Uma Viagem de 4828 Quilómetros Revela as Maravilhas Naturais do Alasca, em Risco

Reconstituindo a viagem de um célebre ambientalista há quase 120 anos, um escritor descobre um Alasca muito diferente.segunda-feira, 23 de julho de 2018

Por Simon Worrall

Em 1899, no dia em que se assinalava o Memorial Day, uma embarcação a vapor, sumptuosamente equipada, propriedade do magnata dos caminhos de ferro William H. Harriman, partiu de Seattle em direção ao Alasca numa viagem que iria mudar o destino da América. Entre a elite de passageiros a bordo do navio, seguiam o naturalista John Muir, que tinha fundado recentemente o Sierra Club, e George Bird Grinnell, fundador da Audubon Society. Renderam-se ambos à beleza das florestas virgens e à majestosidade dos glaciares ao longo da rota costeira Inside Passage, e, no regresso, assumiram o compromisso de convencer o presidente Theodore Roosevelt a protegê-las.

No seu livro mais recente, Tip of the Iceberg, o escritor de best-sellers de viagens Mark Adams reconstitui a viagem histórica, trocando impressões com os habitantes do Alasca ao longo do percurso. E o que Adams descobre é um lugar muito diferente, ameaçado pelo degelo de glaciares e pela exploração de petróleo, autorizada no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico, enquanto o presidente Trump parece determinado em reverter as conquistas históricas do seu antecessor republicano, Theodore Roosevelt.

Entrevistado em casa na localidade de Pelham, em Nova Iorque, o escritor explica como o povo tlingit do Alasca contribuiu para moldar a visão de Muir sobre a natureza; como os habitantes do Alasca recebem mais subsídios governamentais do que os habitantes de qualquer outro estado, embora gostem de se descrever como individualistas vigorosos; e por que o Alasca continua a ser um íman para aqueles que querem reinventar-se.

Uma Viagem de 4828 Quilómetros Revela as Maravilhas Naturais do Alasca, em Risco

A sua viagem reconstitui a histórica expedição marítima pela costa do Alasca de John Muir no final do século XIX. Descreva-nos o cenário e fale-nos sobre Edward H. Harriman, o magnata que organizou a viagem. Ele era, de certa maneira, uma figura de proa que se ajusta à época dourada de Trump, não era?

Eu não sei se iria tão longe ao usar palavras tão fortes como Trump. [Ri] John Muir fez várias viagens ao Alasca, Provavelmente, as duas mais importantes terão sido a primeira e a última. Quando visitou o Alasca pela primeira vez, em 1879, Muir foi um dos primeiros brancos a descobrir a região norte, que conhecemos hoje por Inside Passage, e a desenhar o mapa do atual Parque Nacional e Reserva da Baía de Glaciares. Muir rendeu-se à imponência das densas massas de gelo, regressou no ano seguinte e escreveu um conjunto de crónicas de viagens para os jornais de São Francisco de tal forma evocativas, que, em dez anos, a indústria de barcos a vapor, na zona da costa ocidental do Alasca, conheceu um crescimento sem precedentes. Hoje, mais de um milhão de pessoas fazem a viagem a bordo de grandes cruzeiros. É um dos destinos turísticos mais populares do mundo. Por isso, pode dizer-se que John Muir é o pai do turismo de cruzeiro no Alasca.

Vinte anos mais tarde surge no panorama Edward Harriman, um homem multimilionário que fizera fortuna no setor dos caminhos de ferro. Harriman tinha passado o verão anterior a examinar cada metro de ferrovia da Union Pacific, grande parte do tempo sentado sobre o limpa-trilhos que preenche a frente da locomotiva, procurando identificar falhas. [Ri] Por conta disso, perto do fim de 1898, Harriman está completamente exausto. O médico diz-lhe que tem de fazer uma pausa no verão de 1899, e Harriman, sendo um homem com recursos, disse: “Pois seja, vou fazer umas dessas férias tão de moda pela costa do Alasca! Mas, primeiro, vou transformar um dos meus barcos a vapor num enorme iate de luxo, com capacidade para mais de 100 pessoas, e convidar uma vintena de cientistas, artistas e escritores americanos de renome”.

Obviamente, John Muir foi uma das primeiras personalidades convidadas. No início, Muir não se mostrou muito entusiasmado com o convite. Ele não gostava particularmente de industriais e, por essa altura, tinha acabado de fundar o Sierra Club na Califórnia, pelo que declinou o convite de Harriman. O seu amigo Hart Merriam, que assumia a direção do então United States Biological Survey, convenceu-o. “John, vais ter a oportunidade de ver glaciares que nunca viste, porque vamos percorrer lugares, ao longo da costa do Alasca, que praticamente nunca ninguém visitou, com exceção dos povos nativos que habitam a região”, disse-lhe Merriam. Assim, no feriado em que se celebrava o Memorial Day, em 1899, uma elite de cientistas e intelectuais, bem como a família de Edward Harriman, incluindo os seus filhos, partiram do porto de Seattle.

