Porque É que o Aquecimento do Ártico Pode Implicar Invernos Mais Frios nos Estados Unidos?

Um novo estudo revela como o aquecimento do Ártico pode ter um impacto negativo em regiões situadas a milhares de quilómetros de distância.terça-feira, 15 de maio de 2018

Artigo atualizado no dia 3 de março

Um jornal publicado hoje na revista Nature Communications estabeleceu, novamente, uma relação entre um Ártico mais quente e invernos mais nevosos – desta vez, especificamente no nordeste dos Estados Unidos.

O estudo surge no seguimento da notícia de que uma depressão, acompanhada de ventos fortes e agitação marítima, a terceira em menos de duas semanas, se dirige para New England.

São consistentes com estudo as descobertas que indicam que as temperaturas excecionalmente quentes registadas no Ártico têm duas a quatro vezes maior probabilidade de acentuar o rigor dos invernos no nordeste do país.

“As temperaturas quentes do Ártico fazem com que as correntes de jato tenham estas oscilações bruscas e, quando se movem mais a sul, fazem com que o ar frio se estenda cada vez mais a sul. Estas oscilações tendem a perdurar, pelo que o tempo que temos nos Estados Unidos, seja ele quente ou frio, tende a permanecer entre nós por períodos mais longos,” afirmou a coautora do estudo, Jennifer Francis, numa conferência de imprensa.

Esta investigação contribui para dar suporte às teorias de que invernos cada vez mais rigorosos, caracterizados por ciclones bomba, um fenómeno tecnicamente conhecido por ciclogénese explosiva, e vórtices polares, serão um padrão cada vez mais comum das consequências das alterações climáticas nos próximos anos.

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Quando um senador republicano dos Estados Unidos arremessou uma bola de neve contra o pavimento do Senado no final de fevereiro de 2015, fê-lo para sublinhar a sua convicção de que as alterações climáticas decorrentes da ação do homem não passavam de uma conclusão alarmista.  A bola de neve tinha sido feita com neve retirada do solo do Capitólio, em Washington D.C., que, naquela altura, atravessava por um inverno, excecionalmente, frio.

Se o aquecimento global era um facto, alegou, como se explicava então que a capital da nação estivesse a passar por um frio tão gélido?

Os invernos, excecionalmente, frios podem ser um dos efeitos das alterações climáticas que se fazem sentir de forma mais acentuada, segundo um estudo publicado em Nature Geoscience por uma equipa de investigadores.

O estudo revelou que temperaturas invulgarmente frias no norte da América do Norte e fraca precipitação no centro sul dos Estados Unidos coincidiram com períodos de tempo quente no Ártico.

Para chegar a esta conclusão, os investigadores analisaram a forma como as teleconexões no Ártico implicam invernos mais frios na América do Norte. As teleconexões são anomalias climáticas em larga escala que influenciam o tempo nos continentes e abrangem grandes extensões da atmosfera. O fenómeno climático El Niño é um exemplo das teleconexões observadas com maior frequência, ainda que estas ocorram em todas as partes do globo.

Anna Michalak, uma investigadora da Carnegie Institution for Science, participou na criação de um conjunto de modelos usados para dar suporte às conclusões do estudo. Ela explicou que o vasto sistema de modelos climáticos, conhecido por MsTMIP, permite criar uma uma extensa base de dados que auxilia os investigadores no estudo das alterações ocorridas na biosfera terrestre da Terra.

Para formularem as suas conclusões, os autores do estudo analisaram a forma como a biosfera terrestre (todas as plantas e solos que integram a superfície da Terra) contribuiu ou retirou carbono da atmosfera. Descobriram que, nas últimas três décadas, as plantas retiraram menos carbono da atmosfera da Terra durante os períodos de tempo quente no Ártico.

"Embora estejamos a falar do Ártico, a verdade é que ele tem impactos imediatos naquilo que vivemos a latitudes inferiores,” afirma Michalak.

O QUE É QUE ISSO SIGNIFICA?

Para além da necessidade de mais cachecóis e luvas, os invernos mais frios têm sérias implicações nas explorações agrícolas da América do Norte.

Num artigo publicado na revista Nature, juntamente com o estudo, a conhecida cientista climática, Ana Bastos, escreveu que as temperaturas quentes gozam do potencial para enfraquecer a vegetação e encurtar os períodos de crescimento na primavera. O estudo analisou as colheitas registadas pelo Instituto Nacional de Estatística do Departamento da Agricultura dos Estados Unidos e descobriu que a produção agrícola registou um decréscimo numa ordem média de 1 a 4% durante os anos mais quentes do Ártico. Alguns estados registaram, contudo, um decréscimo de quase 20%.

Bastos alertou que a relação entre um Ártico mais quente e os invernos norte-americanos mais rigorosos era mais complexa do que um simples mecanismo de causa e efeito. Os padrões climáticos podem ser, claramente, imprevisíveis, mas outros fatores, tais como a saúde do solo e as práticas agrícolas, podem ter impacto no desenvolvimento das culturas.

O estudo avança que será cada vez mais difícil assegurar a produtividade agrícola, à medida que se repetem os anos quentes no Ártico. Tudo isto poderá diminuir o impacto dos sumidouros de carbono, um termo que se refere à quantidade de carbono que a biosfera terrestre é capaz de retirar da atmosfera. Com um menor número de plantas disponíveis para absorver mais carbono, o aquecimento do Ártico poderá acelerar, enfraquecendo ainda mais o sumidouro de carbono, refere o estudo.

"Não é ainda claro que a relação estabelecida implique uma diminuição da capacidade dos sumidouros de carbono dos ecossistemas norte-americanos nas próximas décadas,” escreveu Bastos. Ela alertou para a necessidade de estudar a forma como o aquecimento do Ártico afeta outras regiões no hemisfério norte.

Embora as repercussões específicas das estações mais quentes do Ártico e a intensidade com que essas repercussões se farão sentir no futuro requeiram uma investigação mais aprofundada, o estudo ressalta, verdadeiramente, a interconexão da atmosfera da Terra.

A propósito da forma como a ação humana influi nos padrões climáticos, Michalak acrescentou: “Os invernos podem ser mais rigorosos; as inundações mais severas; as secas mais frequentes… Ao emitirmos gases de efeito estufa, não estamos apenas a contribuir para a subida das temperaturas, estamos a interferir com todo o sistema da Terra.”

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