Desperdício Zero ou Como Produzir Um Frasco de Lixo Por Ano

A comunidade defensora do desperdício zero está a aumentar, determinada a cortar radicalmente na quantidade de lixo que produz, procurando levar vidas mais autênticas e enriquecedoras.terça-feira, 17 de julho de 2018

Por Stephen Leahy
Este frasco contém o lixo produzido pela californiana Kathryn Kellogg em dois anos, que não era reciclável ou compostável.
Esta história é parte integrante da campanha de sensibilização da National Geographic, Planeta ou Plástico?, promovida  anualmente, com o objetivo de alertar para a crise do lixo plástico. Saiba como pode reduzir o consumo de plásticos descartáveis e assuma o compromisso.

Imagine 15 sacos de supermercado cheios de resíduos plásticos empilhados em cada metro quadrado da linha costeira do planeta. Essa é a quantidade de plástico produzido em terra que acabou nos oceanos apenas num ano. O mundo produz no mínimo 3,5 milhões de toneladas de plástico e outros resíduos sólidos por dia, dez vezes mais do que a quantidade de lixo produzido há um século, segundo o Banco Mundial. Os Estados Unidos são o rei do lixo, com uma produção de 250 milhões de toneladas por ano, que corresponde aproximadamente a dois quilogramas de lixo por pessoa por dia.

E, no entanto, tende a aumentar o número de pessoas, geralmente jovens mulheres millennials, que integram o movimento do desperdício zero. A quantidade de lixo que produzem anualmente é suficientemente pequena para caber num frasco de 250 mililitros. Estas pessoas não têm qualquer aspiração hippie. São apenas indivíduos que defendem um estilo de vida minimalista. Dizem que poupam tempo e dinheiro e que enriquece as suas vidas.

Kathryn Kellogg é uma blogger defensora do desperdício zero, que partilha as suas experiências online, procurando tanto quanto possível consumir o mínimo de embalagens e plásticos de uso único. Kellogg vive em Vallejo, na Califórnia, com o marido Justin Norton.

Kathryn Kellogg é uma dessas jovens millennials que reduziu a sua pilha de lixo, limitando-o a qualquer resíduo que não fosse reciclável ou compostável, pelo que o esforço de dois anos cabe literalmente num frasco de 500 mililitros. Por sua vez, o americano médio produz, anualmente, cerca de 680 quilogramas de lixo.

“Poupámos também cerca de 5000 dólares por ano, ao preferirmos alimentos frescos em vez de embalados, comprando em grandes quantidades e fabricando os nossos próprios produtos, como detergentes e desodorizantes”, diz Kellogg, que vive com o marido numa pequena casa em Vallejo, na Califórnia.

Kellogg é uma das várias bloggers defensora do desperdício zero, que partilha online os pormenores dos seus esforços, juntamente com sugestões práticas e incentivos, para todos aqueles que pretendam levar uma vida com desperdício mínimo. Em três anos e a cada novo mês, Kellogg atinge os 300 000 novos leitores no seu blogue em goingzerowaste.com e no seu perfil do Instagram.

“Creio que muitas pessoas estão dispostas a reduzir a quantidade de lixo que produzem”, diz Kellogg. No entanto, a jovem não pretende que as pessoas fiquem obcecadas com o desafio de tentar enfiar todo o lixo produzido num frasco. O objetivo do desperdício zero é o de levar as pessoas a minimizar a quantidade de lixo que produzem, bem como refletir sobre as escolhas que fazem no quotidiano para que possam escolher melhor. “A ideia é fazer o melhor que se pode e comprar menos.”

UMA COMUNIDADE EM CRESCIMENTO

Um susto com um cancro da mama nos tempos da universidade levou Kellogg a ler os rótulos dos produtos de higiene pessoal e procurar formas de limitar a sua exposição a químicos potencialmente nocivos. Kellogg encontrou alternativas e começou a produzir os seus próprios produtos. À semelhança dos seus leitores, Kellogg aprendeu com terceiros, incluindo a nova-iorquina Lauren Singer, autora do célebre blogue Trash is for Tossers. Singer começou a reduzir a sua pegada de resíduos nos tempos em que estudava Ciências do Ambiente em 2012 e fez do desperdício zero uma profissão enquanto oradora, consultora e retalhista. Singer é proprietária de duas lojas, que procuram facilitar a vida das pessoas que escolhem levar uma vida com o mínimo de desperdício.

