Foi Encontrada a Árvore Mais Antiga da Europa... e Continua a Crescer

Um pinheiro de Heldreich, descoberto no sul de Itália, cresce há 1230 anos numa zona remota de um parque nacional.terça-feira, 19 de junho de 2018

Por Sandrine Ceurstemont
Os cientistas determinaram a idade deste pinheiro de Heldreich, com 1230 anos, apelidado de Italus, usando uma combinação inovadora que articula a análise dos anéis de crescimento das árvores e a datação por radiocarbono.

Um pinheiro escarpado cresce há 1230 anos no sul de Itália e foi, recentemente, objeto de datação científica, tendo sido apontado como a árvore mais antiga da Europa.

Segundo foi revelado na revista Ecology no mês passado, o velho pinheiro parece estar a viver à altura da sua proveta idade. Os estudos revelam que a árvore cresceu nas últimas décadas, apresentando a formação de anéis de crescimento com maior diâmetro no tronco, ainda que muitas das árvores que povoam a região do Mediterrâneo tenham revelado um declínio no crescimento.

A descoberta mostra que algumas árvores podem sobreviver durante séculos, mesmo quando são sujeitas a alterações climáticas extremas. Este velho pinheiro, por exemplo, terá germinado num período de temperaturas frias durante a era medieval e atravessado períodos de temperaturas mais quentes, incluindo períodos de seca.

Segundo a equipa responsável pelo estudo, a análise do seu crescimento ao longo de tantos anos de alterações climáticas pode ajudar os cientistas a compreender melhor de que forma as florestas, no seu todo, podem responder às alterações climáticas dos tempos modernos.

“O estudo de árvores seculares é extremamente valioso para prever, com maior rigor, o impacto futuro das alterações climáticas sobre os ecossistemas florestais”, afirma Maxime Cailleret do Instituto Federal Suíço para o Estudo das Florestas, Neve e Paisagens, que se dedica ao estudo da mortalidade das árvores.

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TRANSFORMADO EM PÓ

Gianluca Piovesan da Universidade de Tuscia e os colegas descobriram o pinheiro ancestral numa encosta íngreme e rochosa, no cimo das montanhas do Parque Nacional de Pollino. Embora a árvore denunciasse uma aparência envelhecida, a equipa cedo se apercebeu de que, para determinar a sua idade, não bastaria datar os seus anéis. A zona central da árvore, que, supostamente, integraria os anéis mais antigos, tinha desaparecido.

“A parte interior da madeira era como pó. Nunca tínhamos visto nada igual”, diz o elemento da equipa Alfredo Di Filippo. “Faltavam pelo menos 20 centímetros de madeira, o que equivale a muitos anos.”

As raízes da árvore estavam em melhores condições, pelo que a equipa decidiu tentar perceber se era possível determinar a idade da árvore por meio de um método inovador, que combina algumas das técnicas já existentes.

Embora os anéis de crescimento dos troncos e das raízes das árvores sejam anuais, eles podem formar-se a ritmos diferentes, por isso a correlação entre os anéis e o seu crescimento nem sempre é linear. No entanto, a datação de amostras por radiocarbono das raízes expostas permitiu aos investigadores determinar a altura em que a árvore germinou. A equipa conseguiu cruzar as datas de crescimento dos anéis presentes na raiz e as amostras recolhidas do tronco para revelar os anos em falta no tronco.

“Ao combinarmos estes dois métodos, conseguimos estabelecer uma janela temporal com maior precisão”, diz Piovesan.

A idade da árvore é impressionante, considerando a densa moldura humana que habitou a região ao longo do último milénio, afirma Oliver Konter da Universidade de Mainz, na Alemanha, que descobriu um pinheiro com 1075 anos no norte da Grécia e que fora, até muito recentemente, a árvore mais antiga conhecida em solo europeu.

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ENTES IMORTAIS

A equipa sublinha que o aquecimento global recente não representou uma adversidade para as velhas árvores.  Embora alguns segmentos de florestas caducifólias, que povoam a região, tenham sucumbido às condições áridas e às vagas de calor, Piovesan e os seus colegas descobriram que o velho pinheiro cresceu. A análise aos anéis de crescimento da árvore revelou a formação de anéis mais largos nas últimas duas décadas, indicando condições ambientais mais favoráveis ao seu desenvolvimento, após alguns séculos de formação de anéis mais estreitos.

As razões para este crescimento adivinham-se complexas. Em parte, as montanhas altas possuem um microclima próprio, com temperaturas mais frias. Piovesan e a sua equipa acreditam também que um decréscimo dos níveis de poluição, em virtude da legislação europeia, e os esforços de reabilitação dos espaços tenham tido um papel importante no processo.

“É difícil isolar os fatores que possam ter contribuído para o desenvolvimento do Italus, porque há poucos estudos sobre o impacto dos períodos quentes nos ecossistemas setentrionais da região mediterrânea”, afirma Piovesan.

Além disso, a biologia única das árvores poderá ter contribuído para a sobrevivência do velho pinheiro. Ao contrário dos animais, o envelhecimento não está programado no código genético das árvores, pelo que elas são, de facto, imortais.

A sequoia e o pau-brasil, que se desenvolvem em paisagens intactas dos Estados Unidos, por exemplo, podem viver durante milhares de anos. As coníferas são de crescimento lento e são conhecidas pela sua longevidade, em parte porque permanecem mais pequenas durante longos períodos das suas vidas, tornando-as menos vulneráveis a eventos extremos, como a seca ou as tempestades.  

“As árvores antigas acabam por morrer, normalmente, por ação de perturbações externas, tais como ventos fortes”, afirma Di Filippo.

Além disso, as árvores antigas podem ser consideradas vivas, quando apenas pequenas partes da sua estrutura estão, efetivamente, vivas. No caso do velho pinheiro, grande parte da  copa já morreu, mas ele pode continuar a viver nesta condição durante outros tantos séculos.

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