Alterações Climáticas Aumentam Criaturas Marinhas Venenosas

O aquecimento dos oceanos pode abrir caminho a um novo conjunto de criaturas que ameaçam a saúde dos ecossistemas marinhos, desde serpentes do mar e medusas aos peixes-dragão-leão. segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Os seres humanos poderão ter de lidar com um número crescente de mordidas e picadas venenosas e outras formas de contacto com veneno, em consequência das alterações climáticas, segundo um novo estudo, cuja publicação coincidiu com a divulgação do relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, na sigla inglesa IPCC, que adverte para a antecipação dos impactos negativos do aquecimento do planeta relativamente ao previsto.

Segundo uma vasta análise efetuada recentemente sobre animais aquáticos venenosos, a presença de espécies perigosas pode tornar-se cada vez mais comum em novas áreas de distribuição. As espécies, cujas áreas de distribuição podem variar em direção aos polos, em virtude do aquecimento dos oceanos, incluem os peixes-dragão-leão, as serpentes marinhas, as estrelas-do-mar-coroa-de-espinhos e um número de diferentes tipos de medusas venenosas.

“Estas espécies são importantes de uma perspetiva humana, porque estamos a falar de espécies venenosas, mas elas refletem padrões de mudança muito mais abrangentes, que têm sido observados nos últimos tempos, nomeadamente alterações das áreas de distribuição e variações de abundância, seja no sentido do declínio ou do crescimento, e isso perturba o equilíbrio daquilo que observaríamos normalmente num ecossistema”, afirma Isabelle Neylan, doutoranda em Ciências Marinhas na Universidade da Califórnia, em Davis, e coautora de um estudo publicado recentemente na revista Wilderness and Environment Medicine.

Neylan e os seus coautores estudaram detalhadamente os trabalhos de investigação desenvolvidos nos domínios clínico, ambiental e ecológico sobre o efeito das alterações climáticas nos animais venenosos, tendo também analisado vários estudos de referência e centros de dados sobre venenos. Este estudo recente representa a segunda parte da investigação, uma vez que o primeiro estudo, publicado no início deste ano, centrava-se no efeito das alterações climáticas sobre os animais venenosos terrestres.

Neylan afirma que a maioria das espécies não tem necessariamente de crescer em abundância, podendo apenas distribuir-se por áreas diferentes, à medida que se assiste a um aquecimento progressivo das águas na proximidade da linha do equador, empurrando essas espécies para norte ou sul, no encalço de nichos de temperatura ideal. No entanto, esta resposta não será comum a todas as espécies, uma vez que algumas não serão capazes de lidar com estas variações nas áreas de distribuição.

“O padrão geral mostra que não existe necessariamente um padrão”, afirma Neylan, que conduziu estes estudos, enquanto técnica de investigação da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, sublinhando que cada espécie poderá enfrentar desafios únicos em termos de variações na distribuição ou população.

PEIXES-DRAGÃO-LEÃO, MEDUSAS E ESTRELAS-DO-MAR-COROA-DE-ESPINHOS

Um grupo de animais que apresenta maiores probabilidades de crescimento tanto ao nível da distribuição, como da abundância, em virtude do aquecimento das águas e das alterações do nível de acidez dos oceanos, são as medusas. Este grupo inclui as mortíferas irukandji, Carukia barnesi, e as vespas-do-mar, Chironex fleckeri, que são tidas responsáveis pelo aumento do número de mortes na Austrália, admitindo-se que possam estar a avançar em direção a sul para áreas mais populosas, à medida que se assiste ao aquecimento do clima.

“As vespas-do-mar são muito venenosas, sendo provavelmente o ser mais venenoso do mundo por comparação”, afirma Timothy Erickson, médico e toxicologista do Hospital Universitário Brigham da Universidade de Medicina de Harvard e coautor de um estudo com Neylan.

Jennifer Purcell, uma investigadora pós-doutorada da Universidade de Washington Ocidental, estudou a expansão de medusas, ainda que não tenha estado envolvida neste estudo recente. Purcell afirma que o aquecimento das águas favorece a reprodução das medusas.

“Não se trata apenas de duas ou três espécies. Na verdade, a abundância da maioria das espécies de medusas analisadas aumentou”, afirma.

Purcell admite que as medusas podem vir a ser um problema por força das alterações climáticas, mas acrescenta que podem existir outros fatores em jogo, que podem contribuir para a expansão destas espécies, como a libertação ou deslocalização de espécimes, intencional ou inadvertida, por mão humana.