Na internet, existe uma comunidade defensora do desperdício zero muito ativa, que partilha ideias, desafios e aconselha aqueles que se debatem com amigos e família pouco prestáveis, que olham com estranheza as preocupações com o lixo. “Há sempre aquele receio de se ser rejeitado, quando se tenta fazer algo diferente”, diz Kellogg. “Mas não tem nada de radical passar um pano para limpar o líquido entornado na bancada da cozinha, em vez de usar uma folha de papel absorvente.”

Muitas das soluções para reduzir o desperdício assentam em práticas que eram triviais antes do advento dos plásticos e dos produtos descartáveis. Recorde-se os guardanapos e os lenços de pano, a mistura de água e vinagre para as limpezas, os recipientes de vidro ou de inox para as sobras de comida, e os sacos de pano para as compras. Estas práticas e outras soluções da velha escola não produzem resíduos e são mais baratas no longo prazo.

QUESTIONAR O QUE É NORMAL

Kellogg explica que levar uma vida com o mínimo de desperdício implica questionar aquilo que se assume como sendo normal e pensar fora da caixa. A jovem refere, a título de exemplo, que adora tortilhas, mas detesta fazê-las e, como parte da sua cruzada contra o desperdício, recusava-se a comprá-las na versão pré-confecionada, pelo que se viu obrigada a procurar outra solução. Optou então por comprar uma série de panquecas frescas no restaurante mexicano local. O restaurante até agradeceu por Kellogg levar um recipiente próprio para acondicionar as tortilhas, poupando assim dinheiro.

“Muitas soluções para evitar o desperdício são incrivelmente simples”, afirma. “E qualquer passo para minimizar o desperdício é um passo na direção certa.”

Rachel Felous, de Cincinnati, deu mais do que uns quantos passos em janeiro de 2017 e reduziu o lixo que produzia a um saco por ano. Felous ficou surpreendida e encantada com o impacto que a iniciativa teve na sua vida.

Os habitantes desfazem-se de materiais no novo Centro de Desperdício Zero em Vancouver, no Canadá, em março de 2018. O centro é um local de recolha de lixo doméstico, no qual os habitantes podem depositar embalagens e outros materiais, para que sejam reutilizados ou reciclados, contribuindo para reduzir a quantidade de lixo que é depositada nos aterros sanitários.

“Levar uma vida com o mínimo de desperdício tem sido uma experiência incrível”, diz Felous. “Encontrei uma comunidade fantástica, fiz novos amigos e novas oportunidades surgiram no meu caminho.”

Embora seja uma amante da natureza, com consciência ambiental, Felous nunca tinha realmente pensado na quantidade de lixo que produzia até mudar de casa. Foi nessa altura que se apercebeu da quantidade de tralha que tinha acumulado, incluindo uma dúzia de embalagens de champô e amaciador ainda pela metade. Pouco depois de ler um artigo sobre o desperdício zero, Felous assumiu um compromisso pessoal: ser mais responsável pela sua pegada ecológica. Felous dá conta das sua lutas, conquistas e desafios no seu perfil do Instagram durante a sua cruzada para cortar no desperdício.

Por peso, 75 a 80 por cento do lixo doméstico é matéria orgânica, que pode ser submetida a um processo de compostagem e transformado em adubo orgânico ou húmus. Vivendo num apartamento, Felous optou por preservar os resíduos orgânicos, congelando-os. Uma vez por mês, Felous leva o bloco de matéria congelada para casa dos pais, onde um agricultor recolhe os resíduos orgânicos para alimentar os animais ou fazer compostagem. Se o lixo orgânico fosse levado para um aterro sanitário, dificilmente seria transformado em adubo orgânico, porque a circulação de ar é insuficiente.

Felous, que gere a sua própria empresa de fotografia e web design a partir de casa, aconselha aqueles que querem levar uma vida com o mínimo de desperdício a fazerem-no de forma gradual, usando da tolerância consigo mesmos. Mudar de estilo de vida não é uma viagem que se faça num só dia. Mas vale a pena o esforço, diz Felous. “Não sei por que não comecei mais cedo”.

