Reencontro de Duas Gerações de Líderes, Defensoras do Oceano

Sylvia Earle e Jessica Cramp partilham o que as inspira e revelam como podemos contribuir para fazer do planeta um lugar mais limpo e mais azul.quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Por Brian Clark Howard
A bióloga marinha Jessica Cramp explora as águas das Ilhas Galápagos.
A bióloga marinha Jessica Cramp explora as águas das Ilhas Galápagos.
fotografia de Kike Ballesteros, National Geographic
A National Geographic produziu este conteúdo no âmbito da parceria desenvolvida com a Rolex, criada com o propósito de promover a exploração e a conservação. As organizações uniram forças para apoiar os exploradores que alimentam grandes ideias e procuram soluções reais para proteger as maravilhas da Terra.

Como uma das líderes mais aclamadas e mais bem-sucedidas, Sylvia Earle faz campanha em nome do oceano há mais de meio século. Aos 82 anos, Earle mantém uma agenda preenchida, que divide pela exploração, sensibilização do público e defesa dos oceanos, e que a leva a percorrer o mundo e a privar com inúmeras pessoas, desde dirigentes mundiais a crianças em idade escolar.

Embora as pessoas em geral se esqueçam com frequência, o oceano é essencial à vida na Terra, afirma Earle, que estabeleceu vários recordes de exploração no decurso da sua longa carreira e que lhe valeram a alcunha de Sua Alteza dos Mares.

“O oceano não se resume aos peixes”, diz Earle, que é também uma embaixadora da Rolex. “Pensem no ciclo do carbono, pensem no clima, pensem na química do planeta que esculpiu todas as formas de vida na Terra”.

Earle inspirou milhões de pessoas em todo o mundo a cuidar dos oceanos e a promover a sua conservação, numa perspetiva mais global. Jessica Cramp, exploradora da National Geographic, é uma dessas pessoas. Desde 2011, Cramp tem vivido e trabalhado na Ilhas Cook, onde estuda os tubarões e os ecossistemas marinhos e defende os seus interesses. O seu trabalho contribuiu de forma decisiva para ajudar a criar o maior santuário de tubarões do mundo nas Ilhas Cook.

A National Geographic esteve à conversa com Earle e Cramp sobre as respetivas carreiras e os grandes problemas que afetam o oceano e o nosso planeta.

Pertencem a duas gerações de mulheres cientistas distintas. O que aprenderam uma com a outra?

SE: Tenho uma verdadeira admiração pelo trabalho da Jessica. Ela está no terreno e entrega-se a 100 por cento ao trabalho. Ela agarrou este momento no tempo.

JC: Sylvia é uma verdadeira fonte de inspiração. É graças à Sylvia e a um conjunto de mulheres que desbravaram caminho que posso desenvolver o trabalho que faço hoje. É mais fácil para mim do que foi certamente para si, Sylvia.

Que desafios enfrentaram ambas?

SE: Hoje em dia, é comummente aceite a ideia de que uma mulher é tão competente quanto um homem, mas há ainda um caminho a percorrer.

JC: Há ainda muito trabalho pela frente, inclusive no local onde vivo, nas Ilhas Cook. Recentemente, coordenei uma expedição nas ilhas e alguns dos habitantes locais não sabiam como lidar com a situação.  Continuavam a dirigir-se aos homens que integravam a minha equipa, sempre que precisavam de orientações, e faziam observações do género: “Espera, ela é que é a coordenadora? A sério? Ela deve ser especial”. E chegaram ao ponto de dizer: “Porque não deixas os homens trabalhar e vais aprender a dançar o hula?”

SE: Os media costumavam fazer-me perguntas sobre o meu cabelo e o meu batom. Perguntaram-me por que levava um secador de cabelo nas expedições. Pois bem, o secador não era para o cabelo, mas sim para as orelhas. Mas apercebi-me de que, pelo menos, tinha a atenção dos media, pelo que podia usá-la para falar dos oceanos.

JC: Aparentemente, eu não pareço uma cientista. Assim mo disse uma jornalista. Pois bem, qual deve ser o aspeto de uma cientista nesta situação?

