Meio Ambiente

Este Cachalote Bebé Esteve 3 Anos Preso a Lixo do Oceano

A sobrevivência de Digit é fundamental para a sua família. A sua história realça a crise da população marinha. Terça-feira, 8 Janeiro

Por Craig Welch

Quando viu as imagens, Shane Gero congelou.

Uma linha de corda grossa e traiçoeira de uma rede de pesca, com sete milímetros de espessura, balançava na barbatana caudal de um jovem cachalote. Para o olho destreinado, a linha parecia inofensiva – um nó preso na base da cauda. Mas Gero sabia que a corda significava a morte.

As fotografias enviadas por um colega, através de correio eletrónico, mostravam a corda fazendo peso na cauda. Era o suficiente para a impedir de mergulhar, a forma utilizada pelos cachalotes para caçar comida. Com o crescimento, o nó iria cortar através da carne, estrangulando o tecido como se fosse um garrote. A linha poderia até amputar-lhe a barbatana caudal, caso não morresse primeiro de fome ou infeção.

Na sua casa, em Otava, Gero afastou-se do computador. Chamou a sua mulher e tentou não chorar.

A cachalote Digit ainda não tinha quatro anos, mas Gero já conhecia a sua família há muitos mais. Todas as primaveras, durante uma década, o ecologista comportamental canadiano abandonava os seus, para passar meses com estas baleias no Mar das Caraíbas, perto de Dominica, nas Índias Ocidentais. Apesar de ainda não ter chegado aos 40, o professor assistente da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, estava rapidamente a transformar-se no principal perito em cachalotes bebé do mundo. A Digit e os seus familiares eram os seus objetos de estudo.(Veja o que podemos aprender com estes animais).

O facto de a Digit existir era por si só importante. Milhares de cachalotes atravessam os oceanos mundiais. Mas 12 das 16 famílias de baleias que regressavam todos os anos a esta zona das Caraíbas estavam a morrer. Em apenas 15 anos as famílias podiam ser reduzidas a uma baleia por família.

Para além disso, as famílias de cachalotes são matrilineares. Os machos adultos são eventualmente postos de lado e as fémeas carregam o fardo exclusivo de educar os mais novos. Durante anos, esta família tinha produzido uma linhagem de machos. Três deles – Thumb, Tweak e Enigma – já tinham morrido. Scar ia desaparecer em breve.

A família precisava de uma cria fémea.

A chegada de Digit em 2011 deixou a equipa de investigação de Gero extasiada. A tripulação observou Digit a fazer o desmame da mãe, Fingers. Aplaudiram quando ela levantou a barbatana caudal para fazer o seu primeiro mergulho profundo. Com a chegada de Digit, a família de cachalotes mais estudada do mundo parecia pronta para continuar.

Depois, em 2015, Gero recebeu as imagens.

LEVIATÃS SOCIÁVEIS

Na literatura, os cachalotes são bestas capazes de desfazerem navios – monstros de uma “maldade inescrutável”, fervilhava Ahab na obra de Herman Melville, Moby Dick. Na realidade, isso está longe de ser verdadeiro.

As maiores baleias dentadas do mundo têm os maiores cérebros do reino animal. Estes nómadas de mergulhos profundos fazem parte de clãs que podem atingir milhares de membros. Cada clã comunica no seu próprio dialeto, utilizando um conjunto único de padrões de cliques. Estas baleias são sociáveis e brincalhonas. Elas reviram-se e esfregam-se umas nas outras perto da superfície. Algumas empenham-se em jogos de “apanhada” e “escondidas”, nadam em círculos em torno dos barcos de investigação dos cientistas e viram-se de lado para verem a tripulação. Os cachalotes também são muito curiosos, especialmente quando andam a espiar destroços desconhecidos.

