Microplásticos Encontrados, pela Primeira Vez, nas Fezes Humanas

Os microplásticos estão presentes em lugares remotos e em espécies de todo o mundo. E as pessoas não são exceção.Thursday, October 25, 2018

Por LAURA PARKER

O INEVITÁVEL aconteceu. Já foram encontrados microplásticos em aves, peixes e baleias, pelo que não deveria ser uma surpresa que tenham sido descobertos em seres humanos. Para ser mais específica, apesar de indelicada, foram encontradas minúsculas partículas de plástico e fibras nas fezes de oito pessoas que forneceram amostras como parte de um estudo-piloto.

Esta notícia confirma as previsões de investigadores que rastrearam microplásticos em locais remotos e identificaram estas minúsculas partículas em água potável, cerveja, sal de cozinha e em peixe e marisco. Mas, neste caso específico, as implicações permanecem por explicar.

O facto de este ser o primeiro registo acerca da presença de tais materiais no organismo humano é significativo. No entanto, um estudo com uma amostra tão pequena não pode começar a responder às questões que pairam sobre a ciência dos microplásticos: qual é a origem exata destes fragmentos de plástico? E quais são os potenciais riscos para a saúde humana?

Pedaços de microplástico encontrados nas margens do rio Warnow, em Rostock, na Alemanha, a 17 de março de 2015. Nesta imagem, estão presos a um pedaço de fita adesiva colada num dedo, no Leibniz Institute for Baltic Sea Research (IOW) em Warnemuende, Alemanha, a 9 de fevereiro de 2016.

As embalagens de alimentos podem libertar pequenas fibras. O mesmo pode acontecer com tapetes, roupas e outros produtos feitos de plástico que usamos no nosso dia a dia. Poderão as fibras encontradas nas fezes ter origem em pó transportado pelo ar que caiu sobre a comida dos participantes do estudo antes de estes a consumirem? Ou terão os microplásticos vindo diretamente da comida ou da própria embalagem?

E há mais perguntas para além destas. Será que as nanofibras de plástico — cerca de cinco vezes menores que a largura de um fio de cabelo humano — podem entrar na corrente sanguínea, no sistema linfático ou até chegar ao fígado de uma pessoa após entrarem no organismo? Até hoje, tudo isto permanece um mistério.

"Eu diria que não é nada surpreendente encontrar microplásticos nos excrementos", diz Chelsea Rochman, ecologista da Universidade de Toronto, que estuda os efeitos dos microplásticos nos peixes. “Na minha opinião, isto mostra que estamos a comer o nosso lixo — a má gestão virou-se contra nós através das nossas refeições. E sim, precisamos de estudar como isto pode afetar os humanos.”

PLÁSTICOS NO INTERIOR

Todos os anos, em média, oito milhões de toneladas de resíduos de plástico, a maioria proveniente de artigos de utilização única, escoam para os oceanos em todo o mundo a partir das regiões costeiras. Já na água, a luz solar e o movimento das ondas partem estes plásticos em partes do tamanho de grãos de arroz. Fibras de roupas sintéticas, como o poliéster e o acrílico, entram para os sistemas de água doce através das máquinas de lavar roupa. Pode observar isto ao vivo com um casaco de lã; basta coçar o braço do casaco para espalhar fibras invisíveis. O resultado disto são pequenos fragmentos de plástico e fibras espalhados por todo o planeta. Estes estão presentes nas profundezas do mar e no ar que respiramos.

A vida marinha — desde o mais pequeno plâncton até às maiores baleias — come estes plásticos, incluindo aqueles pequenos o suficiente para serem considerados microplásticos. E estes encontros com plásticos são, normalmente, fatais. Até ao momento, grande parte da pesquisa sobre as consequências desta disseminação focou-se em pássaros e em outros animais. Foram encontrados microplásticos em mais de 114 espécies aquáticas e foram feitos estudos que demonstram os potenciais danos que provocam nos sistemas reprodutivos e no fígado.

Philipp Schwabl, o médico-cientista que realizou o estudo sobre fezes humanas, afirma que espera que as suas descobertas acelerem a pesquisa sobre os efeitos dos microplásticos na saúde dos humanos.

