Meio Ambiente

6 Impactos do Muro Fronteiriço no Ambiente

O plano de Trump para construir um muro entre o Golfo do México e o Pacífico pode trazer consequências inesperadas para a vida selvagem e para as pessoas. Quinta-feira, 24 Janeiro

Por Laura Parker

As pessoas que vivem e trabalham ao longo da fronteira sul dos EUA dizem que quanto mais longe da fronteira se discutir o problema, mais este fica desligado da realidade. Essa perspetiva, que já vem de longe, foi novamente confirmada quando a disputa em Washigton sobre a exigência de 5.7 mil milhões de dólares, por parte do Presidente Donald Trump, para construir um muro ao longo da fronteira, se transformou numa discussão sobre se o muro deveria ser feito de lajes de betão ou lâminas de aço.

A razão para construir o muro é manter as pessoas fora. No entanto, a história está repleta de exemplos de muros em todo o mundo que raramente dissuadiram as pessoas mais determinadas de entrar. Janet Napolitano, que exerceu o cargo de governadora do Arizona e pertenceu ao secretariado de Barack Obama no Departamento de Segurança Interna, era famosa pela sua declaração recorrente: “Mostrem-me um muro de 15 metros, e eu mostro-vos uma escada de 16.” O critério de construir um muro ao longo da fronteira EUA-México numa altura em que o número de prisões por entradas ilegais está abaixo das 45 por ano, é uma questão que pertence ao debate sobre as leis de imigração.

No entanto, o que se segue aqui é um olhar sobre as implicações da construção do próprio muro – longe da conversa do betão ou do aço – e das consequências inesperadas que o erguer de tal barreira podem trazer. “Seja lá o que for que construam, vai ser destrutivo para o habitat natural”, diz Bob Dreher, advogado que lidera os programas de conservação da Defenders of Wildlife. “É acerca da realidade física que uma barreira permanente pode trazer a uma das paisagens mais delicadas da América do Norte.”

Eis um olhar sobre alguns dos potenciais impactos.

1. AMEAÇA NAS DIVERSAS PAISAGENS

A fronteira estende-se por 3144 quilómetros, do Golfo do México, no Texas, ao Oceano Pacífico, na Califórnia, cobrindo uma das mais diversificadas paisagens dos EUA. Inclui 6 eco-regiões separadas, que incluem deserto, mato, florestas, bosques e zonas húmidas de pântanos de água doce e salgada.

A construção de um muro fronteiriço vai dividir o alcance geográfico de 1506 espécies nativas de plantas e animais, incluindo 62 espécies identificadas como estando em risco crítico. Através de um artigo publicado em julho passado na Bioscience, uma equipa de peritos em conservação, incluindo o famoso biólogo e naturalista Edward O. Wilson, argumenta que o muro fronteiriço coloca estes habitats em risco. Um muro aumenta a erosão do solo. Vai alterar os cursos de água naturais e os padrões da vida selvagem, agravando os riscos tanto para as pessoas como para os animais.

2. AGRAVAMENTO DAS INUNDAÇÕES

Após terem sido construídos mais de 1100 quilómetros de vedação, durante a administração de George W. Bush, o estado do Arizona sofreu graves inundações. As barreiras atuaram como barragens, provocando inundações súbitas durante a época das chuvas. Em 2008, no Monumento Nacional Organ Pipe Cactus, no sudoeste do Arizona, um segmento de vedação, com 8 quilómetros de comprimento e 4 metros de altura, prendeu os destroços que escorriam de um depósito natural durante uma tempestade de verão que durou 90 minutos, provocando acumulação de água até dois metros de altura.

A mesma tempestade enviou torrentes para a cidade de Nogales, no Arizona, uma cidade fronteiriça de 100 quilómetros a sul de Tucson, causando danos na ordem dos milhões de dólares em Nogales, e em Sonora, no lado do México. Em 2011, outro dilúvio no Monumento Organ Pipe derrubou um segmento da vedação, e em 2014, as cidades gémeas de Nogales voltaram a inundar, depois das barreiras da fronteira terem ficado entupidas com destroços durante um temporal.

