Metade da População Mundial de Orcas Pode Desaparecer. Porquê?

A poluição por bifenilo policlorado ameaça seriamente a saúde e a sobrevivência dos mamíferos marinhos.terça-feira, 16 de outubro de 2018

Elas vivem em grupos familiares e podem caçar em equipa, atuando, por vezes, de forma coordenada para formar ondas e arrancar a desgraçada presa à placa de gelo flutuante. Inteligentes e fortes, as orcas, com a sua característica pele tingida a dois tons, sobreviveram ao extermínio em massa, capturadas com o auxílio de redes e laçadas, transportadas por via terrestre, acondicionadas em camiões, e aerotransportadas, com destino aos parques aquáticos temáticos.

Mas um novo estudo, publicado na revista Science a 27 de setembro, sugere que mais de metade da população mundial de orcas poderá desaparecer dentro de 30 a 50 anos, por ação de um conjunto de químicos tóxicos que o mundo proibiu há muito.

Os bifenilos policlorados, ou PCB na sigla inglesa, são poluentes orgânicos persistentes, usados em tempos em condensadores, tintas de óleo e refrigeradores até terem sido considerados de tal forma nocivos, que os Estados Unidos e outros países proibiram a sua produção nas décadas de 70 e 80. Apesar disso, as orcas que habitam atualmente as águas do hemisfério norte são um dos animais com maiores índices de contaminação à escala global.   

Acredita-se que os PCB influam, ainda hoje, no comportamento das orcas, debilitando os seus sistemas imunitários e afetando de tal forma a sua capacidade reprodutiva, que os investigadores questionam a viabilidade de muitas famílias de baleias assassinas (tecnicamente um membro da família dos golfinhos de maior porte) nas próximas décadas.

"Um grupo de químicos, que pensávamos ter deixado de constituir uma ameaça, mantém-se ainda presente em concentrações que continuam a representar sérios riscos”, afirma o coordenador do estudo Jean-Pierre Desforges do Centro de Investigação do Ártico da Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

Desforges qualificou os resultados de “assustadores”, em parte porque os PCB são apenas uma das várias ameaças que enfrentam as orcas, não sendo muitas vezes sequer a principal.

 

OS PCB ACUMULAM-SE NOS SUPERPREDADORES

Embora as concentrações de PCB tenham registado uma quebra, após a sua produção ter sido banida à escala mundial, os níveis destas substâncias químicas mantiveram-se relativamente constantes nos últimos anos, em parte, porque ainda integram a composição de produtos antigos e descontinuados, tais como transformadores, isolamento de cabos e algumas tintas de navios. Cerca de 80 por cento do volume de PCB a nível global ainda não foi destruído.

Além disso, os PCB decompõem-se lentamente e são atraídos pelas moléculas de animais vivos, pelo que facilmente se introduziram na cadeia alimentar. As orcas são um superpredador, ocupam o topo da cadeia alimentar, podendo a sua dieta incluir peixes, focas, leões-marinhos, tubarões ou baleias, e não têm predadores naturais, pelo que facilmente acumulam substâncias carcinogénicas nas camadas de gordura.

A área de distribuição das orcas estende-se do Brasil ao mar Mediterrâneo e do Ártico à Antártica. Ao contrário de muitos predadores terrestres, como os ursos polares, as baleias assassinas têm dificuldade em desfazer-se dos PCB. Algumas baleias assassinas apresentam quantidades de PCB 25 vezes superiores àquelas que se consideram afetar a fertilidade. As progenitoras podem inclusive transmitir os poluentes durante o nascimento ou no período de aleitamento.

"Com base na quantidade de indícios recolhidos ao longo de algumas décadas de investigação, os PCB mantêm-se como os poluentes que suscitam maior preocupação no topo da cadeia alimentar para a vida selvagem, no hemisfério norte”, afirma Peter Ross, um dos coautores de Desforges e toxicologista de mamíferos marinhos em Ocean Wise, o ramo da investigação do Aquário de Vancouver, na Colúmbia Britânica.

