Fotografias Exclusivas: Um Icebergue Gigante Solta-se da Antártida

Os cientistas da NASA tiveram o primeiro vislumbre de um novo icebergue com o triplo da dimensão de Manhattan.

Publicado 16/11/2018, 16:18 WET
Desfiladeiros de gelo sinuosos marcam o limite do novo icebergue, batizado de "B-46", à medida que ...
Desfiladeiros de gelo sinuosos marcam o limite do novo icebergue, batizado de "B-46", à medida que se separa da espessa e flutuante plataforma de gelo no glaciar de Pine Island, na Antártida Ocidental. Em primeiro plano, vemos gelo partido sobre a superfície negra do Mar de Amundsen.
Fotografia de Thomas Prior, National Geographic

 

SOB O GLACIAR DE PINE ISLAND, ANTÁRTIDA OCIDENTAL — À medida que o avião se aproximou a baixa altitude sobre a enorme extensão de branco, os cientistas entusiasmados reuniram-se em redor das janelas com as câmaras preparadas. Os seus instrumentos avisaram-nos de que algo de especial estava prestes a surgir na sombria extensão da Antártida Ocidental.

"Estamos a aproximar-nos do B-46", disse a voz do piloto através dos auscultadores.

Momentos mais tarde, as fendas surgiram. Enormes fissuras em forma de bloco que atravessam o gigante "bolo de camadas" branco que é o glaciar de Pine Island, uma parte da plataforma de gelo da Antártida Ocidental que se está a deslocar rapidamente. O som de obturadores a disparar inundou a cabina ruidosa e com muitas correntes de ar do avião DC-8. Viam-se grandes sorrisos e ouviam-se exclamações. "É tão grande", disse alguém. "É incrível", disse outra pessoa.

Outro enorme pedaço de gelo tinha acabado de se soltar do glaciar.

À medida que o jato continuava o seu percurso em linha transversal controlado automaticamente a 1500 pés de altitude sobre o gelo, atravessou a rutura principal: um enorme desfiladeiro branco que assinalava um ponto de separação, daquilo que fora outrora um icebergue, do resto da plataforma de gelo flutuante do glaciar. Calcula-se que o novo icebergue, batizado de B-46 por cientistas, abranja cerca de 183 8892 km², mais do triplo da dimensão de Manhattan. Os penhascos nos seus limites têm cerca de 48 a 70 metros de altura.

“Trata-se de uma característica totalmente nova”, afirmou Brooke Medley, glaciologista do Goddard Space Flight Center da NASA em Maryland. "Tenho 99% de certeza que somos as primeiras pessoas a ver isto pessoalmente."

O glaciar de Pine Island está situado ao longo Mar de Amundsen, a oeste da Península Antártica. Apesar de remoto, é um dos glaciares mais famosos e estudados do mundo - porque é um dos que se altera mais rapidamente. À medida que o glaciar vai derretendo, na sua maioria devido à água do mar quente que está a ser levada por baixo da sua plataforma flutuante por ventos e correntes em constante mudança, contribui significativamente para a subida global do nível do mar.

Em setembro, cientistas que estavam a estudar fotografias de satélite tinham descoberto uma fenda na plataforma de gelo. "É possível que tenha começado antes disso mas foi no inverno polar e não temos registo de tal", afirmou Medley.

Acredita-se que o icebergue B-46 se tenha quebrado algumas semanas mais tarde ou por volta de 27 de outubro, mais uma vez, de acordo com imagens de satélite, afirmou Medley, que é também a cientista responsável do projeto da Operação "IceBridge" da NASA. Desde 2009, o programa tem sobrevoado ambos os polos com instrumentos sensíveis a bordo de diversos aviões - incluindo o modelo vintage DC-8 utilizado esta semana - para estudar a forma como as regiões cobertas de gelo estão a mudar à medida que o planeta aquece.

RUTURA RÁPIDA

A velocidade da rutura do icebergue tem surpreendido os cientistas. E quando cedeu, "poderá ter levado consigo alguns icebergues mais pequenos pelo caminho", acrescenta Medley.

De facto, o icebergue é tão grande e recente e, mesmo assim, tão próximo do glaciar adjacente, que é difícil observá-lo no seu todo a partir de uma altitude de 1500 pés - imaginemos sobrevoar Manhattan a apenas alguns pés acima da ponta da antena do Empire State Building.

"É difícil compreender a dimensão daquilo que estamos a observar", afirmou Medley a partir da sua estação de trabalho no DC-8, atrás de um banco de monitores. "Mas é absolutamente estonteante. Espetacular."

