O Que Significa Para a Terra a Perda de Gelo “Sem Precedentes” da Gronelândia

A camada de gelo está a derreter mais depressa do que nos últimos 350 anos – e a subir os níveis de água do mar em todo o mundo.

Friday, December 28, 2018,
Por Alejandra Borunda
Investigadores observam o degelo nos limites da camada de gelo da Gronelândia.
Investigadores observam o degelo nos limites da camada de gelo da Gronelândia.
Fotografia de Ginny Catania, Nat Geo Image Collection

Em julho de 2012, durante alguns dias, fez tanto calor no Ártico que quase toda a camada de gelo da Gronelândia derreteu.

Estava tão estranhamente quente que os cientistas, ao saírem das suas tendas no pico mais alto da camada de gelo, ficaram enterrados até aos joelhos em neve macia. Depois, essa neve começou a derreter.

Perto do limite da camada de gelo, poças de azul brilhante começaram a acumular-se na superfície lisa branca. Riachos de degelo começaram a escorrer, entrelaçando-se em grandes lençóis de água. A água do degelo abriu canais e escorreu por todas as fendas. Um rio perto do limite da camada ficou tão volumoso que arrastou consigo uma ponte que existia há décadas. A camada de gelo verteu tanta água das suas entranhas nesse ano, que o nível das águas do mar subiu mais de um milímetro em todo o mundo.

O degelo era alarmante, os cientistas nunca tinham visto nada assim. Mas ninguém sabia ao certo o quão invulgar era este evento ou o quão preocupados deveriam ficar. Mas agora, os cientistas descobriram que o verão quente de 2012 foi o culminar de 20 anos de um aumento do degelo sem precedentes na Gronelândia. Ainda mais preocupante, descobriram que o degelo está a ocorrer mais depressa do que o aquecimento da temperatura do ar. Por isso sim, concluíram eles, 2012 foi um ano particularmente mau – mas foi apenas uma antevisão do que pode vir a acontecer.

“O degelo da camada gelada da Gronelândia é agora maior do que alguma vez foi nos últimos três ou quatro séculos, e provavelmente até mais”, diz Luke Tusel, investigador na Universidade Rowan, em Nova Jérsia, e autor de um novo estudo publicado na Nature

Os efeitos do degelo não são apenas abstratos: um degelo completo das camadas com mais de um quilómetro de espessura da Gronelândia, despejaria 7 metros de água extra nos oceanos mundiais. Os cientistas avisam, o que acontece nos Polos é importante para quem vive junto à costa, quem depende de comida que chega através de portos marítimos e para quem faz ligações de voos em aeroportos junto ao oceano. 

LER O GELO COMO SE FOSSE UM LIVRO DO PASSADO

Os cientistas já sabiam que o degelo da Gronelândia estava a acontecer rapidamente; através de satélites, eles conseguiam acompanhar o seu tamanho a encolher. Mas os dados de satélite mais relevantes só existem desde o início dos anos 1990 – por isso não sabiam dizer com exatidão o quão alarmante era o degelo. Será que este aquecimento, capaz de nos deixar de queixo caído, já tinha acontecido anteriormente? Quão fora do normal era, quando comparado com uma época anterior às alterações climáticas provocadas pelo homem? Ninguém sabia. (Saiba que práticas podem ajudar a reverter as alterações climáticas)

Precisavam de descobrir uma forma de olhar para trás no tempo, por isso dirigiram-se à fonte: a própria camada de gelo. Fizeram furações na superfície gelada e extraíram núcleos de gelo, com registos que mostram a intensidade e a quantidade de degelo ocorrida nos últimos duzentos anos. Compararam esses dados com modelos, permitindo-lhes calcular o escoamento resultante dos degelos registados nos núcleos. 

Em ambos os estudos, viram um sinal claro. O degelo e o escoamento começaram a escalar assim que as primeiras alterações climáticas provocadas pelo homem atingiram o Ártico, em meados do séc. XIX. Mas o verdadeiro drama só se revelou nos últimos 20 anos; de repente, a intensidade do degelo disparou para níveis quase seis vezes mais altos do que os registados antes da Revolução Industrial. 

“É exatamente o mesmo que ligar um interruptor”, diz Beata Csatho, glaciologista na Universidade de Buffalo, que não fez parte do estudo.

O EFEITO BOLHA

Também era evidente que o degelo estava a acelerar mais rapidamente do que a subida da temperatura. Quanto mais quente ficava, maior era a suscetibilidade da camada de gelo a esse aquecimento, principalmente porque o degelo à superfície muda de cor.

“Pensem num floco de neve branco e fofinho”, explica Trusel. “Ao derreter, transforma-se numa bolha.”

As bolhas absorvem mais calor solar do que um floco de neve branco e fofinho. Quanto mais calor absorvem, mais derretem. “Por isso, mesmo sem alterações de temperatura, assim que este processo começa, elas só querem derreter cada vez mais”, diz Trusel.

Isto não augura nada de bom para o futuro, em particular porque as temperaturas do ar no Ártico estão a subir mais depressa do que em qualquer outro lugar do planeta.

”O que estamos a assistir neste momento não tem precedentes. Os aumentos do degelo são provocados pelo aquecimento, que por sua vez é provocado pela emissão de gases do efeito estufa na atmosfera, por parte dos humanos”, diz Ellyn Enderlin, cientista de glaciares na Universidade do Maine, que não esteve envolvida neste estudo. “Os feedbacks dados pela Terra, com os registos dados – são impossíveis de compensar. Atualmente, o sistema não se consegue adaptar à velocidade da mudança.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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