Serão os Anéis de Plástico Uma Ameaça à Vida Selvagem?

Desde a década de 1970 que os anéis de plástico usados para acondicionar latas são um símbolo do lixo plástico nocivo, mas será que continuam a representar um perigo para os animais selvagens?quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Esta história é parte integrante da campanha de sensibilização da National Geographic, Planeta ou Plástico?, promovida anualmente, com o objetivo de alertar para a crise do lixo plástico. Saiba como pode reduzir o consumo de plásticos de utilização única e assuma o compromisso.

Muito à semelhança das palhinhas, os anéis de plástico usados para acondicionar latas são, frequentemente, vistos como inimigos dos oceanos. Embora as palhinhas e os anéis representem apenas uma pequena fração da totalidade do lixo plástico presente nos oceanos, as imagens de animais sofridos, como tartarugas marinhas com palhinhas enfiadas nas narinas ou anéis de plástico a limitar-lhes os movimentos do corpo, geraram a indignação do público e uma onda de críticas relativamente a estes objetos de uso corrente. 

Atualmente, alguns fabricantes de cerveja procuram encontrar formas alternativas e inovadoras que permitam manter unidas as latas, sem que resultem em detritos que possam atuar como armadilhas para as criaturas marinhas.

Contudo, ao contrário das palhinhas de plástico, as alternativas viáveis nem sempre estão disponíveis. Quando as primeiras palhinhas surgiram no mercado, o papel era a única matéria-prima usada na sua produção, pelo que a transição do plástico para o papel supõe um simples regresso às palhinhas do antigamente.

A HISTÓRIA DOS ANÉIS DE PLÁSTICO

Os anéis de plástico existem há quatro décadas, e a sua produção nunca foi tão regulada como hoje.

Em 1987, a Associated Press revelou que os anéis de plástico eram responsáveis pela morte de cerca de um milhão de aves marinhas e 100 000 animais marinhos anualmente. Estes números são amplamente citados e usados ainda hoje, mas é difícil identificar a sua fonte. Em 1984, o New York Times revelou, a partir de uma conferência da Entanglement Network, com sede em Washington, que 100 000 mamíferos marinhos morriam anualmente à mercê do lixo plástico.

Numa operação de limpeza das praias da costa do estado de Oregon, organizada em 1988, os voluntários recolheram cerca de 1500 anéis de plástico em poucas horas.

O fabricante Illinois Tool Works afirma que “a indústria das embalagens de refrigerantes se transformou” com a invenção dos anéis de plástico nos anos 60 pela HiCone, uma unidade operacional da empresa. Hoje, essa mesma unidade operacional produz uma variedade de anéis de plástico em máquinas, que, segundo diz, podem embalar cerca de 2400 latas por minuto.

Desde 1994 que a Agência de Proteção Ambiental, na sigla inglesa EPA, determinou que todos os anéis de acondicionamento de refrigerantes têm de ser degradáveis.  Muitos fabricantes cumprem com esta norma produzindo anéis fotodegradáveis, o que significa que se decompõem com a luz.  

A HiCone emprega esta técnica e afirma que são precisos, no máximo, três a quatro meses para que os anéis se decomponham em condições de inverno, com nebulosidade.  Embora esta norma diminua as probabilidades de enredamento dos animais nos anéis, ela deixa, no entanto, em aberto a possibilidade de ingestão de subprodutos que decorrem da decomposição do plástico. A norma da Agência de Proteção Ambiental indica que os fragmentos de plástico podem ir desde partículas demasiado pequenas para observação a olho nu a fragmentos com vários centímetros.

