Porque foi 2017 o Ano Mais Mortífero para os Ativistas Ambientais?

Centenas de manifestantes foram assassinados em disputas de terras no ano de 2017, alguns às mãos de gangues e entidades governamentais.

Publicado 14/09/2018, 15:09
Um terreno desflorestado divide a floresta tropical da Amazónia, o país mais mortífero para os ativistas ...
Um terreno desflorestado divide a floresta tropical da Amazónia, o país mais mortífero para os ativistas ambientais.
Fotografia de RAPHAEL ALVES, AFP, Getty Images

À semelhança de alguns ativistas ambientais, a enfermeira e antropóloga Isela González arrisca a vida todos os dias.

“Uma vez, no exterior de um tribunal, um indivíduo aproximou-se de mim e ameaçou-me de morte por ajudar as comunidades indígenas”, recorda González, que é diretora-executiva da organização não-governamental pró-indígena Alianza Sierra Madre. “Com estas mortes, eles querem semear o terror não só nas comunidades indígenas, mas também no seio daqueles que as ajudam.”

As vidas de inúmeros ativistas, que protestam em manifestações pacíficas, correm perigo todos os anos em disputas de terras e problemas ambientais, e, segundo um novo estudo, mais de 200 pessoas foram mortas no ano passado, fazendo de 2017 o ano mais mortífero até à data.

“Afeta-me moral e fisicamente”, diz González. “Mas, ao mesmo tempo, desejo que se faça justiça por todos aqueles que lutaram e perderam a vida em prol do ambiente, pelas respetivas famílias e, acima de tudo, para que situações desta natureza não se repitam. Essa é a energia que nos leva a querer continuar a desenvolver este trabalho.”

UM NÚMERO CRESCENTE DE MORTES

Segundo a organização internacional do ambiente Global Witness, assistiu-se, em 2017, a um total de 207 mortes de ambientalistas ou ativistas ambientais, um número significativamente superior ao ano de 2016, fazendo de 2017 o ano mais mortífero de que há memória.

A agroindústria, que abrange qualquer negócio que recolhe dividendos a partir da exploração agrícola, registou o maior número de mortes associadas, com a indicação de 46 ativistas mortos em disputas relativas a projetos agrícolas de grande dimensão. A agroindústria foi seguida pela indústria petrolífera e pelo setor de extração mineira, que é, historicamente, a área mais perigosa para os ativistas, com registo de 40 mortes. A caça furtiva e o abate de árvores ocupam o terceiro lugar da lista, com 23 mortes confirmadas em cada uma das áreas.

 

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“As nossas estatísticas são apenas a ponta do icebergue”, diz Ben Leather, o investigador principal de um estudo e um ativista sénior da Global Witness. “Como as mortes não são declaradas, torna-se difícil confirmá-las, mas os números são seguramente mais elevados.”

A Global Witness usou conjuntos de dados de fontes nacionais e internacionais, tais como relatórios anuais e outra informação pública. A organização incluiu apenas mortes verificáveis, informações que podiam ser validadas, como os nomes dos ativistas e as causas dos respetivos óbitos.

Leather acredita que o número total de mortes seria provavelmente muito mais elevado, se outras mortes não tivessem sido ocultadas Não foram obtidos números relativos a países que impõem limites à liberdade de expressão, como a China, a Rússia e algumas regiões da Ásia Central. Segundo o estudo, o número de mortes declaradas em África era enganadoramente baixo, facto que se pode dever à ausência de registo de outras mortes.

Quase 60 por cento dos homicídios tiveram lugar na América Latina. O Brasil registou o número mais elevado de mortes no universo dos países considerados, com um total de 57 homicídios. As Filipinas assistiram a 48 homicídios, o número mais elevado registado num país asiático, e o número de mortes de ativistas no México quintuplicou em 2017, com 15 registadas contra 3 em 2016.

Segundo o estudo, 30 mortes estavam ligadas ao exército e 23 às forças policiais. Gangues, seguranças, proprietários de terras, caçadores furtivos e outras entidades não públicas são alegadamente os autores de, pelo menos, 90 mortes.

“A corrupção é um problema sério no país”, diz Leather. “As forças da autoridade que deviam defender os direitos dos ativistas são, na verdade, cúmplices destes ataques.”

Em dissonância com o resto do estudo, as Honduras revelaram uma tendência contrária. O país da América Central registou um número inferior de mortes de ativistas ambientais relativamente aos anos anteriores, mas a opressão sobre a sociedade civil atinge hoje níveis sem precedentes.

“Existe um novo conjunto de táticas usadas para silenciar os ativistas e as mortes são apenas a face mais extrema e visível do problema”, afirma Leather.

Para além das mortes individuais, 2017 assistiu a mais massacres de ativistas do que qualquer outro ano. Em pelo menos sete casos, mais de quatro ativistas foram mortos numa única ocasião, o que indica que os autores dos crimes se sentem mais encorajados, diz Leather. No passado, os responsáveis por estas mortes raramente foram acusados.

“O relatório é muito mais do que um mero conjunto de dados”, diz Leather. “É sobre uma cultura de impunidade generalizada, que admite a violência.”

OLHAR O FUTURO

Apesar dos riscos, os ativistas ambientais mantêm-se firmes na luta.

“Eu continuo a lutar, porque este é o meu trabalho. Abandonar estas comunidades e desistir do meu trabalho seria como vergar-me ante a face do terror e das ameaças”, diz González Díaz. “Claro que tenho muito medo, mas todos nós, ativistas, temos mecanismos para lidar com o medo. Preparámo-nos para isto. Penso que esta é a decisão de uma vida.”

Em muitas destas áreas, as decisões dos compradores podem ter um impacto, afirma a Global Witness. Os consumidores podem instar as empresas a verificar se as populações locais estão a ser respeitadas ao longo da cadeia de fornecimento.

Na agroindústria, uma planta particularmente controversa é a palmeira de óleo de palma. Foram derrubados hectares de floresta para ceder lugar às plantações de óleo de palma, e o óleo está presente em cerca de metade dos produtos processados que ingerimos, desde o chocolate, às manteigas e gelados até aos champôs e batons.

“Se é consumidor de produtos que integram óleo de palma na sua composição, procure saber junto do fabricante de que forma tentam resolver o problema”, afirma Leather.

Outras culturas que contribuíram para disputas de terras incluem o café, o açúcar e as frutas, entre as quais bananas e ananases. A extração mineira e o abate de árvores, que continuam a ser terreno perigoso para os ativistas ambientais, alimentam a indústria de fabrico de produtos diversos, desde os aparelhos eletrónicos ao mobiliário.

“Há muito trabalho para fazer, se queremos reverter esta tendência”, diz Leather. “As pessoas não deviam morrer ou ser ameaçadas apenas por proteger as suas terras ou o ambiente. Se nos for permitido assumir uma posição, esperamos poder convencer os nossos governos e empresas a agir em conformidade.”

Rachel Brown contribuiu para o conteúdo e tradução deste artigo.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.

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