Gero, um explorador da National Geographic, podia adivinhar o que aconteceu a Digit. Os pescadores das Caraíbas prendem as redes de pesca ao fundo do mar para atrair peixes marlim, atuns e dourados-do-mar. As baleias raramente perturbam este material fixo, mas os navios de contentores e os navios de cruzeiro costumam rasgar acidentalmente as redes. Este material flutuante costuma atrair criaturas curiosas, e aquelas linhas soltas são para as baleias o mesmo que as teias de aranha são para as moscas. Apesar de não existirem dados estatísticos globais fidedignos, pelo menos 76 baleias grandes, incluindo baleias-jubarte, baleias-azuis e baleias-anãs ficaram presas em redes, linhas ou destroços em 2017 – só em águas dos EUA. A grande maioria destas situações passa despercebida.

Gero suspeita que Digit se tenha simplesmente enleado num laço de linha solta. Na região, outras três baleias tinham ficado recentemente presas em material de pesca. Uma delas, uma mãe com um maxilar partido, foi obrigada a arrastar a sua cria morta durante dias, depois de ambas terem ficado presas no mesmo ninho de linhas. (A lesão na boca da mãe sugeria que ela tinha tentado roer as cordas para libertar a cria.)

Gero e os seus colegas tentaram obter a ajuda de Michael Moore, cientista no Instituto Oceanográfico Woods Hole, em Massachusetts. Ele tinha ajudado a desprender uma baleia-franca-do-atlântico-norte que estava em perigo.

A avaliação feita por Moore era desoladora. As imagens mostravam que o nó preso a Digit estava muito apertado. A linha presa tinha pouco mais de três metros – insuficiente para prender boias que conseguissem manter um cachalote de mergulhos profundos à superfície. Isso era essencial para que as equipas de salvamento conseguissem trabalhar. Com uma linha tão curta, a equipa iria ter muitas dificuldades em se aproximar.

“Havia pouco material nela”, diz Moore. “Não ia ser o mesmo que encestar uma bola de basquete.”

Também existiam outras complicações. Dominica não é Nova Inglaterra. Não existia uma tripulação treinada para este tipo de operações num raio de centenas de quilómetros. Conseguir uma equipa ia exigir tempo e dinheiro. Ninguém sabia quanto tempo restava.

“Fomos confrontados com a morte lenta e crónica de um animal que vemos todos os dias – um animal que sentíamos conhecer desde sempre”, diz Gero.

Era algo pessoal.

CONHECER A FAMÍLIA

Gero estudou sob a supervisão do guru em cachalotes, Hal Whitehead, na Universidade Dalhousie, em Halifax. Whitehead acreditava que estes sofisticados leviatãs mereciam o mesmo respeito que os primatas. Whitehead estudava maioritariamente adultos. Enquanto estudante, Gero queria aprender sobre os mais jovens: quais eram os membros da família que os tinham criado? Quando tinham dado o seu primeiro mergulho profundo? Como aprenderam o seu dialeto – e com quem?

Então, em 2005, o jovem cientista chegou a Dominica a bordo do veleiro de investigação de Whitehead, com mais de 12 metros, o Balaena. Ali encontrou um grupo de baleias reunidas, o qual batizou de Grupo dos Sete, inspirando-se no famoso grupo de pintores canadianos.

O Grupo dos Sete costumava passar semanas perto desta costa. Eles eram avistados mais vezes do que outras baleias. No primeiro ano, a equipa de Gero passou 40 dias sensacionais a catalogar o comportamento desta família.

“Íamos a terra buscar mantimentos e regressávamos, e continuávamos a ver os mesmos animais ali perto da costa”, diz Gero. “É algo inédito.”

É por isso que os seus nomes parecem irreverentes – Gero precisava de os distinguir, mas nunca pensou que os iria ver novamente.

Como aconteceu com os chimpanzés de Jane Goodall e com os gorilas de montanha de Dian Fossey, o acesso mais íntimo revelou hábitos e personalidades distintos de cada animal. Com o tempo, Gero começou a ver estas baleias como indivíduos.

Fingers parecia estar no comando. Emitia geralmente o “coda”, quatro cliques que identificavam a família às outras baleias, como um sobrenome. Quando a sua cria, Thumb, morreu, ajudou a vigiar os mais jovens de outras famílias. Afastava-se das pessoas e era conhecida por dar mergulhos espetaculares, levantando a barbatana caudal de forma musculada antes de mergulhar a pique.

