5 Mitos da Reciclagem Desvendados

O que realmente acontece a tudo o que colocamos nos ecopontos.

Monday, November 5, 2018,
Por BRIAN CLARK HOWARD
Plásticos diversos são depositados numa máquina com um separador ótico, numa central de reciclagem. A indústria ...
Plásticos diversos são depositados numa máquina com um separador ótico, numa central de reciclagem. A indústria encontra-se numa fase de mudanças repentinas, o que, por vezes, pode confundir os consumidores.
Fotografia de RANDY OLSEN, NAT GEO IMAGE COLLECTION

No último Dia da Terra, publiquei um artigo no Washington Post a respeito de alguns mitos da reciclagem bastante comuns. Recebi tantos comentários e e-mails com questões que resolvi aprofundar um pouco o assunto aqui na National Geographic.

A indústria da reciclagem encontra-se em constante mudança e desenvolvimento, acompanhando os avanços nas áreas das ciências dos materiais e do design de produtos. Esta indústria tem um impacto a nível global cada vez mais considerável, e é afetada por fatores complexos, desde os preços do petróleo à atualidade política e as preferências dos consumidores.

Segundo Rob Kaplan, um investidor ligado à Circulate Capital, em entrevista à National Geographic, “Não há uma fórmula mágica para acabar com a poluição provocada pelos plásticos de um dia para o outro. A solução para este problema não pode passar apenas pela reciclagem, nem pela redução do consumo de certos produtos — não é suficiente.” Contudo, temos de continuar a adotar essa atitude enquanto, simultaneamente, procuramos novas soluções, sublinhou Kaplan. É por isso que a sua empresa está a fazer por juntar 10 milhões de dólares para investir em iniciativas de recolha e tratamento de lixo. 

A maioria dos peritos concorda que a reciclagem continua a ser uma parte vital no processo de redução do lixo e do desperdício e de reaproveitamento de materiais valiosos, bem como na redução das emissões de gases que contribuem para o efeito de estufa e na conservação de energia e de água. De seguida, apresento mais alguns fatores que devemos ter em conta:

FOTOGRAFIAS DE ANIMAIS NUM MUNDO DE PLÁSTICO

MITO Nº1

Não preciso de me preocupar em separar o que quer que seja; atiro todo o meu lixo para um contentor azul, e os serviços municipalizados, depois, tratam do assunto.

Com o aumento dos sistemas de reciclagem de “fluxo único”, no final dos anos 90, o número de pessoas a adotar práticas de reciclagem aumentou exponencialmente. Nessa altura, os consumidores de certas áreas residenciais deixaram de precisar de separar o lixo com base no tipo de material, tampouco por cores ou qualquer indicação presente na base das embalagens. Podiam, simplesmente, colocar todo o seu lixo reciclável num só contentor.

Foi uma medida que tornou as coisas mais simples para os consumidores. Contudo, também levou a um aumento significativo dos índices de contaminação — tanto no que se prende com peças danificadas das máquinas que separam o lixo como com objetos e substâncias indesejados a atrapalhar o processo. Cidadãos demasiado zelosos, com intuito de evitar desperdícios, acabam muitas vezes por colocar de tudo nos contentores, desde cascas de banana e molduras de madeira a telemóveis avariados, ignorando as regras comunicadas.

Consequentemente, o Container Recycling Institute esclareceu que, apesar dos sistemas de reciclagem de fluxo único aumentarem a participação dos cidadãos no processo e reduzirem os custos inerentes à recolha do lixo, a manutenção destes tende a custar três dólares por tonelada a mais que a dos sistemas de fluxo duplo, nos quais o papel é recolhido separadamente. Vidros partidos e fragmentos de plástico misturam-se facilmente com o papel, e podem causar problemas nos equipamentos que o trituram. O mesmo sucede com os óleos alimentares e outras substâncias químicas.

Hoje, não é possível reciclar cerca de um quarto dos produtos que os consumidores colocam nos contentores para serem depois recolhidos pelos profissionais competentes. Isto inclui comida, mangueiras de borracha, arames, plásticos de baixa densidade, e muitos outros produtos que os consumidores demasiado zelosos deitam fora. Estes produtos ocupam espaço durante o transporte, contribuem para um aumento do consumo de combustível, sobrecarregam as máquinas, contaminam materiais valiosos, e colocam os trabalhadores em perigo.

Em resposta a este problema, a China, que recebe uma porção significativa do lixo dos Estados Unidos para o reciclar, só irá aceitar remessas com índices de contaminação iguais ou inferiores a 0,5%.