“As medusas são talvez o caso mais documentado, no âmbito do trabalho desenvolvido pela comunidade científica, mas preocupa-me que tenham escolhido algumas espécies sensacionalistas para dar maior relevo ao estudo”, afirma.

Os peixes-dragão-leão, que inicialmente se multiplicaram nas águas da Flórida depois de terem sido libertados no meio aquático pelos seus donos, avançaram para norte ao longo da costa atlântica dos Estados Unidos, alcançando os estados da Geórgia e das duas Carolinas. Estes peixes, que, ao que parece, até são saborosos, podem dizimar populações inteiras de pequenos peixes e criaturas marinhas e reservam uma picada dolorosa para os humanos que ousem cruzar-se no seu caminho.

As estrelas-do-mar-coroa-de-espinhos expandiram-se da área de distribuição natural, nas águas do Indo-Pacífico, para sul, em direção à Grande Barreira de Coral, ao largo da costa da Austrália, na sequência do aumento da temperatura das águas. Estas estrelas-do-mar tóxicas, de apetite voraz, alimentam-se de corais e podem dizimar sistemas de corais inteiros. Os humanos que contactem acidentalmente com estas criaturas, seja a nadar ou a praticar outras atividades, poderão sentir dor, acompanhada de inflamação e infeção.

Outros peixes, como os peixes-balão-de-espinhos-longos, também foram avistados em novas áreas de distribuição, mas os autores salientam a ausência de dados sobre a forma como as alterações climáticas afetam a distribuição ou a abundância de uma das criaturas marinhas que os humanos encontram com maior frequência: as raias. Os autores apelam para que se faça mais investigação sobre as áreas de distribuição e os efeitos que as alterações dos padrões climáticos exercem sobre as raias, os peixes-pedra e os polvos-de-anéis-azuis, com o objetivo de compreender melhor eventuais problemas que possam afirmar-se no futuro.

UMA SITUAÇÃO TÓXICA

Nem todas as espécies aquáticas tóxicas prosperam com as alterações climáticas. Embora tenham sido encontradas serpentes marinhas em novas áreas de distribuição ou se tenha observado uma abundância crescente da espécie na Coreia do Sul, na Califórnia e no Havai, os investigadores referem que as populações de algumas das serpentes mais venenosas do mundo em terra ou no mar estão a diminuir à escala global.

As rãs venenosas são aquelas que podem apresentar maior dificuldade de resposta às alterações climáticas, em virtude da sua sensibilidade às variações de temperatura. E não se trata apenas de uma quebra na abundância. Neylan alerta também para a possibilidade de extinção de algumas espécies, por força da ação combinada das alterações climáticas e de agentes patogénicos, como o fungo Batrachochytrium dendrobatidis, que se está a expandir em virtude das alterações climáticas.

“A diversidade diminui de forma geral e isso é negativo”, afirma Neylan, referindo que, quando espécies como o peixe-dragão-leão se deslocam para novas áreas de distribuição com poucos ou nenhuns predadores, os ecossistemas tendem a ser afetados negativamente.

“Qualquer alteração no ecossistema tem um efeito dominó”, afirma Neylan.

HOSPITAIS SEM RESPOSTA

Erickson explica que, com a expansão de criaturas venenosas para novas áreas de distribuição, os hospitais e os sistemas de cuidados de saúde podem não saber como lidar com a afluência de eventuais vítimas de mordidas ou picadas.

Tal pode conduzir a um aumento dos custos nos sistemas de cuidados de saúde. “Alguns dos antídotos são extremamente caros”, afirma Erickson, sublinhando que é provável que estes problemas atinjam os países mais pobres e se façam sentir, consequentemente, de forma mais acentuada.

Sempre que possível, Erickson afirma que os hospitais devem procurar melhorar os planos de resposta estabelecidos para obter os antídotos em falta. Erickson também refere a necessidade de informar melhor o público sobre o tipo de resposta imediata numa situação de contacto com uma espécie venenosa, como aplicar vinagre na zona afetada pela picada de uma medusa ou água quente no caso de picadas de raias ou peixes-dragão-leão.

Segundo os investigadores, o problema tende a acentuar-se no futuro, com a deslocação de um maior número de pessoas para as regiões do litoral. Os investigadores sublinham que, por volta do final do século, 50 por cento da população mundial estará a viver num raio de 97 quilómetros da linha costeira.

“O número de pessoas que se desloca para litoral é cada vez maior”, admite Purcell.

“Nós somos uma parte do nosso ambiente e do nosso ecossistema. As alterações afetam-nos e mudamos o que acontece no nosso ecossistema”, afirma Neylan.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.

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