Sabe-se hoje que cerca de 700 espécies foram afetadas pelo lixo plástico presente nos oceanos, e, anualmente, cerca de oito milhões de toneladas de plástico terminam no mar. Cerca de 40 por cento dessa massa de lixo compõe-se de plásticos de utilização única, isto é, plástico que é usado apenas uma vez e inutilizado, afetando um vasto conjunto de animais marinhos, desde as aves aos mamíferos, não só pelo risco de enredamento nos anéis, antes da sua decomposição, mas também pelo risco de ingestão de partículas de plástico de dimensão microscópica, que podem, em última instância, conduzir esses animais à morte por subalimentação, em virtude da obstrução do sistema digestivo.

Os cientistas descreveram os microplásticos como uma espécie de sopa plástica, e os estudos revelam que existem cerca de 15 a 50 biliões de fragmentos de microplásticos nos oceanos.

A produção de anéis de plástico também requer o uso de petróleo como matéria-prima. Cerca de oito por cento da produção mundial de petróleo destina-se ao fabrico de plástico.

ALTERNATIVAS AOS ANÉIS DE PLÁSTICO

Para reduzir os microplásticos e as emissões de carbono, algumas empresas abandonaram por completo o uso dos anéis de plástico.

Em 2016, o fabricante de cervejas Salt Water Brewery anunciou que os anéis de plástico que acondicionavam as seis latas da Screamin' Reels IPA seriam substituídos por um suporte compostável, mais concretamente um anel ecológico designado na sigla inglesa por E6PR. O suporte foi pensado para ser totalmente compostável, quando inutilizado, e comestível, se se infiltrar nos habitats de animais marinhos. É produzido a partir de alguns subprodutos que decorrem do fabrico de cerveja, como sobras de trigo e cevada.

“Não sei o quão nutritiva poderá ser a cevada para as tartarugas marinhas, mas parece-me ser de longe menos nociva, se ingerida, do que os tradicionais anéis de plástico”, disse, em 2016, à National Geographic Nick Mallos, diretor do projeto Trash Free Seas da Ocean Conservancy.

Em junho, o fabricante de cervejas dinamarquês Carlsberg Breweries anunciou o uso de um novo tipo de cola desenvolvido recentemente para manter unidas as seis latas de cerveja.

Foram precisos três anos e 4000 versões para desenvolver uma substância adesiva, que fosse forte o suficiente para manter as latas unidas, mas não tão forte que impedisse os consumidores de retirar, com facilidade, apenas uma lata, afirma Simon Boas Hoffmeyer, diretor para a sustentabilidade da Carlsberg.

Hoffmeyer escusou-se a revelar detalhes sobre as características que tornam esta cola um produto único ou sobre o seu custo, mas sublinhou que não se assemelha a nenhuma outra cola presente no mercado.

“É exatamente o mesmo tipo de cola ou adesivos presentes noutros produtos, mas a diferença está na sua composição”, acrescentou. “Fizemos testes que mostram que não afeta a sua reciclabilidade. Recomendamos que a cola seja deixada nas latas para que não termine nos lugares errados.”

Cada embalagem de seis latas terá, ainda assim, uma pega feita de uma tira de plástico muito fina, que será fixada às duas latas de cerveja no meio. Mesmo assim, o fabricante de cervejas afirma que esta alternativa aos anéis de plástico permitir-lhe-á evitar o consumo anual de cerca de 1322 toneladas de plástico.

Embora os fabricantes esperem que estas alternativas influam significativamente na quantidade de lixo plástico que entra, anualmente, nos oceanos, os anéis de plástico não se aproximam nem de perto da maior parcela de detritos plásticos encontrados no mar. Todos os anos, a Ocean Conservancy organiza operações de limpeza das praias, com a ajuda de voluntários, que recolhem todo o tipo de lixo sobre o areal. Em 2017, as beatas de cigarros eram uma das principais fontes da poluição de plástico, tendo sido recolhidas 1 863 838 unidades.

Este artigo foi escrito em parceria com a National Geographic Society, que assumiu um compromisso no combate à poluição de plásticos. Saiba mais sobre as nossas iniciativas não lucrativas em natgeo.org/plastics.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com. 

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