantidades sem precedentes. O número de vietnamitas a viver em centros urbanos duplicou nos últimos vinte anos para cerca de 32 milhões. Em todo o mundo, a população urbana está a aumentar em cerca de 65 milhões ao ano, o equivalente a acrescentar, anualmente, ao planeta oito vezes a cidade de Nova Iorque. Cerca de 50 biliões de toneladas de areia e brita são extraídos, todo os anos, para produzir o cimento necessário à construção de todas as torres de escritórios, blocos de apartamentos, autoestradas e aeroportos que essas pessoas necessitam. Alguma areia vietnamita é também vendida à vizinha Singapura, que usa quantidades colossais para expandir o seu território de forma artificial.

Perguntará talvez… Porque é que, simplesmente, não extraímos areia do Sahara ou de outros desertos? A resposta é clara: a areia do deserto não serve para fabricar cimento, pois os grãos de areia são demasiados suaves e redondos, por ação do vento. Como consequência, da China à Jamaica, da Libéria à Índia, as empresas de extração de areia estão a apropriar-se dos leitos dos rios, das planícies aluviais e das praias para obter os tão valiosos grãos.

O Delta do Rio Mekong

No Vietname, a extração de areia arrasta um outro perigo: está a contribuir para o desaparecimento progressivo do delta do rio Mekong, região que abriga 20 milhões de pessoas e fonte de metade da produção alimentar do país e de grande parte do arroz que alimenta o resto do sudeste asiático.

A subida do nível do mar induzido pelas alterações climáticas é uma das razões pelas quais o delta está a perder o equivalente a um campo de futebol e meio todos os dias. Mas outra das razões, segundo os investigadores, é que as pessoas estão a privar o delta da sua própria areia.

Durante séculos, o delta foi sendo reforçado pelos sedimentos trazidos das montanhas da Ásia central pelo rio Mekong. Mas, nos últimos anos, em cada um dos vários países pelos quais atravessa o rio, os mineiros começaram a retirar grandes quantidades de areia do seu leito. Segundo um estudo de 2013 desenvolvido por três investigadores franceses, só em 2011 foram extraídas cerca de 50 milhões de toneladas de areia, o suficiente para cobrir a cidade de Denver com 5 cm de profundidade. Nos últimos anos, foram construídas cinco grandes barragens no rio Mekong e outras doze estão programadas em territórios da China, Laos e Cambodja por onde passa este rio. As barragens diminuem, substancialmente, o fluxo de sedimentos em direção ao delta.

Noutras palavras, a erosão natural do delta avança, mas o depósito natural de sedimentos não. “O fluxo de sedimentos foi reduzido para metade,” adverte Marc Goichot, um investigador do Programa Greater Mekong da Word Wildlife Federation. A este ritmo, afirma, quase metade do delta terá desaparecido no final deste século.

A extração de areia do rio não é o único problema que afeta as populações. A dragagem tornou as águas lamacentas e escavou os leitos dos rios, matando peixes, plantas e outros organismos que habitavam o rio. “Quando eu era criança, pescávamos peixes e apanhávamos caramujos para comer,” recorda Ha Thi Be. “Desde que chegaram as dragas para retirar a areia, os peixes e os caramujos desapareceram.”

Mercado-Negro da Areia

O problema torna-se ainda mais complexo, se se atender ao facto de que muita da extração de areia no Vietname decorre sem qualquer tipo de regulamentação e de forma ilegal. A comercialização de areia é de tal forma lucrativa que levou ao aparecimento de um mercado paralelo de elevado rendimento, com centenas de embarcações sem licença a cruzar os rios. Só em 2016, a polícia vietnamita identificou cerca de 3000 pessoas, em todo o país, a dragar o rio sem licença ou em áreas protegidas, a nível nacional.

Muitos dos mineiros, legais e não só, são simples vietnamitas que tentam apenas ganhar o seu sustento. Alguns deles levam as famílias nos barcos à medida que deslizam rio abaixo e acima.

Nguyen Van Tu, de 39 anos, costumava extrair areia do rio Tien, perto da cidade natal de Ha Thi Be, até a polícia lhe apertar o cerco. “O negócio estava a correr tão bem,” diz. Havia alturas em que chegava a ganhar cerca de 13 000 dólares por mês. “Era dinheiro fácil. Pensem… Só tinha de tirar areia do rio e recebia o dinheiro. Simples.”

As autoridades vietnamitas anunciam, frequentemente, a intenção de acabar com a extração ilegal de areia, mas, tal como em muitos países, algumas preferem não agir a agir de uma vez, pondo um fim à atividade ilegal. Em 2013, três entidades governamentais locais em Hong Ngu foram acusadas de aceitar subornos para fazer vista grossa à extração ilegal de areia no rio Tien. Em março do ano passado, o primeiro-ministro Trương Hòa Bình admitiu que a extração ilegal de areia em larga escala continua, em parte, porque as administrações locais “flexibilizaram a supervisão, toleraram e protegeram” os mineiros.

Em certos casos, os mineiros ilegais recorreram à violência para manter o negócio. Na Índia e noutros países, as “máfias da areia” não só agrediram, como assassinaram agentes policiais, ambientalistas, jornalistas e outros tantos que se atravessaram no caminho. Durante uma campanha repressiva, levada a cabo pelas autoridades vietnamitas na última primavera, e segundo a imprensa local, mineiros ilegais tentaram afundar uma lancha da polícia, vertendo areia para o seu interior.

No ano passado, e cansados da inércia das autoridades, dezenas de pescadores vietnamitas tentaram resolver o assunto por iniciativa própria, atacando os mineiros, aos quais atribuíam a culpa pela ruína das suas vidas. Em junho último, confrontos entre mineiros e aldeões causaram dois feridos, que receberam assistência hospitalar.

À medida que a tensão sobe, o delta do rio Mekong continua a acusar os efeitos da erosão, assim como o chão por baixo dos pés dos aldeões como Ha Thi Be.

O projeto de Sim Chi Yin e Vince Beiser sobre o impacto da extração de areia foi, em parte, financiado por uma bolsa concedida pelo Pulitzer Center for Crisis Reporting. As informações adicionais foram cedidas por Phạm Lan Phương.

O livro de Vince Beiser sobre a crise mundial da areia, The World in a Grain, será publicado em agosto. Siga-o no Twitter.

Sim Chi Yin é uma fotógrafa documental que se estabeleceu em Pequim. Pode aceder ao seu website para ver outras fotografias em arquivo e segui-la no Instagram.

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