"Com base no resultado desta investigação, é muito provável que os microplásticos estejam presentes também no organismo dos seres humanos", afirmou. "Mas nunca ninguém investigou se os microplásticos se alojam no intestino humano. Agora podemos alargar esta discussão aos humanos."

Schwabl, um gastroenterologista da Universidade de Medicina de Viena, apresentará o resultado da sua investigação esta terça-feira, numa conferência da United European Gastroenterology, em Viena. Os resultados ainda não foram revistos pelos seus pares nem publicados; Schwabl diz que espera ter ambos os processos concluídos em novembro. Schwabl acrescentou que pretende expandir o seu estudo a um grupo maior.

O estudo envolveu três homens e cinco mulheres, com idades compreendidas entre os 33 e os 65 anos, provenientes de sete países diferentes da Europa e do Japão. Os participantes mantiveram um diário alimentar durante uma semana e depois forneceram uma amostra de fezes para testes. Todas as amostras de fezes apresentaram resultados positivos para o plástico.

Os diários também forneceram informações sobre as prováveis origens dos plásticos. Dois dos oito participantes mastigaram pastilhas diariamente. Seis deles comeram peixe e marisco. No decorrer de uma semana, todos consumiram alimentos que estavam embalados em plástico. Em média, os participantes beberam diariamente cerca de 0,7 litros de água engarrafada em garrafas produzidas em PET (tereftalato de polietileno, o material amplamente utilizado para fazer garrafas de plástico.)

Schwabl alertou para o facto de o estudo ser muito pequeno para tirar conclusões sobre fatores individuais, como mastigar pastilha elástica ou comer peixe, ou sobre as rotinas domésticas dos participantes ou o local onde moravam.

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A Agência do Ambiente na Áustria realizou testes às fezes para detetar a existência de dez diferentes tipos de plástico. Encontraram nove deles, sendo os mais comuns o PET e o polipropileno (PP), um componente habitual em embalagens de plástico para alimentos e roupas sintéticas. 

No que respeita à quantidade, as amostras de fezes continham, em média, 20 partículas de plástico, com um tamanho variável entre 50 e 500 micrómetros. (Para efeitos de comparação, um cabelo humano tem, aproximadamente, uma espessura de 100 micrómetros.)

OS CAMINHOS DO PLÁSTICO

Richard Thompson, um investigador marinho na Universidade de Plymouth, no Reino Unido, afirma que ficou surpreendido com a quantidade de plástico detetada nas fezes. O número é superior ao que o investigador esperaria, tendo por base as quantidades de plástico identificadas nos peixes e mariscos.

Thompson, juntamente com outros quatro investigadores, publicaram no início deste ano um estudo, em que se comparava a potencial exposição a fibras plásticas presentes no ar que pousam nos alimentos durante a preparação das refeições com a quantidade de microplásticos ingeridos pelos mexilhões comestíveis na Escócia. O grupo chegou à conclusão de que o risco de consumo de plástico para os humanos é superior com a exposição a fibras presentes do ar do que com o consumo de mexilhões.

Thompson afirma que isto levanta dúvidas relacionadas com as fontes de plástico encontradas no estudo das fezes.

Refere que o PET pode ter origem em garrafas de plástico e embalagens de alimentos, mas também é possível que provenha de tapetes, cortinados ou vestuário, e que acabe simplesmente por cair no prato. "Se conseguirmos perceber qual é o caminho, conseguiremos compreender um pouco melhor a solução."

Mas mesmo que saibamos qual é o caminho, Thompson acrescenta que "nada nos diz sobre os malefícios que representa".

Schwabl alerta ainda para que não se tirem demasiadas conclusões de um estudo realizado a uma amostra de oito pessoas.

"Não estudamos os dados causados", afirma. "Demonstramos a presença de microplásticos nas fezes humanas. Até agora, as pessoas tinham esta suspeita, mas agora temos a confirmação. Isto é importante."

Este artigo foi atualizado a 23 de outubro de 2018 para indicar que um dos sujeitos do estudo também provinha do Japão.

 

Laura Parker pertence à equipa de redação e é especializada em alterações climáticas e ambientes marinhos.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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