“É difícil descrever a beleza com que ela fazia esse movimento, a alguém que não observou centenas de baleias a fazerem-no”, diz Gero, cuja investigação é feita através do Laboratório de Bioacústica Marinha da Universidade de Aarhus. “É como se ela estivesse a demonstrar aos outros o caminho”.

A mãe de Scar, Pinchy, era sobrinha de Fingers. Scar sentia-se tão à vontade com os humanos que se tornou na estrela da indústria turística, de nadar com as baleias, de Dominica. Havia o fraco Quasimodo e a Mysterio, que tinha este nome porque raramente aparecia.

Gero sentia uma afinidade crescente com os cetáceos. “As baleias estavam a começar a fazer parte da minha vida”, diz ele. “Os meus filhos conheciam estes animais pelo nome, apesar de nunca os terem conhecido ao vivo.”

A baleias obrigaram-no a reconsiderar a sua opinião sobre conservação. Em muitas famílias de cachalotes, as crias obtêm leite das mães de outras crias. No Grupo dos Sete, as crias só obtinham leite das suas próprias mães. Se os comportamentos e a comunicação eram únicos para cada clã ou família, será que isso não significa que a conservação deve incidir sobre algo mais do que os números totais da população? Será que cada clã não era especial por mérito próprio?

Em 2011, chegou uma equipa de documentários, liderada por um realizador que tinha coproduzido o filme biográfico de Fossey, Gorilas na Bruma. Quando Fingers deu à luz uma nova cria nessa semana, Gero sabia o nome que lhe ia dar.

Batizou a nova cria de Digit, como o gorila favorito de Fossey. Só mais tarde é que ele se viria a lembrar do que os humanos tinham feito ao gorila de Fossey.

A DESVANECER

Antes de chegar a Dominica para a época de investigação de 2015, Gero só tinha visto as lesões de Digit nas imagens enviadas por correio eletrónico. Ao vivo, as coisas pareciam bem piores. Antes de ficar presa, a jovem baleia tinha começado a nadar e a mergulhar sozinha. Agora, só aparecia com adultos. Era reservada em vez de curiosa. Mantinha a distância dos barcos e das pessoas.

“Era como se ela estivesse a tentar dizer, 'A culpa é vossa, humanos'”, diz Pernell Francis, que já trabalhou com Gero.

Gero conseguia ver a corda a arrancar-lhe a carne. Mais perturbador ainda: Digit não conseguia levantar a barbatana caudal. A corda estava a criar demasiada resistência. Tal como ele temia, ela não conseguia fazer mergulhos profundos, algo que impedia a sua caça de lulas.

O estado de Digit começou a ser conhecido. Ted Cheeseman, que levava clientes para nadarem com as baleias, angariou dinheiro para contratar uma equipa de desentrelaçamento profissional. Os defensores de baleias sussurravam sobre cortarem eles próprios a corda. Gero sabia que isso era demasiado perigoso.

“Existem vídeos na internet onde pessoas já o fizeram, mas têm muita sorte em não ter morrido”, diz Moore. Em 2017, um membro experiente de uma equipa de salvamento morreu, depois de ter sido atingido por uma baleia que tinha acabado de libertar.

Eventualmente, alguém acabou por mergulhar na mesma. O mergulhador encurtou a corda de Digit, mas não conseguiu cortar o nó. A linha mais curta reduziu a resistência na cauda, mas agora existia ainda menos corda para os profissionais conseguirem trabalhar.

No final de contas, não havia nenhuma equipa de salvamento a caminho. Cheeseman acabou por usar o dinheiro que tinha angariado para comprar e guardar equipamento para futuros salvamentos. Pagou para reunir e treinar uma futura equipa de desentrelaçamentos em Dominica.

Entretanto, Digit começou a emagrecer. Sem capacidade para apanhar a sua própria comida, voltou a ser cuidada por Fingers.

“Foi como ver um filho nosso a voltar a gatinhar”, diz Gero.

AS PESSOAS PREOCUPAM-SE

Uma certa tarde, em Dominica, passou um barco e uma mulher gritou: “Shane, como posso ajudar a Digit?” Gero ficou surpreso. Até os desconhecidos se preocupavam.

