Um Homem Promove a Mudança em Aldeias Dependentes do Abate Ilegal de Árvores

A chave para acabar com a caça furtiva e o abate ilegal de árvores? Oferecer soluções reais às comunidades locais.quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Hans Cosmas Ngoteya, explorador da National Geographic, trabalha com as aldeias em redor do Parque Nacional de Katavi, na Tanzânia. Ngoteya descobriu que os aldeães despojam o parque dos seus próprios recursos, porque não têm outras opções, pelo que está a desenvolver alternativas que possam dar resposta às necessidades das comunidades locais, sem comprometer a vitalidade e a sustentabilidade da vida selvagem.
Hans Cosmas Ngoteya, explorador da National Geographic, trabalha com as aldeias em redor do Parque Nacional de Katavi, na Tanzânia. Ngoteya descobriu que os aldeães despojam o parque dos seus próprios recursos, porque não têm outras opções, pelo que está a desenvolver alternativas que possam dar resposta às necessidades das comunidades locais, sem comprometer a vitalidade e a sustentabilidade da vida selvagem.
fotografia de MARK THIESSEN, NATIONAL GEOGRAPHIC

Quando Hans Cosmas Ngoteya, um explorador da National Geographic e conservacionista oriundo da Tanzânia, começou a trabalhar no terreno há quatro anos, não compreendia os motivos que podiam levar uma pessoa a matar animais selvagens ou a destruir as florestas num parque nacional.

“Porque é que se abatem árvores sem razão aparente?”, pensou na altura. “Porque é que se caça ilegalmente animais selvagens?”

Ngoteya trabalha com as aldeias em redor do Parque Nacional de Katavi, uma vasta área na região ocidental da Tanzânia pouco turística, se comparada com outros destinos célebres que figuram nos roteiros de viagens, como o Serengeti. Sem turismo, as comunidades que habitam nas zonas próximas de Katavi têm poucas oportunidades económicas. O sustento da maioria das pessoas é assegurado pela criação de gado, que mantêm no exterior das pequenas habitações, ao contrário das galinhas e patos que coabitam no interior com as famílias.

“A natureza sempre nos valeu”, disseram a Ngoteya as gentes locais. “Por isso, quando nos impõem limites para ter acesso à natureza, é como se estivessem a pôr limites à nossa vida.”

A incursão humana em áreas protegidas pode assumir muitas formas. Talvez a mais conhecida seja a caça de animais, ora por proveito financeiro, ora para alimentação, mas outra incursão bastante comum é o abate ilegal de árvores, sobretudo espécies ameaçadas, como a Pterocarpus angolensis, conhecida localmente como mninga, e a Afrocarpus usambarensis, ou mpodo na gíria local. Os prevaricadores são agrupados numa única categoria: criminosos. No entanto, Ngoteya apercebeu-se de que as motivações para os atos praticados eram diferentes.

O primeiro passo para o trabalho de conservação de Ngoteya era ganhar a confiança da comunidade. Após anos de sucessivas acusações e detenções pelos grupos conservacionistas, que privilegiavam o bem-estar dos animais selvagens em detrimento das pessoas, a aldeia olhou com ceticismo o VIMA, um projeto desenvolvido por Ngoteya para sensibilizar e formar os habitantes em matéria de conservação, apresentando soluções alternativas que permitissem assegurar a subsistência das comunidades rurais perto de Katavi. As gentes locais desconfiavam inclusive que Ngoteya pudesse ser um informador do parque. “Toda a pessoa que tomar partido da vida selvagem, não é bem-vinda na aldeia.”

Os métodos de gestão da vida selvagem, com enfoque nas comunidades, defendidos por Ngoteya são também populares no seio dos grandes grupos de conservação, como a World Wildlife Fund. Lisa Steel, diretora sénior para as regiões de África e Madagáscar da organização, afirma que gostaria que as comunidades locais “tivessem poder para pôr em prática a sua própria visão”. Ao contrário de Ngoteya, o trabalho de Steel centra-se em áreas não protegidas enquanto parques nacionais, mas tal não significa que essas áreas não precisem de ser geridas de forma sustentável. No seu trabalho, Steel compreende que não basta dizer às comunidades que se abstenham de usar os recursos naturais em seu redor. Segundo Steel, a World Wildlife Fund está a trabalhar para ajudar os habitantes locais a “atribuir maior valor à vida dos animais selvagens para evitar que os matem”.  

Ngoteya tentou uma abordagem semelhante. No ano passado, o projeto VIMA focou-se na questão do abate ilegal de árvores em Katavi. Ngoteya procurou primeiro compreender as razões que levavam as pessoas a abater as árvores, e percebeu que era uma questão de necessidade: os habitantes precisavam de lenha.

Ngoteya também trabalhou em parceria com a Universidade de Oxford para reunir dados sobre o sucesso dos esforços de conservação do projeto VIMA em três vertentes: conhecimento, atitude e comportamento. Os programas do VIMA sobre a sensibilização para a vida selvagem, como uma iniciativa que levou os jovens locais a Katavi para que pudessem conhecer e trocar impressões com os guardas do parque, contribuíram para aumentar o conhecimento e melhorar as atitudes dos habitantes da aldeia. O comportamento no seio da comunidade também mudou, mas não da forma que Ngoteya esperava.

Por outro lado, um viveiro de árvores na aldeia teve tanto sucesso, que a procura de rebentos excedeu a oferta. Mas, por outro lado, os dados recolhidos por Ngoteya e pela equipa em Oxford revelaram que a comunidade começou a comprar carvão vegetal em substituição da lenha, pagando a terceiros para abater as árvores.

Para resolver verdadeiramente o problema, Ngoteya sabia que tinha de apresentar uma solução alternativa sustentável.

“A ideia que estamos a desenvolver neste momento centra-se na implementação de um sistema de biogás, que seja alimentado pelo estrume das vacas”, diz Ngoteya. “Por isso, se lhes pedirmos para não abaterem as árvores, podemos apresentar-lhes uma alternativa. Usem este sistema. Não é dispendioso. Basta apenas que aproveitem as vacas, um recurso do qual já dispõem, para produzir energia.”

Com esta abordagem fundamentada em dados, Ngoteya pode adequar as respostas aos diferentes resultados do seu programa de conservação e aperfeiçoar as estratégias mais eficientes para melhorar a coexistência humana e a formas de vida selvagem. Ngoteya espera que os seus métodos de longo prazo permitam elevar a proteção da vida selvagem e das florestas do Parque Nacional de Katavi e ofereçam soluções sustentáveis para as aldeias próximas.

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