Conclusão: independentemente de viver numa área afeta a um sistema de fluxo único, fluxo duplo, ou qualquer outro sistema de reciclagem, é muito importante que siga as regras e indicações da empresa que presta o serviço de reciclagem para que todo o processo possa fluir sem complicações.

MITO Nº2

Os programas de reciclagem otimizada roubam postos de trabalho aos coletores e separadores de lixo, por isso o melhor é deixar o lixo ficar onde ele cair, que os mais necessitados apanhá-lo-ão e saberá reutilizá-lo.

Este era um argumento que escutava com alguma frequência quando vivia em Manhattan, onde é comum ver-se pessoas a remexer no lixo em busca de algo com o mínimo de valor. Mas essa não é, contudo, a melhor maneira de gerir o lixo e o desperdício, pois a realidade é constituída por uma estrutura de intervenientes muito mais complexa do que uma mera dualidade de propostas.

Pelo mundo fora, milhões de pessoa improvisam a sua sobrevivência a recolher lixo. São habitualmente os cidadãos mais pobres e marginalizados, contudo estão a fazer um serviço público que deveria ser valorizado. As pessoas que recolhem lixo que pode ser reaproveitado ajudam a combater o desperdício e a reduzir o risco de ocorrências que podem comprometer a saúde pública. O seu contributo para a reciclagem é valioso.

No Brasil, onde o governo monitoriza os estimados 230 mil cidadãos cuja única ocupação é recolher lixo, há dados que indicam que estes cidadãos ajudaram a aumentar os índices de reciclagem do país até cerca 92% no caso dos alumínios e 80% no do cartão (comparemos esses valores com os 75% para o alumínio e os 70% para o cartão, nos Estados Unidos).

No mundo inteiro, estudos indicam que mais de três quartos destes coletores de lixo vendem os objetos que encontram a empresas da indústria da reciclagem. Por isso, estes coletores de lixo não-oficiais estão muitas vezes a trabalhar com companhias, e não a competir com elas.

Uma destas empresas é a A1 Electronic Recycling Center, no sul de Los Angeles, onde cerca de 90% do material reciclável processado é trazido por coletores não-oficiais, muitos deles sem-abrigo, que recebem algum dinheiro por este serviço. 

Em conversa com o Huffington Post, Anthony Collins, dono da A1, explicou, “[Os coletores de lixo] permitem que mantenhamos a cabeça à tona da água, mantêm-nos ocupados, dão trabalho aos nossos funcionários.”

OS COLETORES DE LIXO DO CAIRO "CULTIVAM" O LIXO DA SUA CIDADE

Muito coletores estão a começar a organizar-se, até a sindicalizar-se, e a procurar informação que os permita protegerem-se dos seus governos — isto é, a tentar integrar a cadeia da reciclagem profissional, em vez de a debilitar. Foi o que aconteceu em Buenos Aires, onde cinco mil pessoas, maioritariamente ex-coletores não-oficiais, recebem agora um ordenado a trabalhar para os serviços municipalizados. Em Copenhaga, o município instalou contentores especiais onde os cidadãos podem deixar garrafas que são posteriormente recolhidas pelos coletores que as entregam nos centros de reciclagem.

MITO Nº3

Produtos compostos por vários materiais não podem ser reciclados.

Quando a reciclagem surgiu, há já várias décadas, a tecnologia era consideravelmente mais limitada do que nos dias de hoje. Na altura, era impossível reciclar objetos complexos, ou feitos de diferentes tipos de materiais, como embalagens de sumo, pacotes de leite, ou brinquedos.

Hoje, mais de 60% dos lares norte-americanos têm a possibilidade de encaminhar os seus objetos de cartão para que estes sejam reciclados, graças a máquinas que conseguem decompor estes objetos e reduzi-los aos seus constituintes essenciais. Em grande parte, devido ao interesse demonstrado pelos consumidores, os fabricantes de produtos têm vindo a desenvolver esforços no sentido de tornarem as suas embalagens mais fáceis de reciclar. Se sente que há um objeto que não consegue reciclar devidamente, contacte o fabricante e explique-lhe o problema.

É sempre uma boa ideia verificar as regras comunicadas pelas entidades que assumem os serviços de reciclagem na sua área de residência. Porém, muitos consumidores já não precisam de recortar as janelinhas de plástico do papel dos seus envelopes, ou remover agrafos dos seus documentos. As máquinas responsáveis pelo processo de reciclagem estão agora equipadas com equipamentos que produzem calor suficiente para derreter alguns objetos, como adesivos, e ímanes que se estilhaçam em pequenos fragmentos de metal.