Sylvia, eu queria perguntar-lhe como se tornou cientista?

SE: Eu comecei como testemunha. Quando era miúda, vi os bosques de Nova Jersey, onde vivia, darem lugar a urbanizações. Quando tinha 12 anos, a minha família mudou-se para a Flórida, um mundo maravilhoso e completamente diferente de Nova Jersey. Eu passava o tempo na natureza e no mar. Mas, gradualmente, o tijolo e a argamassa assumiram o controlo da paisagem. A baía de Tampa transformou-se de um momento para o outro. Foi por isso que me tornei cientista.

No início, eu só queria concentrar-me na ciência. Mas a atenção dos media e do público forçaram-me a sair da minha concha. Não demorou muito até que eu estivesse na Câmara Municipal de Chicago ou no Congresso a dar o meu testemunho sobre assuntos de relevo.

Jess, grande parte do seu trabalho procura envolver as comunidades locais na conservação marinha. Porque é que isso é tão importante?

JC: Eu sou uma cientista, mas a minha área científica requer a ação dos poderes públicos. Trabalhar com a comunidade local é essencial para o trabalho que desenvolvo. Se não envolvermos a comunidade, ficamos sem suporte para quaisquer esforços de conservação. Seria escusado.

Sylvia, o seu trabalho divide-se amiúde entre ações de âmbito local e ações à escala mundial. Como consegue navegar num território tão vasto?

SE: Temos de trabalhar com as comunidades locais, tal como temos de trabalhar com presidentes, ministros, diretores-gerais e com todas as outras pessoas, sem esquecer os pescadores, porque eles estão no terreno em permanência e são conhecedores privilegiados dos oceanos. Geralmente, os pescadores são os primeiros a identificar alguma situação, como capturas massivas. Os cientistas não conseguem, por vezes, mobilizar as pessoas que são testemunhas privilegiadas de uma realidade e cujo contributo pode ser determinante no trabalho que desenvolvem.

É nosso papel enquanto cientistas comunicar ao público aquilo que sabemos. Geralmente, as pessoas querem ter áreas protegidas, porque sabem que elas são realmente importantes.

Earle mostra uma alga a uma visitante.
Earle mostra uma alga a uma visitante.
fotografia de Bates Littlehales, National Geographic

Ambas usaram tecnologia de vanguarda ao serviço da conservação dos oceanos. Qual é a importância dessa ferramenta?

SE: Milhões de pessoas estão a mergulhar nas águas dos oceanos, graças aos avanços da tecnologia como o equipamento de mergulho. Rachel Carson teve apenas uma oportunidade de mergulhar na vida. Lançou-se às águas, com um escafandro feito de cobre, numa profundidade de três metros, com o auxílio de uma escada, em águas turvas. Mas imagine se ela tivesse tido a oportunidade de ver aquilo que veem hoje os mergulhadores amadores? Já para não falar de aparelhos de tecnologia de vanguarda, como drones, veículos operados remotamente, submarinos e estações de monitorização.

JC: E já viveu abaixo da superfície das águas, não viveu, Sylvia?

SE: Dez vezes. Passar tanto tempo debaixo de água permitiu-me conhecer os peixes enquanto indivíduos. Eles não se comportam todos da mesma maneira. Cada um tem o seu próprio temperamento.

JC: Por falar em tecnologia, muitos dos dados que uso atualmente para o meu trabalho são obtidos graças à vigilância por satélite. É possível ver as zonas onde os navios de pesca operam e essa é uma informação essencial para assegurar de que a lei em vigor na zona está efetivamente a ser cumprida, bem como acompanhar os movimentos de tubarões e aves marinhas que não conhecem as fronteiras dos países ou dos parques.

SE: Este tipo de trabalho, com suporte nos sistemas de vigilância por satélite, permitiu abrandar o tráfego marítimo nos corredores críticos de migração de baleias e tartarugas.

JC: A tecnologia ajudou-nos a desenvolver políticas de proteção de um bem que acarinhamos.

