Um Recoletor de Plástico Limpa a Grande Ilha de Lixo do Pacífico

Um dique flutuante da Ocean Cleanup, com cerca de 610 metros de comprimento, irá recolher o plástico da grande mancha de lixo do Pacífico, ao longo do próximo ano.segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Esta história é parte integrante da campanha de sensibilização da National Geographic, Planeta ou Plástico?, promovida anualmente, com o objetivo de alertar para a crise do lixo plástico. Saiba como pode reduzir o consumo de plásticos de utilização única e assuma o compromisso.

A campanha para libertar os oceanos do lixo plástico passou por um momento decisivo no dia 8 de setembro, quando uma enorme estrutura de recolha de lixo, uma espécie de dique flutuante, saiu de San Francisco, numa missão de vida para limpar a grande ilha de lixo do Pacífico.

Ao longo do próximo ano, a estrutura irá ser submetida aos últimos testes e enfrentará perguntas difíceis: pode a tecnologia prevalecer sobre a natureza? Terão os engenheiros da Ocean CleanUp, na Holanda, inventado o primeiro método fiável para extrair grandes quantidades de lixo plástico do mar? Ou irá a tempestuosidade do Pacífico desfazer a estrutura em pedaços, transformando-a em lixo plástico? Ou, caso não seja engolida por uma tempestade no Pacífico, poderá a estrutura atrair animais marinhos, tais como golfinhos e tartarugas, e enredá-los fatalmente?

“Creio que a estrutura não será viável, mas espero que tudo corra conforme previsto”, afirma George Leonard, o diretor científico da Ocean Conservancy. “O oceano precisa de toda a ajuda possível.”

O projeto é uma criação de Boyan Slat, um jovem holandês de 24 anos, que largou a universidade e angariou mais de 30 milhões de dólares numa luta de cinco anos, para construir uma máquina capaz de limpar o oceano. A sua inspiração teve origem numa atividade de mergulho, em que participou durante umas férias na Grécia, quando era ainda adolescente, tendo-se deparado com tanto plástico que assumiu a limpeza do oceano como a missão de uma vida. De regresso a casa na Holanda, Slat abandonou o curso de engenharia aeroespacial na Universidade Técnica de Delft e fundou a Ocean CleanUp, uma organização sem fins lucrativos, da qual é diretor-geral, apoiado por uma equipa que se compõe de 65 engenheiros e cientistas.

A iniciativa de Slat colheu inúmeros elogios e duras críticas. Slat foi agraciado pelo rei da Noruega, distinguido com um alto prémio ambiental pelas Nações Unidas, e o seu nome figura em várias listas, incluindo uma da revista da Forbes sobre jovens líderes empreendedores em ascensão. Slat foi também criticado por cientistas por subestimar os potenciais riscos que a estrutura pode supor para a vida marinha.

Miriam Goldstein, diretora de política oceanográfica do Centro para o Progresso Americano, um grupo de especialistas de inclinação liberal de Washington, que assumiu, desde o início, uma posição muito crítica em relação ao projeto, afirmou que a estrutura de limpeza se assemelha a um dispositivo de concentração de peixes, conhecido na sigla inglesa por FAD, usado por pescadores para atrair os peixes em oceano para uma área central, onde podem ser facilmente capturados. A concentração de peixes junto da estrutura pode, por sua vez, atrair animais marinhos, que poderão ficar presos.

“Sempre que um objeto de tamanho razoável flutua no oceano, os peixes tendem a concentrar-se debaixo da sua superfície”, afirma. “Definitivamente, a estrutura irá tornar-se num dispositivo de concentração de peixes. Não é que seja necessariamente mau para os peixes concentrarem-se numa determinada área, mas também não são conhecidas as repercussões dessas concentrações.”

LIMPEZA OU PREVENÇÃO?

Fundamentalmente, alguns dizem que o projeto desvia as atenções daquela que é considerada a forma mais lógica e menos onerosa de salvar os oceanos: prevenir que o lixo plástico acabe no mar, em primeiro lugar.

“Aquilo que flutua na superfície dos giros oceânicos é apenas três por cento do plástico que entra, anualmente, no oceano”, diz Eben Schwartz, diretor de programas de lixo marinho para a Comissão Costeira da Califórnia. “Compreendo o fascínio das pessoas pela novidade, pelo engenho e brilho deste objeto, mas é uma espécie de solução digital para um problema analógico. A solução da poluição do plástico nos nossos oceanos começa em terra.”

Schwartz e Leonard falaram sobre as operações de limpeza das praias, que são feitas, anualmente, no dia 15 de setembro, sob o patrocínio da Ocean Conservancy, que promove iniciativas de limpeza à escala internacional, tendo recolhido no ano passado cerca de 9200 quilos de lixo em mais de 100 países, e da Comissão Costeira da Califórnia, que no ano passado recolheu entre 362 a 450 toneladas de lixo das praias da Califórnia.

Numa entrevista cedida à National Geographic, Slat reiterou a visão, que defende desde sempre, de que a prevenção é o primeiro passo para proteger os oceanos.