Um número cada vez maior de adeptos da reciclagem até já consegue lidar com os plásticos “menos desejáveis”, como os sacos do supermercado, ou objetos feitos de uma mistura de resinas ou materiais desconhecidos, como acontece com muitos brinquedos e outros objetos do quotidiano. Contudo, isto não significa que podemos deitar tudo nos contentores do lixo sem qualquer tipo de critério (ver mito n.º 1), mas a verdade é que é possível reciclar um número muito maior de objetos do que no passado.

MITO Nº4

Os produtos só podem ser reciclados uma vez, por isso nem vale a pena tentar.

Na verdade, muitos objetos podem ser reciclados sucessivamente; poupando-se assim em energia e recursos naturais (ver mito n.º 5).

O vidro e os metais, incluindo o alumínio, podem ser reciclados eficaz e indefinidamente sem perderem qualidades, de tal forma que as latas de alumínio são um dos objetos mais rentáveis, no que respeita à reciclagem, e um dos que tem mais procura.

É verdade que por cada vez que o papel é reciclado as suas microfibras ficam ligeiramente mais fragilizadas. Contudo, a qualidade do papel reciclado tem aumentado drasticamente ao longo dos últimos anos. Uma folha de papel de impressora pode ser reciclada, em média, entre cinco a sete vezes antes das fibras ficarem demasiado degradadas para serem reutilizadas enquanto papel. Nessa altura, ainda podem ser aproveitadas para fazer materiais à base de papel de menor qualidade como os das caixas de ovos ou outros tipos de packaging.

Já o plástico, é comum só poder ser reciclado uma ou duas vezes, geralmente sendo transformado em objetos que não servem para guardar comida nem têm de obedecer a rigorosos requisitos de rigidez, como alguns objetos mais leves que encontramos nas nossas casas. Isto deve-se ao facto de os polímeros (macromoléculas formadas a partir de unidades estruturais menores) serem quebrados durante o processo de reciclagem. Todavia, os engenheiros estão constantemente a tentar encontrar novas aplicações para os materiais, tendo criado tipos de plástico para variadíssimas necessidades, como a “madeira” de plástico, utilizada para fazer tábuas e bancos, ou misturando plástico com asfalto para criar estradas e pavimentos de maior durabilidade.

MITO Nº5

A reciclagem não passa de uma forma de o governo se aproveitar das pessoas, ou, pior ainda, de uma grande farsa. Seja como for, não traz quaisquer benefícios para o Planeta.

Uma vez que muitas pessoas não fazem ideia do que acontece ao lixo que deitam nos contentores, é natural que exista algum ceticismo em relação à reciclagem. Por vezes, surgem reportagens onde vemos funcionários de empresas de recolha a lançar arbitrariamente grandes sacos de lixo para terrenos baldios; as pessoas apontam muitas vezes o dedo ao combustível gasto pelos camiões do lixo, e muitas são as vozes que criticam a utilização de dinheiro público para fundar ou financiar empresas privadas de reciclagem.

Segundo a Environmental Protection Agency, os benefícios da reciclagem para o nosso planeta são evidentes. Reciclar latas de alumínio poupa 95% da energia necessária para criar latas novas. Reciclar aço e baldes de lata poupa-nos entre 60% a 74% de materiais em estado bruto; no caso do papel a poupança é de cerca de 60%; e reciclar plástico e vidro representa uma poupança de um terço da energia necessária para criar esses produtos a partir de materiais virgens. A energia poupada quando se recicla uma única garrafa de vidro é a suficiente para manter uma lâmpada de 100 watts a funcionar durante quatro horas.

A reciclagem previne a acumulação de lixo tóxico, que propaga doenças do foro bacteriológico e infeções fúngicas. Além disto, cria postos de trabalho — cerca de 1,25 milhões nos Estados Unidos. Enquanto alguns críticos mais céticos argumentam que a reciclagem pode induzir o público num falso sentido de segurança, como se esta bastasse para resolver todos os problemas ambientais, a maioria afirma que é uma ferramenta imprescindível no combate às alterações climáticas, à poluição e outros flagelos que assolam o nosso planeta.

Além disso, em muitas regiões, a reciclagem não é apenas uma ação governamental, antes uma indústria dinâmica e competitiva focada numa inovação constante, que desenvolve projetos como um sistema de recolha com recurso a máquinas automáticas, e iniciativas inovadoras, tanto para consumidores como para empresas. Em muitos casos, a reciclagem pode até ser vantajosa do ponto de vista financeiro.

 

A National Geographic compromete-se a reduzir a poluição provocada pelo uso de plásticos. Este artigo está incluído no programa Planeta ou Plástico? — o nosso esforço anual para alertar para a crise global do plástico.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler