O Aquecimento dos Oceanos Poderá Tornar Mais Difícil a Procura de Nemo

O calor provoca o branqueamento das anémonas do mar, fazendo com que o icónico peixe-palhaço deixe de pôr ovos. Saiba como.Thursday, June 7, 2018

Por Craig Welch

À semelhança dos recifes de coral, as anémonas do mar, com os seus vistosos pólipos tentaculares, que se agitam e ondulam numa palete de cores vibrantes em tons de vermelho, verde, rosa e amarelo, são casa e refúgio de dezenas de espécies de peixes, sendo a mais memorável a do peixe-palhaço laranja, tornado célebre no filme infantil À Procura de Nemo. Também à semelhança dos corais, a subida da temperatura das águas dos oceanos, associada às alterações climáticas, pode enfraquecer, gravemente, estas anémonas, levando-as a expelir os minúsculos simbiontes que as mantêm vivas e lhes conferem cor, um processo conhecido por branqueamento.

E é aqui que começa o problema.

Segundo um novo estudo publicado em outubro de 2017 na revista Nature Communication, o branqueamento das anémonas desencadeia uma resposta hormonal negativa em Nemo e companhia, levando-os a deixar de pôr ovos e, por conseguinte, refletindo-se na reprodução da espécie. Os cientistas acreditam que esta resposta comportamental será replicada por um número desconhecido de outras espécies peixes, que se alimentam de corais ou anémonas.  

Por outras palavras, o mero stress associado ao branqueamento pode ser, por si só, suficiente para diminuir as populações de diversas espécies de peixes.

E é claro que o fenómeno do branqueamento não decorre hoje do simples acaso.

Um número de espécies de peixes depende das anémonas para proteção e restos de comida, mas esta relação pode estar ameaçada.

Os cientistas, que estudam as crias de peixe-palhaço, já demonstraram que as variações na química do oceano, quando os mares absorvem excesso de dióxido de carbono, um processo denominado acidificação, podem ser, invulgarmente, mortíferas. A acidificação das águas interfere com o cérebro dos peixes juvenis, comprometendo a sua capacidade de ver, ouvir e cheirar. Confusos e desorientados, os peixes juvenis tendem a nadar para perto dos predadores, ao invés de se afastarem. O resultado: estes peixes morrem prematuramente, com demasiada frequência.

Poucos ou nenhuns estudos de longo prazo se debruçaram sobre as formas como o branqueamento e a acidificação interagem, sendo certo que para os cientistas será pouco provável que estes dois fenómenos se neutralizem mutuamente.

"Tanto o branqueamento, como a acidificação são fenómenos que desencadeiam, por si só, respostas negativas, causando elevados níveis de stress”, afirma Danielle Dixon da Faculdade para as Ciências da Terra e dos Oceanos da Universidade de Delaware, que dedicou anos de trabalho ao estudo do peixe-palhaço e à acidificação, não tendo, contudo, participado neste novo trabalho de investigação sobre o branqueamento. "Não vejo de que forma o impacto possa ser menor, se ambos os fenómenos atuarem de forma integrada.”

O PAPEL CRÍTICO DAS HORMONAS

Os estudos mais recentes começaram a ser desenvolvidos quando uma onda de calor oceânica atingiu a Polinésia Francesa em 2015 e 2016. Uma equipa de cientistas identificou 30 espécies diferentes de anémonas numa lagoa ao largo da ilha de Moorea. Os efeitos da vaga de calor não se repercutiram apenas nos corais. Durante mais de quatro meses, o calor refletiu-se em cerca metade das anémonas do mar, tendo induzido o seu branqueamento. Os cientistas recolheram exemplares de peixes que habitavam estas anémonas superaquecidas e compararam-nos com peixes que viviam em anémonas saudáveis, situadas em zonas próximas.  

Sabe-se que a libertação de hormonas afeta a resistência de diversas espécies de animais, desde as aves às iguanas marinhas, em face das perturbações causadas pelas alterações climáticas. Este fenómeno é, igualmente, válido para os peixes.

Segundo a coautora do estudo Suzanne Mills do Centro de Investigação Insular e Observatório Ambiental, situado na Polinésia Francesa, a equipa descobriu que as criaturas relacionadas com anémonas branqueadas sofriam de stress crónico, apresentando níveis elevados de cortisol no sangue. As hormonas reprodutivas apresentavam quebras acentuadas tanto em machos, como em fêmeas. Os casais de peixes que habitavam anémonas branqueadas desovavam em menor quantidade e a viabilidade do número de crias geradas era consideravelmente menor.

Os cientistas acreditam que esta situação poderia implicar efeitos que se fariam sentir no longo prazo, afetando os ecossistemas marinhos no seu conjunto.

"Os efeitos em cascata decorrentes do branqueamento, aos níveis da comunidade e do ecossistema, poderão ter sérios impactos sobre as populações de peixes, assumindo que esses efeitos não se fazem sentir já no presente”, afirma Mills.

O PANORAMA GERAL

Mills e os colegas, com os quais partilhou a coautoria do estudo, verificaram que, no total das 464 espécies de peixes que habitam a zona costeira da Polinésia Francesa, 56, o equivalente a 12%, dependem de espécies suscetíveis ao branqueamento para se alimentarem e colocarem a salvo dos predadores.

"Se estas espécies acusam uma pequena fração do impacto identificado nos peixes que habitam as anémonas, não seria surpreendente que um episódio de branqueamento de curta duração provocasse uma diminuição da taxa de reprodução em aproximadamente 12% das espécies, no mínimo”, escreveram os autores do estudo. Os impactos sobre o ecossistema “podem ser consideráveis.”

Na opinião de Dixson, as conclusões do estudo desenvolvido por Mills são “extremamente sólidas”. E, embora não suscitem grande surpresa entre a comunidade de cientistas marinhos, devem servir de alerta para a opinião pública.  

E, claro, esta é apenas uma parte da equação.

"Infelizmente, nunca vamos ter um planeta em que os oceanos se tornem ácidos, sem que aqueçam”, afirma Dixson. "E todos os dados de que dispomos atualmente apontam na direção de um panorama preocupante.”

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