SE: A tecnologia atua nos dois sentidos. É uma dádiva tanto para a ciência, como para a exploração. As revistas dedicadas à pesca estão cheias de publicidade que dizem que os peixes não têm onde se esconder, por causa dos sonares. A geolocalização é tão importante para a ciência, como para os pescadores ao permitir regressar exatamente a um mesmo lugar. Quando eu estava no início da minha carreira científica, era muito difícil voltar a encontrar exatamente o mesmo lugar no oceano.

Falemos sobre tubarões, com os quais tem grande proximidade. Qual é, na sua opinião, a razão do fascínio das pessoas por estes animais?

JC: Eu tenho por hábito dizer que os tubarões são a porta de entrada para adição no mundo marinho. As crianças adoram os tubarões e os adultos ora os adoram, ora os temem. De uma forma ou de outra, as pessoas sentem um fascínio por estas criaturas, que pode servir, por sua vez, para atraí-las e levá-las a descobrir mais sobre os oceanos.

SE: Por vezes, digo que os tubarões são dinossauros honorários, por essa mesma razão. Os tubarões são excelentes indicadores da saúde dos oceanos. Um recife saudável tem sempre muitos tubarões, ao contrário de um recife doente. As pessoas tendem a ver os tubarões como os derradeiros predadores, mas não é verdade. Nós somos o maior dos predadores.

Earle observa uma esponja tubular gigante nas águas de Bonaire.
Earle observa uma esponja tubular gigante nas águas de Bonaire.
fotografia de David Doubilet, National Geographic

Com tantos desafios no trabalho de conservação, o que vos inspira?

SE: A Jessica.

JC: Sinto-me muito honrada. Para mim, a Sylvia.

E também saber que estes problemas podem ser resolvidos. Não temos qualquer desculpa para dizer que não sabemos o que fazer. As pessoas estão hoje muito mais informadas e têm, por conseguinte, mais consciência das verdadeiras questões. Muitos políticos conhecem os problemas e estão dispostos a agir para encontrar soluções. Apenas temos de vencer aquela inércia que nos impede à partida de pôr mãos à obra.

JC: Eu queria muito perguntar-lhe, Sylvia, onde se apoia para superar os momentos difíceis deste trabalho?

SE: É uma combinação de coisas. É a crença no espírito humano, na nossa capacidade para cuidar. É também a capacidade de resiliência da natureza. Existem hoje mais tartarugas e baleias nos oceanos do que nos meus tempos de miúda. O ganso-havaiano estava reduzido a um número diminuto de indivíduos, mas agora estão a surgir novamente. E há muitos outros exemplos.

Há algum conselho que gostariam de transmitir às gerações futuras, interessadas na proteção dos oceanos?

SE: As crianças não têm tantas ideias preconcebidas como os adultos e, por isso, é particularmente reconfortante ver o interesse delas. As crianças fazem perguntas e ficam ansiosas por obter respostas. E ainda que seja mais difícil, penso que é essencial encontrar a criança dentro de cada um de nós, porque o oceano está em perigo.

JC: Espero que a próxima geração consiga encontrar o equilíbrio com o ambiente.

Como podem as pessoas contribuir diariamente para um oceano mais limpo?

SE: Se for uma criança, agarre num adulto, leve-o para a natureza e tente que ele veja o futuro através dos seus olhos.  Se for um adulto, faça o mesmo com uma criança. Quando entra no oceano, sobretudo num Hope Spot, um lugar especial com elevado valor em matéria de conservação, partilhe as suas fotografias e a informação, porque o seu testemunho importa.

JC: Façam pressão sobre os vossos líderes. Façam voluntariado.

SE: Hoje vivemos melhor e por mais anos, em parte porque sabemos o que é preciso para levar uma existência saudável. Sabemos que uma dieta alimentar à base de vegetais é uma parte fundamental para uma vida saudável, diminuindo o nosso impacto no planeta e noutras espécies. Podemos fazer escolhas e é essencial que aprendamos a respeitar outras formas de vida apenas porque elas existem e partilham connosco o planeta. Nada disto é trivial. Tudo contribui para fazer de nós aquilo que somos. E temos um lugar no tempo para agir hoje.

Esta entrevista foi editada e resumida. Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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