Meio Ambiente

O Consumo de Carne Tem Consequências ‘Terríveis’ Para o Planeta

Para alimentar uma população global crescente e reduzir as alterações climáticas, os cientistas afirmam que precisamos de mudar radicalmente os nossos sistemas alimentares. Sexta-feira, 1 Fevereiro

Por Sarah Gibbens

Existe toda uma indústria construída em torno das dietas. A maioria dos produtos destina-se a ajudar as pessoas a perder peso, ganhar músculo ou viver mais tempo.

Mas à medida que a população humana vai aumentando consistentemente, os cientistas esforçam-se para elaborar um plano de dieta que consiga alimentar 10 mil milhões de pessoas até 2050.

Um novo relatório, publicado na revista britânica de medicina The Lancet, afirma que faz exatamente isso. Recomenda uma dieta amplamente baseada em vegetais, com pequenas doses ocasionais de carne, laticínios e açúcar. O relatório foi compilado por um grupo de 30 cientistas de todo o mundo que estudam nutrição e políticas alimentares. Durante três anos, deliberaram com a intenção de criar recomendações que pudessem ser adotadas pelos governos para enfrentar o desafio de alimentar uma população mundial crescente.

"Até os pequenos aumentos no consumo de carne vermelha ou de laticínios tornariam este objetivo difícil ou impossível de alcançar", refere um resumo do relatório.

Os autores do relatório chegaram às suas conclusões considerando diferentes efeitos secundários da produção de alimentos. Incluíram gases de efeito estufa, uso de água e plantações, nitrogénio ou fósforo de fertilizantes, e o potencial impacto para a biodiversidade, caso uma região fosse convertida em terreno agrícola. Contemplando todos estes fatores, os autores do relatório afirmam que os gases que provocam alterações climáticas poderiam ser reduzidos e que uma quantidade suficiente de terra poderia ser utilizada para alimentar a crescente população mundial.

Segundo as conclusões do relatório, o consumo de carne e de açúcar em todo o mundo deve cair em 50%. Quem come menos carne, e onde a pode comer, vai variar, diz Jessica Fanzo, autora do relatório e professora de política alimentar e ética na Universidade Johns Hopkins. O consumo de carne nos EUA, por exemplo, teria de diminuir e ser substituído por frutas e legumes. Mas outros países que já lidam com uma nutrição deficiente poderiam integrar carne na sua dieta em cerca de 3%.

Se não fizermos nada “estaremos em apuros”, diz Fanzo.

SEGUINDO UMA TENDÊNCIA VEGAN

As recomendações para reduzir o consumo de carne não são novas. Em outubro passado, um estudo publicado na revista Nature estabeleceu diretrizes semelhantes para a redução do consumo de carne e de açúcar.

O que há de diferente neste novo relatório, diz Fanzo, são os passos delineados para colocar essa mudança em prática.

Catalogado pelos autores como a "Grande Transformação Alimentar", o estudo define estratégias que variam da menos ativa, partilhando simplesmente informações, até à mais agressiva, eliminando a escolha do consumidor.

"Penso que é difícil para as pessoas fazerem-no diariamente, porque os incentivos e as estruturas políticas que estão em vigor não o facilitam", diz Fanzo. Alterar o tipo de práticas agrícolas que recebem subsídios é uma das estratégias para reformular o sistema alimentar, sublinha o relatório. Isso mudaria os preços relativos dos alimentos, aumentando dessa forma os incentivos para os consumidores.

Se um plano destes consegue vingar a nível mundial já é outra história, diz Fanzo.

“Com a atual administração [presidencial], não creio que vá muito longe”, diz.

Greg Miller é o diretor científico do Conselho Nacional de Laticínios dos EUA. Além de citar os benefícios do leite para a saúde, como o cálcio e a vitamina D, adverte contra a transformação da paisagem alimentar dos EUA.

“Temos um milhão de pessoas cujas vidas dependem dos laticínios”, diz Miller sobre quem trabalha em quintas ou na indústria dos laticínios.

Miller diz que uma indústria leiteira mais sustentável "seria possível com os incentivos certos e as políticas certas". “Neste momento, são necessários subsídios para melhorar a tecnologia. [Os pequenos agricultores] não têm ganhos adicionais para fazer algumas das coisas que poderiam ser feitas. ”

Por exemplo, uma criação melhorada gerou vacas capazes de produzir mais leite, da mesma forma que sistemas de rastreamento melhorados conseguem monitorizar a ingestão de alimentos e atividades de um animal.

LONGOS DEBATES SOBRE EMISSÕES

Nem todos os especialistas estão convencidos de que as dietas à base de vegetais são remédio para todos os males da segurança alimentar. Frank Mitloehner, cientista de animais da Universidade da Califórnia, em Davis, tem expressado várias vezes a sua opinião sobre a ligação desproporcional entre a carne e as emissões que provocam alterações climáticas.

 

“O que mais me preocupa é que, enquanto a pecuária tem um impacto, o relatório faz parecer que esta é a principal fonte dos impactos. O uso de combustíveis fósseis é, de longe, a principal fonte de emissões de carbono”, diz Mitloehner.

De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a queima de combustíveis fósseis para a indústria, para a eletricidade e para os transportes é responsável pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa. A agricultura representa 9% dessas emissões e a pecuária cerca de 4%.

Mitloehner também discorda do método utilizado pelo conselho para determinar a quantidade de gases de efeito estufa produzidos pelo gado, dizendo que foi atribuído demasiado peso ao metano, durante os cálculos. Comparado ao carbono, o metano permanece na atmosfera por um período de tempo relativamente curto. Os cientistas ainda debatem sobre exatamente quanto tempo, mas os estudos já demonstraram que o metano desempenha um papel significativo no aquecimento dos oceanos.

REDUZIR O DESPERDÍCIO ALIMENTAR

Apesar das orientações dietéticas do relatório estarem a ser alvo de críticas, o seu foco na redução do desperdício alimentar foi amplamente bem recebido. Só nos EUA, quase 30% de todos os alimentos são desperdiçados.

No relatório estão definidas estratégias para a redução dos desperdícios, tanto para consumidores como para produtores. Melhores tecnologias de armazenamento e deteção de contaminações poderiam ajudar as empresas a reduzir a quantidade de comida que é descartada, mas a educação dos consumidores também é considerada uma estratégia eficaz.

Para muitos é uma perspetiva assustadora – mudar hábitos alimentares e reduzir o desperdício. Mas Kathryn Kellogg, autora do livro “101 Ways to Go Zero Waste”, diz que vive bem com apenas 250 dólares por mês.

"Existem tantas formas criativas de usarmos a nossa comida evitando desperdícios, e  sinto que a maioria das pessoas não tem noção disso", diz. Ela diz que saber cozinhar cada parte de um vegetal e estar sempre ciente da comida que tem no frigorífico são alguns dos seus hábitos mais eficazes.

Contudo, Kellogg vive na Califórnia, perto de bairros com acesso a mercados agrícolas. Para outras comunidades que vivem nos chamados desertos alimentares – regiões onde os supermercados ou os mercados não estão prontamente disponíveis – o acesso a frutas e vegetais frescos pode ser mais difícil.

“Todas as ações que recomendamos estão disponíveis agora”, diz Fanzo. “Não são tecnologias do futuro. Apenas não são feitas em larga escala.”

Desde o dia 24 de janeiro os comissários do relatório começaram a realizar eventos de lançamento em mais de 30 países de todo o mundo. Esperam apelar a organizações internacionais como a ONU como potenciais parceiros na aplicação das suas novas diretrizes.  

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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