“Creio que deveria ser claro que a humanidade pode fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo”, afirma. “Mas o plástico no oceano não irá desaparecer por si mesmo. Há plástico dos anos 60 e 70 a flutuar nas águas do oceano, pelo que creio que é óbvio que temos de prevenir e, simultaneamente, limpar. A situação não será muito animadora, se pensarmos que a única coisa que podemos fazer é simplesmente evitar que se agrave.”

A equipa de engenheiros está há um ano em Alameda, na Califórnia, para montar a estrutura. No dia 8 de setembro, a estrutura foi rebocada para águas internacionais ao largo da Califórnia para uma última ronda de testes e será novamente rebocada para a grande ilha de lixo do Pacífico, com chegada prevista para meados de outubro para uma utilização de um ano.

O lixo plástico acumula-se nos giros oceânicos, que são vastos sistemas de correntes marinhas rotativas. A grande mancha de lixo do Pacífico, que se insere no Giro do Pacífico Norte, é a maior e mais conhecida massa de concentração de lixo flutuante. É mais uma sopa de lixo do que uma mancha. Não existe uma única superfície sólida onde pôr o pé. Grande parte do lixo compõe-se de microplásticos, isto é, plásticos reduzidos a pequenos fragmentos pela ação da luz solar e das ondas. A equipa de cientistas de Slat afirma que a mancha de lixo também contém, numa estimativa aproximada, cerca de 79 000 toneladas de equipamentos de pesca deixados ao abandono.

O DESENHO É TUDO

O sistema de limpeza de Slat passou por diversas alterações de desenho. No início, o sistema estava pensado para ser ancorado ao leito do oceano, mas a ideia foi abandonada a favor do desenho atual, um sistema de flutuação passivo.

Fisicamente, a estrutura assemelha-se a um dique e compõe-se de um tubo de polietileno de 1,2 metros de diâmetro e 610 metros de comprimento. Assentará sobre a superfície do oceano assumindo a forma de um U, envolto por uma tela que pende suspensa abaixo da superfície. A estrutura move-se vagarosamente sobre a água, deslocando-se por ação das correntes e dos ventos, e pode recolher plásticos à superfície, assim como detritos a aproximadamente três metros de profundidade. Se a estrutura funcionar tal como foi pensada, serão colocados outros 60 diques.

Se tudo correr conforme previsto, o dique deverá recolher entre 45 a 68 toneladas de lixo ao longo do primeiro ano. Segundo as estimativas de Slat, a frota completa, composta por 60 diques e cuja dimensão será maior, deverá recolher mais de 13 600 toneladas de lixo plástico por ano.

A estrutura está equipada com luzes e um sistema anticolisão para evitar embater nos navios. Um conjunto de câmaras, sensores e satélites permitem aos responsáveis do projeto controlar a estrutura.

Slat explica que um navio irá recolher e transportar o plástico para a Califórnia e, posteriormente, para a Europa para os clientes da Ocean CleanUp, à medida que os detritos plásticos se vão acumulando no dique.

“É verdadeiramente entusiasmante ver este projeto ganhar vida”, diz Slat. “Mas ainda temos muito trabalho pela frente e estamos apenas no início. Anseio pelo momento em que retirarmos das águas do oceano o primeiro detrito plástico e que esta tecnologia se afirme como válida. Estou confiante de que eliminámos todos os riscos que podíamos eliminar antes de avançarmos para a mancha de lixo. Acredito que temos boas hipóteses de alcançar com sucesso o nosso propósito.”

Os demais desafios são aqueles que são difíceis de prever, diz Slat. Um deles é perceber a quantidade de plástico que o sistema consegue recolher. O objetivo da Ocean CleanUp é limpar até 50 por cento da mancha de lixo no período de cinco anos.

“É bom saber que existe um sistema de limpeza, mas se não for capaz de recolher detritos plásticos, não tem grande utilidade. Por isso, é importante perceber o quão eficiente é o sistema de limpeza, qual o limite de recolha e qual é a dimensão mais pequena do fragmento que pode recolher. Esperamos ter uma resposta para todas estas questões nos primeiros meses de funcionamento do sistema”, afirma Slat.

O derradeiro desafio é o da capacidade de sobrevivência, afirma Slat. Os engenheiros da Ocean CleanUp conceberam uma estrutura capaz de resistir a 100 anos de intempéries, e a alteração do desenho, que permite que as ondas galguem o dique, significa que a estrutura não terá de absorver a força destrutiva das ondas.

“Será capaz de resistir às condições mais adversas à face da Terra? Os ventos oceânicos, as vagas, as correntes, o sal, a corrosão, todos estas diferentes forças destrutivas trabalham contra nós. Se até abril não sofrermos nenhum dano maior, creio que podemos abrir uma garrafa de champanhe e celebrar”, afirma Slat.

Este artigo foi escrito em parceria com a National Geographic Society, que assumiu um compromisso no combate à poluição de plásticos. Saiba mais sobre as nossas iniciativas não lucrativas em natgeo.org/plastics.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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