UMA FAMÍLIA NORMAL

Shawn Williamson começou há dez anos. Enquanto os seus vizinhos nos arredores de Toronto arrastam três ou quatro sacos de lixo para a rua, nas noites frias de inverno, Williamson fica no aconchego do lar a ver o jogo de hóquei na televisão. “Temos uma vida perfeitamente normal. Apenas eliminámos o desperdício”, afirma.

Ao contrário do que pensam muitas pessoas, reduzir a quantidade de lixo que produzimos não dá assim tanto trabalho”, acrescenta. “Compramos por atacado nas idas ao supermercado, poupando tempo e dinheiro”, afirma Williamson.

A única diferença que sobressai na pequena casa com 20 anos é o número de prateleiras usadas para acondicionar as quantidades compradas de arroz, farinha, feijão seco, frutos secos, papel higiénico e outros produtos, o suficiente para evitar deslocações ao supermercado durante um mês, segundo as estimativas de Williamson. “A casa não está atravancada. Ainda consigo estacionar o carro na garagem.”

Williamson, um consultor empresarial na área da sustentabilidade, afirma que o seu objetivo é simplesmente reduzir o desperdício nas diferentes vertentes da sua vida. “É uma forma de pensar que me leva a procurar estratégias mais eficientes para desenvolver certas tarefas. E, uma vez identificadas essas mesmas estratégias, não é necessário grande esforço para as manter”, afirma.

Para tal, ajuda o facto do seu bairro dispor de um bom programa de reciclagem de plástico, papel e metais e de ter espaço no seu quintal para dois pequenos compostores, um para o verão e outro para o inverno, que produzem adubo orgânico em quantidade suficiente para o seu jardim. Em tudo o resto, Williamson compra de forma consciente para evitar o desperdício e realça que deitar lixo fora tem um custo: o embalamento de um produto aumenta o seu preço de venda ao público e cabe ao consumidor suportar o custo decorrente da destruição da embalagem desse mesmo produto, que vem refletido na carga fiscal que pende, anualmente, sobre os contribuintes.

Comprar nos pequenos estabelecimentos de comércio tradicional permite adquirir produtos sem embalagem, desde a carne ao sabonete. E, quando não existe alternativa, Williamson deixa as embalagens na caixa do estabelecimento. As superfícies comerciais podem muitas vezes reciclar ou até mesmo reutilizar determinadas embalagens, e esta é também uma forma de transmitir uma mensagem: os clientes não querem os abacates embalados em plástico.

Estes pimentos embalados em plástico estão à venda no norte de Londres. Mas 42 empresas, responsáveis por 80 por cento do volume de vendas de embalagens de plástico no Reino Unido, assinaram um acordo, que visa reduzir a poluição de plástico nos próximos sete anos através da adoção de um pacote de medidas.

Ao fim de dez anos a reduzir a quantidade de desperdício inerente à sua vida, Williamson ainda continua a ter ideias sobre novas formas de o minimizar. E, neste âmbito, o consultor empresarial refere-se ao desperdício na sua aceção mais lata, por exemplo não adquirir um segundo veículo automóvel para estar estacionado 95 por cento do dia, ou fazer a barba durante o duche para poupar tempo. Williamson aconselha as pessoas a refletir sobre as sua rotinas diárias que possam implicar desperdício. “Se o eliminarem, poderão ter uma vida mais feliz e mais sustentável”, defende.

CINCO PRINCÍPIOS DE DESPERDÍCIO ZERO SEGUNDO OS ESPECIALISTAS, POR ORDEM DE IMPORTÂNCIA

1. Rejeite. Evite comprar produtos acondicionados em embalagens.

2. Reduza. Não adquira produtos dos quais não necessita realmente.

3. Reutilize. Dê um novo propósito a produtos que se tornaram dispensáveis, compre em lojas de segunda mão, e prefira produtos reutilizáveis, como garrafas de águas em inox.

4. Faça compostagem. Mais de 80 por cento do lixo produzido é matéria orgânica, que raramente se decompõe nos aterros sanitários.

5. Recicle. A reciclagem ainda requer alguma energia e uns quantos recursos, mas continua a ser uma alternativa melhor aos aterros sanitários ou às ruas.

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