Nessa noite, Gero comeu no convés do seu barco de investigação, sob uma luz suspensa. O Grupo dos Sete estava em apuros. Aquela família estava agora no limite, reduzida a três baleias: Fingers, Pinchy e Digit. Mas a pergunta daquela desconhecida era um sinal de que a história de Digit detinha um poder verdadeiro.

Apesar de os humanos sentirem uma ligação aos golfinhos e às orcas, muitos deles nem conseguem identificar um cachalote. Menos ainda são os que compreendem as ameaças que estes nómadas enfrentam: poluição, alterações climáticas, ataques de barcos, material de pesca.

“Mas as pessoas conseguem perceber o que é uma mãe cuidar de uma criança que subitamente tem de lidar com uma lesão crónica”, diz Gero.

Gero fez votos para que algo de útil pudesse surgir das feridas de Digit.

Durante os anos que se seguiram, Gero expandiu o foco da sua investigação na conservação. Escreveu e deu mais palestras. Falou em museus e até mencionou o dilema de Digit numa TEDx Talk. Ele e uma equipa mapearam as movimentações de barcos e baleias e solicitou ao governo que restringisse o tráfego de embarcações a zonas que as baleias evitavam. Gero tinha esperança de que isso pudesse ajudar os operadores de barcos de pesca a encontrar áreas diferentes para colocar as suas redes.

“A Digit mudou toda a perspetiva do nosso projeto”, diz Gero. O comportamento das baleias deixou de ser o seu único interesse. Agora, pergunta ele: “O que podemos fazer para nos assegurarmos que podemos coexistir?”

Mesmo assim, ele não conseguia ajudar Digit. Ela continuava sem mover a cauda para mergulhar. A carne começou a crescer à volta da corda, fechando-se sobre ela. Gero suspeitava que estava a ver Digit morrer.

MILAGRE

Foi então que ele a viu novamente, na primavera passada, a partir da proa do Balaena. Alguns dias após ter começado a época de investigação de 2018, Digit surgiu à superfície. Gero percebeu imediatamente que tudo tinha mudado.

O contorno da coluna de Digit já não estava tão visível. Ela tinha engordado. Ao observar mais de perto, Gero conseguia ver as abrasões e marcas onde a linha tinha roçado. Mas a corda tinha simplesmente desaparecido.

Alguns meses antes, um colega em Dominica tinha enviado uma mensagem por correio eletrónico, informando que tinha ouvido dizer que Digit tinha perdido a corda. Gero estava esperançoso, mas cético. Assim que Digit se moveu para debaixo da superfície, toda a equipa de Gero ficou em silêncio. Digit abanou a barbatana caudal e mergulhou. Festejos irromperam do barco. Após três anos, Digit estava livre.

 

Mais tarde, o cientista e a sua equipa colocaram um aparelho de localização em Digit. Quando foram rever os dados recolhidos, Gero estava impressionado. Digit estava a mergulhar a mais de 900 metros. Estava a devorar lulas. Estava a comportar-se como uma baleia saudável de sete anos de idade.

Ninguém sabe como ela se libertou. Cheeseman suspeita que a luz do sol, o tempo e a pressão tenham enfraquecido a corda, até que finalmente se partiu. Moore diz que se Digit tivesse nadado perto de rochas afiadas, talvez pudesse ter raspado a corda até sair. Outras baleias também podem ter ajudado.

“Se alguém me dissesse que dois cachalotes entraram num ‘jogo da corda’ e que esta se partiu, eu acreditava”, diz Moore.

Gero tem uma ideia diferente. Ele viu cicatrizes frescas na barbatana caudal de Digit e acredita que pode ter sido atacada por predadores que arrancaram a corda involuntariamente.

Mas Gero sabe que nunca terá a certeza. Quase que prefere assim.

“É fácil esquecer que existem milhares de espécies mesmo ao nosso lado, com mundos ricos e complicados, vivendo as suas vidas em paralelo com as nossas”, diz Gero.

Uma nova geração de cachalote das Caraíbas Orientais estava a nadar livremente. Saber isso era suficiente.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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