Consciente disto, Desforges e os colegas compilaram os estudos sobre os PCB em 351 baleias assassinas distribuídas pelos quatro cantos do mundo, criando a base de dados do género com maior alcance geográfico, a nível mundial. A equipa usou as tendências de crescimento da população e os riscos criados por níveis específicos de PCB para prever as taxas de sobrevivência ao longo de um século de exposição.

Desforges e os colegas descobriram que 10 das 19 populações estudadas já estavam em declínio, e que a exposição aos PCB implicou uma redução do número de animais ao longo do tempo. Os animais mais atingidos são as baleias assassinas que habitam as águas próximas de zonas industrializadas em torno do Estreito de Gibraltar e do Reino Unido, onde se acredita que subsistam menos de 10. Igualmente ameaçadas estavam as populações no Japão, Havai e a região nordeste do oceano Pacífico, que se alimentam habitualmente de mamíferos marinhos, também eles com elevados níveis de contaminação de PCB. As populações que habitam as águas em altitudes elevadas, em torno da Islândia, Noruega e dos polos, apresentam índices de contaminação mínimos e enfrentam substancialmente menos riscos.

Os investigadores reconhecem as limitações do estudo, que se baseia na modelização computacional, e os impactos para as baleias assassinas são extrapolados a partir de estudos de outros animais.

"É um excelente exercício, mas deve ser encarado com reserva”, afirma James Meador, um ecotoxicologista do Centro Científico para a Pesca do Noroeste da Administração Nacional para a Atmosfera e Oceanos, na sigla inglesa NOAA, que não participou no estudo.

Mas até mesmo Meador descreve os resultados como “um alerta”, porque os PCB não fazem mais do que agravar outros perigos que ameaçam as orcas.

 

INTERAÇÃO DE VÁRIOS PERIGOS

Para compreender como, basta apenas olhar para a zona noroeste do Pacífico e para Puget Sound, a tão-somente a alguns quilómetros de distância do gabinete de Meador, em Seattle.

As baleias assassinas, Orcinus orca, que habitam as águas da região, alimentam-se de peixes e estão em risco crítico de extinção, sendo as orcas mais estudadas em todo o mundo. Fazendo uso de álbuns de fotografias e marcas distintivas únicas, os investigadores conseguem identificar cada indivíduo e traçar a linhagem familiar até um de três grupos, conhecidos como J, K e L.

Embora o estudo de Desforges tenha revelado que os PCB comportam riscos moderados para estas baleias assassinas, esta população, que se acredita ter atingido as várias centenas no século XIX, está hoje reduzida a tão-somente 74 indivíduos. A ameaça é considerada de tal forma grave, que o governador de Washington criou, este verão, um grupo de trabalho de emergência para evitar a extinção.

E as baleias assassinas têm vidas emocionais tão complexas, que os problemas destas orcas urbanas são muitas vezes públicos e difíceis de assistir.

Este verão, J35, uma orca de 20 anos batizada Tahlequah, perdeu uma cria apenas meia hora depois de dar à luz e nadou mais de 1609 quilómetros, durante 17 dias, para manter à superfície o corpo inerte da cria, empurrando-a com a cabeça.

Enquanto o mundo acompanhava o ritual de dor da progenitora, os cientistas mantinham-se atentos a outra orca, J50, de três anos, que aparentava estar lentamente a morrer à fome. Os cientistas administraram-lhe antibióticos e usaram uma caixa de petri invertida, presa a uma longa haste, para recolher amostras das exalações da orca através do espiráculo. Grupos tribais da região trituraram salmão e tentaram alimentá-la. J50 desapareceu em meados de setembro, presumindo-se que tenha morrido.

No final de setembro, os técnicos fotografaram outra orca, K25, com sinais evidentes de subnutrição.

