Porque é Que Uma Época Sem Furacões Não é Necessariamente Bom?

O aquecimento do Ártico pode provocar o avanço da trajetória das tempestades mais para oeste, aumentando as probabilidades de alcançarem terra. segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Um satélite da Administração Nacional para a Atmosfera e Oceanos captou esta imagem do furacão Maria no dia 18 de setembro de 2017.
Um satélite da Administração Nacional para a Atmosfera e Oceanos captou esta imagem do furacão Maria no dia 18 de setembro de 2017.
fotografia de CIRA, NOAA

Segundo os meteorologistas da Universidade Estatal do Colorado, o pico da próxima época de furacões será relativamente calmo na bacia do Atlântico. Mas um relatório publicado no dia 1 de agosto pela Administração Nacional para a Atmosfera e Oceanos identificou uma tendência preocupante, que pode ter implicações na previsão de futuros furacões: o aquecimento do Ártico pode conduzir ao avanço da trajetória dos furacões do Atlântico mais para oeste e aumentar as probabilidades de atingirem a costa dos Estados Unidos.

Os meteorologistas da Universidade Estatal do Colorado, dirigidos pelo meteorologista Phil Klotzbach, acreditam que as águas mais frias e o ar mais seco da bacia do Atlântico, que abrange o Oceano Atlântico, o Golfo do México e o Mar das Caraíbas, juntamente com a presença de ventos superiores, fenómeno conhecido por cisalhamento do vento, dificultarão a formação de tempestades.

Os furacões obtêm a sua força a partir das águas quentes dos oceanos, e o ar quente e húmido contribui para que aqueles se mantenham. É menos provável que as tempestades, que estão na origem dos furacões, se intensifiquem, quando privadas da sua fonte de alimento e ante condições atmosféricas hostis, o que aponta para uma época de 2018 relativamente tranquila.

Desde o início da época de furacões a 1 de junho, foram registadas quatro tempestades identificadas. A época termina no dia 30 de novembro.

Os meteorologistas da Universidade Estatal do Colorado preveem a formação de mais nove tempestades tropicais identificadas, com ventos a soprar a velocidades superiores aos 63 quilómetros por hora, na bacia do Atlântico. É provável que três dessas tempestades evoluam para furacões com ventos superiores, no mínimo, a 120 quilómetros por hora. E é também provável que uma dessas tempestades evolua para um furacão de grande intensidade, com ventos a atingir velocidades superiores aos 177 quilómetros por hora.

A previsão é uma boa notícia para os habitantes das regiões costeiras dos Estados Unidos, que suportaram a devastação de três furacões durante o pico da época no verão do ano passado. O furacão Harvey inundou a cidade de Houston e a costa do Golfo no dia 25 de agosto de 2017. O furacão Irma semeou a destruição nas Caraíbas, desferindo um duro golpe na região de Florida Keys e acabando por perder força e extinguir-se numa zona perto de Naples, na Flórida, no dia 10 de setembro. Dez dias mais tarde, o furacão Maria destruiu Porto Rico, provocando um dos piores desastres naturais da história da ilha.

No 28.o relatório anual sobre o estado do clima da Administração Nacional para a Atmosfera e Oceanos foi feita uma referência à possível influência da corrente de jato. O relatório referia que é provável que o aquecimento do Ártico afete a corrente de jato, uma corrente de ar estreita, que desloca, a grande velocidade, por vários quilómetros sobre a superfície terrestre, na direção de oeste para este, influenciando os padrões climáticos do planeta.

A trajetória da corrente de jato pode oscilar de uma linha reta para uma linha ondulante, dependendo do aquecimento do Ártico. A formação da corrente de jato pode intensificar ou diminuir a força de um furacão, assim como pode dirigir uma tempestade para terra ou afastá-la.

Quando a corrente de jato ondula, aumenta a probabilidade de ocorrência de fenómenos meteorológicos pouco comuns. Muitos cientistas acreditam que o avanço da trajetória do furacão Sandy para oeste, que se abateu sobre a costa de Nova Jersey, em outubro de 2012, se deveu a uma corrente de jato ondulante, que percorria a zona nessa altura.

Segundo o oceanógrafo James Overland da Administração Nacional para a Atmosfera e Oceanos, a configuração ondulada da corrente de jato pode forçar a progressão da trajetória dos furacões do Atlântico para oeste, o que pode aumentar as possibilidades das tempestades avançarem para terra, em vez de evoluírem no mar sem causar danos.

“Este fenómeno aumenta as probabilidades dos furacões poderem alcançar terra”, afirmou. Mas a teoria de uma corrente de jato ondulante, com repercussões nas trajetórias dos furacões, é ainda um tema controverso no seio da comunidade científica. A transição para uma configuração ondulante alargada no tempo poderá surgir quando a quantidade de gelo existente no Alasca for menor do que a habitual.

O relatório sobre o estado do clima da Administração Nacional para a Atmosfera e Oceanos, estruturado por uma centena de cientistas internacionais, “é um exame físico completo anual do nosso planeta”, segundo Jeff Rosenfeld, editor-chefe do Boletim da Sociedade Americana de Meteorologia. Rosenfeld afirmou que o relatório anual estabelece as linhas mestras, tais como temperaturas, condições atmosféricas, precipitação e outras métricas, que permitem aos cientistas identificar alterações nos padrões climáticos.

O relatório sublinha que o Ártico mantém a tendência de aquecimento a um ritmo muito mais acelerado do que o resto do planeta, tendo sido também realçado que o aquecimento se manifestou em algumas tendências por si só preocupantes, incluindo a maior perda de gelo marítimo jamais observada em 1450 anos, a estranha formação de gelo no final do outono no Ártico Pacífico e uma das áreas mais pequenas de gelo de inverno. Overland advertiu que é ainda muito cedo para afirmar se as condições do Ártico influirão na época de furacões deste ano.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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