Para além dos desfiladeiros de gelo principais que assinalam os limites exteriores do icebergue, o icebergue também está dividido em muitas fendas mais pequenas, o que indica que já se está a quebrar em pedaços mais pequenos. Podem ser vistas ainda mais fissuras a romper pelo próprio glaciar.

O B-46 irá provavelmente continuar a quebrar-se durante as próximas semanas, uma vez que está à mercê do vento e correntes do Oceano Sul.

Grandes secções do B-46 flutuam em frente à plataforma de gelo de Pine Island. Os cientistas preocupam-se com a eventual desintegração de toda a plataforma de gelo, libertando assim o glaciar que se esconde por trás.

Fotografia de Thomas Prior, National Geographic

Apesar de o B-46 ser uma enorme massa de gelo, é pouco provável que seja a maior da história recente. Em 2015, o glaciar de Pine Island — ou PIG, como os cientistas o apelidaram carinhosamente, originou um icebergue com cerca de 582 747 325 km2. E em julho de 2017, uma extensão de gelo com a dimensão do estado de Delaware, com cerca de 5 801 573 km2, soltou-se da plataforma de gelo de Larsen C na Península Antártica.

O PANORAMA GERAL

Apesar do aparecimento de grandes extensões de gelo ser um fenómeno puramente natural, tem despertado cada vez mais a atenção da comunidade científica e do público devido às suas possíveis ligações com as alterações climáticas globais. À medida que os glaciares terrestres derretem devido ao aumento da temperatura, sobretudo na Gronelândia e Antártida, o nível global do mar está a subir. Tal, por sua vez, ameaça afundar zonas baixas desde a Flórida até ao Bangladesh.

“O glaciar de Pine Island e o vizinho glaciar de Thwaites contribuem fortemente para o aumento global do nível do mar, de 5 a 10 %, mesmo que representem apenas cerca de 3% da Antártida”, afirmou John Sonntag, cientista do Goddard Space Flight Center da NASA e autointitulado "nerd da meteorologia", que também esteve no voo.

Os glaciares que circundam a Antártida estão reforçados pelas suas plataformas de gelo flutuantes. À medida que essas plataformas de gelo se derretem e se partem em pedaços, aliviam a pressão sobre as enormes quantidades de gelo terrestre por trás das mesmas. Se glaciares inteiros se desprendessem em direção ao mar, poderiam eventualmente fazer subir o nível do mar em dezenas de metros, com implicações potencialmente catastróficas para a civilização humana.

No início da década de 2000, o glaciar de Pine Island originou enormes icebergues a cada seis anos, aproximadamente. Mas, nos últimos cinco anos, já ocorreram quatro eventos semelhantes. Desde os anos 70, o limite do glaciar recuou dezenas de quilómetros. A conduzir todo este derretimento está a água do Mar de Amundsen que aqueceu mais de 1 grau (Fahrenheit) ao longo das últimas décadas.

 

O B-46 é basicamente uma grande fatia da parte dianteira da plataforma de gelo de Pine Island – a parte final de um glaciar que está a flutuar a caminho do mar. O bloco encontra-se já a estalar acabando por se fracionar em secções que se tornarão icebergues.

Fotografia de Thomas Prior, National Geographic

Voando a 1500 pés de altitude, o avião da NASA sobrevoou o novo icebergue B-4, obtendo uma boa visão da sua parte dianteira e limite litoral.

Fotografia de Thomas Prior, National Geographic

"É extraordinária a relevância que esta área em específico tem para a nossa espécie", afirmou Sonntag.

Medley avisa que é difícil associar um evento específico de criação de icebergues com uma mudança a longo prazo. "Dito isto, podemos analisar a frequência dos eventos".

O comportamento dos glaciares é complexo e há ainda muito a descobrir sobre os mesmos. De facto, a recolha de dados para ajudar a diminuir esta falta de conhecimento é o objetivo principal do voo sob o Polo Sul, como parte da campanha primavera e verão da operação "IceBridge" da NASA. Em particular, os cientistas esperam conseguir cartografar melhor o fundo do mar sob as plataformas de gelo (o que influencia a velocidade a que o gelo recua) e, mais precisamente, calcular a densidade e massa da neve e gelo (que podem influenciar as taxas de derretimento).

Dados preliminares obtidos pelos lasers e pelo radar a bordo do DC-8 sugerem que o B-46 registou fraturas que atingiram, no mínimo, cerca de 60 metros de profundidade, afirmou Jim Yungel, um engenheiro do Goddard Space Flight Center da NASA responsável por controlar os instrumentos no voo.

Por enquanto, é difícil dizer qual o contributo do novo icebergue ou se o mesmo pode ser um sintoma das grandes alterações que assolam a Antártida Ocidental.

Na opinião de Medley, "O facto de se ter solto tão rapidamente é preocupante".

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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