Descreve os lençóis de gelo no Alasca, desde a viagem de Muir, como “um gelado de água que derrete ao sol”. Quais as evidências que apontam para as alterações climáticas? E porque é que existem tantos habitantes do Alasca em negação?

Muitos habitantes do Alasca estão em negação pela mesma razão que existem tantos outros americanos em negação. Estas pessoas alimentam-se de uma corrente contínua de desinformação. As pessoas olham lá para fora e veem que está a nevar, pelo que inferem que o clima não está a aquecer. [Ri] Mas 99 por cento das calotas polares do Alasca, aquelas que toda a gente quer ver, estão a recuar. Há ainda, no entanto, um número reduzido de calotas que se mantêm e algumas pessoas como a antiga governadora Sarah Palin usaram estas exceções como evidência: “Como veem os glaciares no Alasca estão a aumentar, pelo que as alterações climáticas são uma verdade fabricada”. Mas a razão pela qual esses glaciares estão a aumentar deve-se à acumulação de camadas de gelo e também de neve, que começou a cair muito antes de Cristóvão Colombo ter cruzado o Oceano Atlântico, e que só agora, ao cristalizar, alcançou a superfície da água!

Esta fotografia que retrata um grupo de fotógrafos olhando para noroeste foi tirada no mesmo local no litoral este de Muir Inlet, no Parque Nacional e Reserva da Baía de Glaciares, no Alasca. As fotografias revelam as mudanças ocorridas no Glaciar de Muir ao longo de mais de um século. A fotografia a preto e branco foi tirada entre 1880 e 1890.
Esta fotografia que retrata um grupo de fotógrafos olhando para noroeste foi tirada no mesmo local no litoral este de Muir Inlet, no Parque Nacional e Reserva da Baía de Glaciares, no Alasca. As fotografias revelam as mudanças ocorridas no Glaciar de Muir ao longo de mais de um século. A fotografia a cores foi tirada no dia 11 de agosto de 2005.

Bruce Molnia, um cientista da Sociedade de Geografia dos Estados Unidos, comparou fotografias tiradas no final do século XIX com fotografias tiradas na atualidade, a partir do mesmo local. O exemplo clássico é o Glaciar de Muir, batizado em honra de John Muir. Até à viragem do século XX, este glaciar azul, com uma frente de gelo com 91 metros de altura, imponente e belo, era a principal atração turística do Alasca. Mas o Glaciar de Muir recuou 48 quilómetros para terra, sendo necessário deslocar-se propositadamente para o ver. Mas ninguém o faz, porque o glaciar deixou de ser impressionante.

Muir e os demais exploradores tiveram um vasto contacto com o povo tlingit. Fale-nos sobre esta tribo e em que medida a sua relação com a natureza e o ambiente influenciou Muir.

Os tlingit, tal como muitos outros povos do noroeste do Pacífico, eram uma espécie de sociedade animista. Acreditavam que a natureza estava presente em todas as formas de vida. A visão deste povo aproximava-o de John Muir e da paixão que sentia pela natureza. Por isso, quando Muir alcançou as zonas superiores da Inside Passage em 1879 e 1880 e começou a pregar, fazendo-se acompanhar de um missionário presbiteriano, sendo esperado que ambos falassem, os tlingit mostraram-se particularmente sensibilizados. Pela primeira vez, os clãs pensaram: “Eis, por fim, um homem branco que nos compreende”.

E vice-versa. Há uma história famosa que Muir contou sobre um cão chamado Stickeen, que o seguiu numa das viagens mais arriscadas que fez sobre a superfície de um glaciar. Muir escreveu um pequeno livro sobre o animal e não há dúvida de que acreditava que Stickeen tinha uma alma. Isso pode ser inferido num momento da sua primeira viagem: “Acredita que os animais têm alma? Os lobos têm alma?”. Foi grande o intercâmbio entre Muir e os seus guias, e provavelmente satisfaziam mutuamente a curiosidade de ambas as partes.

Diz que “os habitantes do Alasca veem-se a si mesmos como pessoas autoconfiantes”. No entanto, recebem os subsídios governamentais mais elevados do que os habitantes de qualquer outro estado. Isso não é uma contradição?

[Ri] Oh, sim, em absoluto! Falei com um antigo economista, que trabalhou no setor público, e que me disse que, na perspetiva dos seus habitantes, o Alasca é um estado ainda jovem e vasto, com uma topografia muito própria que dificulta a movimentação, além de que o país beneficia dos recursos naturais do Alasca. Ora tudo isto justifica a atribuição de subsídios até que o Alasca atinja um determinado número populacional, que lhe permita ser autossuficiente.

Aquilo de que os habitantes do Alasca não falam é que cada homem, mulher e criança, que habite naquele estado, recebe, anualmente, um cheque relativo a royalties sobre as receitas do petróleo. Temos um estado que está praticamente a derreter e, no entanto, durante 50 anos, o contingente republicano em Washington, que representa o Alasca, tem feito pressão para que fosse autorizada a exploração de petróleo no Refúgio Nacional de Vida Selvagem no Ártico, uma extensão de terra absolutamente linda e imaculada. No ano passado, conseguiram-no por fim.

As pessoas que vêm ao Alasca para fugir ao mundo civilizado são conhecidas por “viajantes de fim de estrada”. Dê-nos a conhecer algumas dessas pessoas e explique-nos por que se sentem atraídas pelo Alasca.

Um amigo que cresceu no estado disse-me em tempos: “Existem três tipos de pessoas no Alasca: os nativos, que habitam o espaço desde sempre; as pessoas que chegam ao Alasca à procura de algo, geralmente uma forma de enriquecimento rápido, seja através da exploração da indústria de conserva de salmão ou da exploração do ouro. Mas talvez as pessoas mais interessantes sejam aquelas que vêm ao Alasca para fugir de alguma coisa”.

Richard Beneville, o presidente da Câmara Municipal de Nome, é uma dessas pessoas. Beneville integrou um grupo de teatro na Broadway até ao início dos anos 80, mas tinha um problema horrível com o álcool.  Desperdiçou uma carreira na área da representação e acabou em Nome por intermédio do irmão, uma das cidades do Alasca com maior taxa de consumo de álcool, e foi precisamente ali que Beneville ficou sóbrio. [Ri]

Se os americanos são pessoas que gostam de se reinventar, o Alasca é uma prova dura, na qual um indivíduo pode ser aquilo que pretender. Se quiser ser um solitário dedicado à exploração do ouro e não quiser falar mais com outro ser humano, pode fazê-lo. Ou, se quiser ir para Nome para superar os problemas de alcoolismo, uma das cidades com maior taxa de consumo de álcool, pode fazê-lo. O Alasca é um lugar onde cada um pode ser aquilo que quiser.

Qual foi a importância da expedição Harriman para o futuro da conservação americana? E em que medida é que o seu legado está a desaparecer? Será o Alasca destruído eventualmente?

Em 1899, a conservação do litoral este, na pessoa de George Bird Grinnell, fundador do Audubon Society, e a conservação do litoral oeste, na pessoa de John Muir, que tinha acabado de fundar o Sierra Club, convergem pela primeira vez a bordo de um navio, durante dois meses, para uma viagem pelo Alasca. Estavam ambos convencidos de que iriam participar numa operação de cosmética, mas aperceberam-se de que o Alasca não é esse armazém inesgotável de recursos, que pode ser explorado indefinidamente. Há uma crise ambiental que se desenha no horizonte do Alasca. Vazam-se químicos nas águas associados à exploração do ouro. As populações de salmão estão a desaparecer em virtude da sobrepesca.  As focas, que atraíam os russos ao Alasca, estão à beira da extinção, porque não existe qualquer tipo de fiscalização governamental no terreno.

Estes dois homens regressaram a Washington e eram ambos pessoas muito bem relacionadas. George Bird Grinnell, em particular, era um mentor para Theodore Roosevelt, que se viu subitamente como Presidente dos Estados Unidos, na sequência do assassinato de William McKinley. Roosevelt lia os testemunhos sobre a expedição Harriman e as narrativas sobre glaciares e ursos, quando disse: “Sabem, vou fazer uso da nova lei Antiquities Act para preservar tudo aquilo que viram no Alasca: dezenas de milhares de hectares protegidos para as gerações futuras”. É por essa razão que hoje, quando as pessoas fazem um cruzeiro pela Inside Passage, olham em redor e dizem: “Uau! A civilização ainda não chegou aqui! A paisagem é linda, natural e tão primitiva.”

Chegados ao dia de hoje, temos outro presidente republicano, que está a acabar precisamente com todas as medidas que Roosevelt adotou para proteger as terras americanas para as gerações futuras. Há uma afirmação assustadoramente irónica que John Muir fez alguns anos depois de ter regressado da expedição Harriman. Muir escreveu, e cito: “Embora a humanidade esteja a destruir grande parte do planeta, existem três coisas demasiado grandiosas para que possam ser destruídas pela mão humana. O Homem nunca destruirá os polos de gelo, o oceano ou o Grand Canyon.”

Bem, os polos estão a derreter, como os habitantes do Alasca sabem todos muito bem, os oceanos foram invadidos pelo plástico e as suas águas aquecem de ano para ano, e a administração Trump fala em abrir uma exploração de urânio nos limites do Grand Canyon! Isto significa que tudo aquilo que damos como garantido, com carácter permanente, como os parques nacionais, talvez não seja assim tão permanente. Creio que muitas destas paisagens naturais correm atualmente sérios riscos. E, como se pode ver no caso da exploração de petróleo no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico, quando há dinheiro em jogo, as pessoas aceitam fazer qualquer coisa.

Esta entrevista foi editada por razões de clareza e extensão.

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