Embora pelos menos três fêmeas desta população estejam atualmente prenhes, nenhuma Orcinus orca conseguiu manter viva uma cria em vários anos. Entre 2008 e 2014, os cientistas localizaram matéria fecal de uma orca, com recurso a um labrador preto, batizado Tucker, treinado para cheirar fezes, e usaram-na para demonstrar que cerca de 70 por cento das gestações conhecidas não alcançaram o termo, no âmbito de uma investigação levada a cabo no ano passado.

"Estamos no ponto mais baixo dos últimos 30 anos”, afirma Lynne Barre, coordenadora do programa de recuperação de baleias assassinas da Administração Nacional para a Atmosfera e Oceanos.

Embora diversos fatores possam contribuir para o declínio da população de baleias assassinas, existem três com uma importância crucial. Primeiro, ao contrário de outras orcas que se alimentam de focas ou leões-marinhos, as Orcinus orca alimentam-se quase exclusivamente de salmão-real. Mas a população de salmão-real está em acentuado declínio há vários anos, e cada orca necessita de centenas de quilos de peixe por dia. Para além disso, o ruído do tráfego naval torna mais difícil a ecolocalização, precisamente quando as orcas precisam de procurar alimento a maiores distâncias.

Quando sentem fome e despendem energia, estes cetáceos metabolizam gordura, libertando PCB e outros químicos tóxicos, acumulados nas camadas de gordura, para a corrente sanguínea. Os poluentes podem debilitar o sistema imunitário das orcas, aumentando o risco de doenças, bem como diminuir significativamente a sua capacidade reprodutiva ou atuar como neurotoxinas, induzindo desorientação e, por conseguinte, acentuando a dificuldade destes cetáceos em conseguir alimento. E, à medida que as orcas esfomeadas ficam significativamente mais pequenas, a percentagem de PCB nos seus organismos aumenta, amplificando os impactos.

"Todos estes perigos interagem entre si”, afirma Barre.  

 

OUTRAS POPULAÇÕES EM RISCO

As baleias assassinas podem viver tanto tempo quanto os humanos, o que significa que alguns dos espécimes vivos na atualidade viveram o apogeu do uso dos PCB durante e após a Segunda Guerra Mundial. Estas substâncias químicas são poluentes de libertação lenta, o que significa que as orcas adultas podem ainda acusar os impactos da exposição quando eram crias ou estavam ainda no útero.

Segundo Ross, tal significa que até mesmo as populações que pareciam ser saudáveis podem estar realmente ameaçadas.

Embora o número de orcas residentes nas águas de Puget Sound esteja a diminuir, a população de orcas que habita temporariamente as águas da região, alimentando-se de focas e leões-marinhos, mantém-se estável, ainda que os seus níveis de PCB sejam habitualmente mais elevados. As populações de baleias assassinas no Canadá e no Alasca estão, na verdade, a aumentar.

Mas, dado que os PCB podem afetar quase todas as funções fisiológicas, “por vezes, os números não falam com clareza”, afirma Ross.

Por exemplo, no final dos anos 80, a população de focas-comuns na Europa registava uma recuperação notável, após períodos de acentuado declínio por ação dos PCB e dos pesticidas nos anos 60. Mas, pouco tempo depois das entidades governamentais anunciarem o fim da crise, mais de metade das focas morreu, na sequência de uma infeção viral. Segundo Ross, é provável que os seus sistemas imunitários estivessem fragilizados, por força de anos de exposição.

Desforges e Ross afirmam que a proibição de PCB melhorou claramente a situação das orcas. “Sem isso, é provável que as baleias assassinas não tivessem sobrevivido até aos dias de hoje”, afirma Ross.

Mas ambos mantêm que os países têm de agir com celeridade para erradicar poluentes antigos, quer a nível nacional, quer através da Convenção de Estocolmo. É também essencial agir rapidamente para conter outras ameaças à sobrevivência das orcas, sobretudo a escassez de alimento, a poluição sonora nos oceanos e os riscos ainda vagos decorrentes das alterações climáticas, para que seja possível resgatar algumas populações à beira da extinção.

"Temos informação mais do que suficiente para agir”, diz Ross. “O tempo dir-nos-á se o fizemos depressa o suficiente.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.

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