Oito Espécies de Aves que Desapareceram Esta Década

O ritmo da extinção de aves aumenta à medida que os seus habitats desaparecem. quinta-feira, 20 de setembro de 2018

A ararinha-azul, encontrada originariamente na floresta da Amazónia no Brasil, pode estar extinta, segundo um novo estudo da Birdlife International.
A ararinha-azul, encontrada originariamente na floresta da Amazónia no Brasil, pode estar extinta, segundo um novo estudo da Birdlife International.

Quando uma espécie é reduzida a uns quantos indivíduos, o mundo assiste inquieto à morte do seu último espécime. Foi o que aconteceu com Sudan, o último macho do rinoceronte branco, que morreu no início deste verão.

No entanto, um novo estudo publicado no dia 6 de setembro na revista Biological Conservation admite a possibilidade de que oito espécies de aves raras possam ter desaparecido em silêncio.

O estudo, que decorreu ao longo de oito anos, financiado pela organização sem fins lucrativos BirdLife International, analisou estatisticamente 51 espécies de aves em risco crítico de extinção e descobriu que oito poderiam classificar-se como extintas ou quase extintas. Os autores do estudo descobriram que três espécies de aves estão extintas, uma está extinta na natureza e quatro estão no limiar da extinção, se é que não desapareceram entretanto.

Uma espécie, a ararinha-azul, foi retratada no filme de animação de 2011 Rio, que narra a história de uma ararinha-azul em cativeiro que acasala com o último espécime selvagem conhecido. A julgar pelas conclusões do estudo, o filme foi produzido com uma década de atraso. Estima-se que o último espécime selvagem da ararinha-azul tenha morrido no ano 2000 e existam, atualmente, cerca de 70 espécimes em cativeiro.

A União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla inglesa IUCN, é uma base de dados universal que acompanha as populações de animais, e a Birdlife International, que assiste frequentemente a IUCN com diversas avaliações e relatórios, recomenda que três espécies de aves sejam formalmente classificadas como extintas, nomeadamente: o trepador-do-nordeste, Cichlocolaptes mazarbarnetti, avistado pela última vez em 2007; o limpa-folha-do-nordeste, Philydor novaesi, visto pela última vez em 2011; e o púli, Melamprosops phaeosoma, visto pela última vez em 2004.

O limpa-folha-do-nordeste, Philydor novaesi, avistado em tempos no nordeste do Brasil, pode já estar extinto.
O limpa-folha-do-nordeste, Philydor novaesi, avistado em tempos no nordeste do Brasil, pode já estar extinto.

Desde que se começou a manter registos, os autores do estudo estimam que um total de 187 espécies já estejam extintas. Historicamente, as espécies que habitam em ilhas são as mais vulneráveis. Pouco menos de metade das extinções classificadas pelos autores foram causadas por espécies invasoras, que podem impor-se de forma mais agressiva no espaço insular. Aproximadamente 30 por cento das extinções identificadas pelos autores foram causadas pela caça e por armadilhas que alimentam o comércio de animais exóticos.

Mas os conservacionistas temem que desflorestação decorrente do abate não sustentável de árvores e a agricultura sejam os próximos agentes responsáveis pela extinção.

“Os nossos resultados confirmam que existe uma tendência crescente para a extinção de espécies, que está a atingir os continentes, provocada sobretudo pela perda de habitat e degradação que decorrem de uma agricultura e abate de árvores não sustentáveis”, afirmou Stuart Butchart, coordenador do estudo e diretor científico da BirdLife Internacional, num comunicado de imprensa.

Na Amazónia, onde muitas destas espécies prosperavam em tempos, a desflorestação é uma preocupação crescente. A World Wildlife Fund estima que se perderam mais de 17 milhões de hectares de floresta no período compreendido entre 2001 e 2012. Um editorial publicado em março último na Science Advances revelou que a Amazónia está a atingir um ponto crítico ecológico: se 40 por cento da região for desflorestada, os cientistas afirmam que o ecossistema alterar-se-á de forma irreversível.

Luísa Arnedo, bióloga e diretora sénior de programas da National Geographic Society, explicou que as aves podem ser particularmente suscetíveis à extinção em face perda de habitat, porque vivem em nichos ecológicos, alimentando-se apenas de presas muito específicas ou nidificando em árvores também elas muito específicas.

“Assim que o seu habitat desaparecer, essas aves desaparecem”, afirma.

E acrescenta que os problemas da desflorestação podem acentuar-se por via do decréscimo do número de espécies de aves. Existem muitas aves que, por força do seu comportamento, atuam como dispersoras de sementes e polinizadoras e podem contribuir para devolver a vida a zonas desflorestadas.  

A BirdLife International defende que é necessário efetuar novos estudos para confirmar, com absoluta certeza, de que as quatro espécies tidas como provavelmente extintas desapareceram efetivamente, sendo que não é avistado, desde 2001, qualquer espécime na natureza. Embora raros, alguns animais classificados outrora como extintos regressaram aparentemente dos mortos.

No ano passado, o parauacu-de-Vanzolini, Pithecia vanzolinii, foi visto com vida 80 anos depois dos cientistas terem classificado a espécie como extinta, fazendo desta uma vitória rara para os conservacionistas da vasta floresta da Amazónia.  

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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