3. PERIGOS PARA A VIDA SELVAGEM E PLANTAS

De acordo com o artigo da Bioscience, o muro fronteiriço pode desconectar um terço de 346 espécies de vida selvagem nativa, cortando até mais de 50% do seu alcance que se estende para sul da fronteira. Isto aumenta o risco de sobrevivência, diminuindo e isolando as populações animais, limitando a sua capacidade de procura de comida, de água ou de parceiros para acasalar. As vedações também impedem os animais de escaparem aos fogos, às inundações e às vagas de calor. Até a coruja pigmeu está em risco, porque quando voa, fá-lo a pouco mais de um metro de altura.

ANIMAIS PROTEGIDOS PELA LEI DAS ESPÉCIES AMEAÇADAS

As vedações fronteiriças afetam as migrações sazonais, prejudicando o acesso à água e aos locais de parto do carneiro-selvagem-do-deserto, que vagueia entre a Califórnia e o México. A incapacidade de atravessar a fronteira fragmentou as populações de Antilocapras americanas, e reduziu as probabilidades de restabelecimento de colónias de lobos-mexicanos, jaguares e ocelotes, nas suas zonas de alcance dos EUA. Os jaguares costumavam vaguear pelas margens do Rio Grande, mas praticamente desapareceram do Texas.

Por sua vez, as limitações nas migrações afetam as plantas. De acordo com um relatório apresentado pela Defenders of Wildlife, as sementes de árvores de mesquite germinam melhor depois de terem sido processadas pelos sistemas digestivos de queixadas (porcos-selvagens) e coiotes.

4. DIVISÃO DO RIO

Há muito tempo que se acreditava que o Rio Grande, fronteira oficial entre os EUA e o México, era um obstáculo geológico à construção de uma vedação. De tempos a tempos, o canal do rio muda de curso e tem cheias na primavera. Construir um muro a norte do rio significa ceder controlo dessas terras ao México e isolar propriedades privadas de cidadãos norte-americanos, no lado mexicano do muro.

Esta mentalidade mudou. Na primavera passada, o Congresso aprovou um orçamento de 1.6 mil milhões de dólares para construir mais muro, maioritariamente no Texas. No Condado Hidalgo, os planos do Departamento de Segurança Interna requerem a construção de 40 quilómetros de muro sobre diques que controlam inundações, em alguns locais a mais de um quilómetro de distância da fronteira. Outros 12 quilómetros estão previstos avançar no vizinho Condado Starr.

5. PREJUDICIAL PARA REFÚGIOS E PARQUES DE VIDA SELVAGEM

As propostas em estudo colocam o muro a atravessar sete áreas de conservação de vida selvagem no Texas, incluindo Lower Rio Grande Valley National Wildlife Refuge e o Parque Nacional Big Bend, que é apreciado por ser um parque tão remoto que é considerado o melhor local dos Estados Unidos Contíguos para observar o céu noturno.

Em Mission, no Texas, o Centro Nacional Butterfly, onde mais de 200 espécies de borboletas vivem perto das margens do Rio Grande, foi notificado que o muro vai dividir um santuário de 400 metros quadrados, colocando quase 70% do lado mexicano. Os planos também incluem a divisão de um parque estatal e refúgio de vida selvagem, colocando novamente a maior parte do terreno no lado mexicano.

Após objeções ferozes, o Departamento de Segurança Interna arquivou os planos para a construção do muro no Refúgio Nacional de Vida Selvagem de Santa Ana, em Álamo, no Texas, onde vivem mais de 400 espécies de pássaros, tatus e gatos-selvagens.

6. ISENÇÃO DE LEIS AMBIENTAIS 

A construção do muro fronteiriço não tem de preencher os requisitos de algumas das mais abrangentes e eficazes leis federais ambientais (mais de 30), como a Lei das Espécies Ameaçadas, a Lei Nacional de Política Ambiental, a Lei do Ar Limpo e a Lei da Água Limpa. Isso deve-se à Lei REAL ID, aprovada pelo Congresso em 2005 em resposta aos ataques terroristas do 11 de setembro: autoriza o Departamento de Segurança Interna a renunciar quaisquer leis em nome da segurança nacional.

Os diversos processos legais que contestam a Lei REAL ID datam até 2006. Até agora, nenhum deles sobreviveu a recursos judiciais, que colocariam a questão constitucional ligada a diversos ramos executivos da autoridade perante o Tribunal Supremo. Os desafios continuam.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler