Espécies Invasoras Atravessam os Oceanos à Boleia do Plástico

Crustáceos e moluscos alheios aos Estados Unidos sobreviveram seis anos no oceano à boleia do lixo que flutua nas suas águas.quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Sabemos que os plásticos são tão abundantes em mar aberto como são abundantes no nosso quotidiano. Mas, até há pouco tempo, os cientistas não supunham que este lixo pudesse trazer uma nova vaga de espécies invasoras à costa dos Estados Unidos. Hoje eles não só têm consciência dessa realidade, como também acreditam que algumas espécies podem prosperar.

Pouco tempo depois do terramoto e do tsunami que atingiram a costa do Japão em 2011, uma vaga de lixo flutuante, como gaiolas de crustáceos, fragmentos de embarcadouros, barcos de pesca inteiros, começou a afluir à costa ocidental da América do Norte e ao Havai. O tsunami tinha arrastado para o mar a infraestrutura plástica do Japão, que flutuara em direção à América do Norte.

Os cientistas esperavam que grande parte dos destroços dessem à costa, conhecedores da força e da direção das correntes oceânicas, mas não sabiam que os mexilhões, os percebes e os tunicados japoneses podiam sobreviver seis anos numa travessia ao longo do Oceano Pacífico e alcançar terra não só vivos, como também aptos a reproduzirem-se.

“Até essa altura, não pensávamos realmente que estes organismos costeiros pudessem sobreviver no mar o tempo suficiente para fazerem a travessia”, afirma Greg Ruiz, cientista sénior do laboratório de invasões marinhas do Centro de investigação Ambiental do Instituto Smithsonian, na sigla inglesa SERC. “A observação da realidade mostrou-nos que estes seres não só são capazes de sobreviver, como efetivamente sobrevivem, e é expetável que esta realidade se torne recorrente à medida que a quantidade de destroços no oceano aumenta.”

Os investigadores recolheram tantos destroços quanto os possíveis num período de seis anos, quando o lixo continuava a chegar à costa ocidental dos Estados Unidos. Um estudo identificava os organismos que tinham vindo com o lixo, tendo sido descobertas 289 espécies japonesas que tinham sobrevivido à viagem.

Christina Simkanin, uma bióloga e investigadora do laboratório de invasões marinhas do SERC, estuda atualmente as repercussões da invasão progressiva, com o objetivo de perceber se existem novas populações geradas a partir de uma espécie não nativa na zona onde esta desembarcou. Muitas das espécies que alcançaram terra eram desconhecidas da costa ocidental dos Estados Unidos e, como qualquer espécie não nativa, podem causar danos nos novos ambientes.

Uma espécie de algas japonesa, por exemplo, que já se tinha propagado em San Francisco e San Diego deu à costa com os destroços, no estado de Oregon. Um caranguejo da costa do Japão, nativo de várias zonas da Ásia, viajou no tsunami de lixo que atingiu a costa ocidental dos Estados Unidos. E os cientistas temeram que um mexilhão costeiro originário do mar Mediterrâneo pudesse ter trazido consigo um parasita desconhecido da costa ocidental dos Estados Unidos e do Canadá.

Quando os investigadores fazem soar o alarme da chegada de uma nova espécie não nativa, geralmente tentam perceber como é que aquela espécie chegou à região. Historicamente, muitas espécies marinhas fazem a viagem na água de lastro que um navio recolhe em determinada zona costeira para lhe aumentar a estabilidade até alcançar a próxima, embora a legislação exija que os navios esvaziem os respetivos tanques no mar, reduzindo o número de viajantes indesejados que alcançam a costa dos Estados Unidos. Outros visitantes não desejados foram introduzidos por humanos à procura de um novo peixe para pescar ou determinados a largar no lago mais próximo a criatura tropical do aquário lá de casa.

Mas a onda de novas espécies que seguiram o tsunami japonês pôs os investigadores a pensar: quantos invasores terão apanhado o comboio de lixo flutuante em direção a novas águas?

“É provável que isso aconteça há já algum tempo”, diz Simkanin. Os destroços “terão estado a flutuar no Japão, concentrando esta comunidade costeira de espécies, tendo sido, posteriormente, deslocada, pelo fenómeno extremo, que enviou esses mesmos destroços para o mar”.

“É normal que tal possa acontecer durante uma qualquer tempestade e continuará a acontecer”, afirma.

Estes montes de lixo costeiro são uma nova fronteira para os cientistas que estudam espécies invasoras. No passado, criaturas costeiras viajavam em fragmentos de madeira flutuante, que se decompunha geralmente no mar. No entanto, a proliferação dos plásticos pelas costas estrangeiras torna possível viagens mais longas, desde que o plástico exista, o que pode significar vários anos.

Mas a abundância de plásticos no oceano levanta novas questões científicas. Como é que estas espécies subsistem à base de plástico e poliestireno? Tornar-se-ão os destroços de grandes dimensões verdadeiros microcosmos dos ecossistemas costeiros destas espécies, como um hotel flutuante com comida? E se a jangada de lixo que transporta estas espécies ficar retida no mar indefinidamente, como a Grande Ilha de Lixo do Pacífico?

Linsey Haram, um membro pós-doutorado do laboratório de invasões marinhas, está entre os cientistas que procuram encontrar respostas durante uma viagem de pesquisa em mar aberto, que se realizará ainda este ano. O trabalho, financiado pela NASA, faz parte de um estudo interdisciplinar sobre ecossistemas únicos que podem estar a formar-se nos destroços flutuantes.  

Este outono, Haram trabalhará em colaboração com a The Ocean Cleanup, um projeto audacioso que visa retirar parte das 80 000 toneladas de lixo que navegam à deriva no Pacífico, para estudar os organismos que podem habitar naquele monte. Os investigadores esperam encontrar comunidades de vida costeira semelhantes àquelas que deram à costa na linha ocidental dos Estados Unidos. Mas eles também se interrogam se algumas das espécies evoluíram para sobreviver num manto de estruturas retalhadas feitas pelo Homem.

“Colocamos a hipótese de que muitos dos organismos que habitam zonas costeiras possam sobreviver no mar, e que possam inclusive reproduzir-se”, diz Ruiz, que quer saber do que se alimentam estas espécies enquanto flutuam no oceano. “Até agora, pensávamos que estes organismos precisavam de habitar zonas costeiras, onde obtinham mais nutrientes.”

Mexilhões, amêijoas e crustáceos fizeram um longo caminho rumo a novas zonas costeiras nas águas do lastro ou nos cascos dos navios, que viajam de uma costa à outra ao longo de dias ou semanas. Mas a ideia de que esses mesmos organismos podem sobreviver após alguns anos a flutuar nas águas do Pacífico é ainda, tal como Simkain descreve, “desconcertante”. Além disso, torna-se difícil prever onde vão acabar.

Whitney Pipkin é um jornalista que se estabeleceu na Virgínia do Norte, fazendo a cobertura de temas relacionados com os alimentos, a agricultura e o ambiente.
Este artigo foi escrito em parceria com a National Geographic Society, que assumiu um compromisso no combate à poluição de plásticos. Saiba mais sobre as nossas iniciativas não lucrativas em natgeo.org/plastics

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com. 

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