Meio Ambiente

O Gelo da Gronelândia Está a Derreter Quatro Vezes Mais Depressa do que se Pensava

A nova ciência sugere que a Gronelândia pode estar a aproximar-se de um ponto de inflexão perigoso, com implicações globais na subida dos níveis da água do mar. Terça-feira, 29 Janeiro

Por Stephen Leahy

Um novo estudo alerta que o gelo da Gronelândia está a derreter mais depressa do que os cientistas pensavam anteriormente. Mas a maior surpresa talvez resida no facto de grande parte da perda de gelo pertencer à camada terrestre, e não aos glaciares da Gronelândia.

O novo estudo, publicado a 21 de janeiro na Proceedings of the National Academy of Sciences, descobriu que a maior perda de gelo sustentada, desde inícios de 2003 até meados de 2013, veio da região sudoeste da Gronelândia, onde quase não existem glaciares de grande dimensão.

A Gronelândia, a maior ilha do mundo, parece ter atingido um ponto de inflexão por volta de 2002-2003, quando a perda de gelo acelerou rapidamente, disse o principal autor do estudo, Michael Bevis, geocientista na Universidade Estatal de Ohio. Por volta de 2012, a perda de gelo anual atingiu níveis “sem precedentes”, com um ritmo quatro vezes mais acelerado do que em 2003, disse Bevis numa entrevista.

Grande parte deste degelo acelerado vem do sudoeste da Gronelândia, zona da ilha que não é conhecida por estar a perder gelo rapidamente. Anteriormente, o foco dos cientistas estava nas regiões sudeste e noroeste, onde os grandes glaciares largam pedaços de gelo do tamanho de icebergues no Oceano Atlântico.

“Nós sabíamos que tínhamos um problema sério com o aumento do ritmo das descargas de alguns dos grandes glaciares”, disse Bevis. “Mas agora reconhecemos um segundo problema grave: cada vez mais, grandes quantidades de massa gelada estão a desaparecer sob a forma de rios que fluem para o mar devido ao degelo.”

Dados dos satélites GRACE da NASA e de estações GPS espalhadas pela costa da Gronelândia mostram que, entre 2002 e 2016, esta perdeu aproximadamente 280 mil milhões de toneladas de gelo por ano. Esta média de degelo anual é suficiente para cobrir inteiramente os estados da Flórida e de Nova Iorque com água até à cintura, afundando também Washington e mais um ou dois estados pequenos.

“Isto vai causar a subida adicional dos níveis da água do mar. Estamos a ver a camada de gelo a atingir o ponto de inflexão”, disse Bevis.

FOTOGRAFIAS MAGNÍFICAS DE URSOS POLARES

Em algumas zonas, a camada de gelo da Gronelândia tem 3 quilómetros de espessura e contem gelo suficiente para fazer subir os níveis da água do mar em 7 metros. No séc. XX, a Gronelândia perdeu cerca de 9 mil milhões de toneladas de gelo no total, subindo os níveis da água em 23 milímetros. (São necessários cerca de 360 mil milhões de toneladas de gelo para subir um milímetro nas águas do mar.)

Contudo, a Gronelândia é uma coisa minúscula, quando comparada com a camada de gelo da Antártica, que poderia subir os níveis da água do mar em 57 metros, se derretesse por completo. A antártica também está a sofrer um degelo acelerado de forma alarmante, perdendo seis vezes mais gelo do que há quatro décadas atrás, segundo um estudo apresentado a 14 de janeiro. O seu degelo atingiu em média os 252 mil milhões de toneladas por ano na última década.

A história dos glaciares da América do Norte ocidental é a mesma – a perda de gelo quadruplicou desde o início dos anos 2000, para 12.3 mil milhões de toneladas anuais, segundo revelações de um estudo recente.

O QUE ESTÁ A CAUSAR O DEGELO?

O aquecimento global de apenas 1 grau centígrado é o grande catalisador do degelo maciço em todo o mundo. Na Gronelândia, os investigadores descobriram que o aquecimento global, associado à fase de oscilação negativa do Atlântico Norte, conduziu ao rápido degelo da superfície da camada, durante os verões. A Oscilação do Atlântico Norte (OAN) é uma alteração natural irregular na pressão atmosférica que, quando está na sua fase negativa, leva a que temperaturas mais elevadas, de verão, e sol atinjam o lado ocidental da Gronelândia. Antes de 2000, este factor não afetava significativamente o degelo, diz Bevis, mas desde então, a fase negativa da OAN tem resultado num aumento considerável do mesmo.

Esta é uma situação análoga à do ciclo de oscilação meridional do El Niño e a descoloração de corais, disse. Em 1997-98, um evento forte de El Niño resultou numa descoloração maciça de muitos dos recifes tropicais de todo o mundo. Anteriormente, tais eventos tinham pouco impacto nos recifes, mas por volta de 1997 a alteração climática tinha aquecido as águas tropicais dos oceanos até um ponto em que qualquer aquecimento adicional por parte do El Niño, se tornava insuportável para os corais. Agora, sempre que há um El Niño, os corais sofrem.

O estudo de Bevis demonstra que o sudoeste da Gronelândia é a zona onde a camada de gelo está mais suscetível a ciclos atmosféricos como os do El Niño, que são sobrepostos a uma vaga de aquecimento, disse Jason Box, glaciologista no Estudo Geológico da Dinamarca e da Gronelândia. Está claro que grande parte da perda de gelo está a vir da superfície e não dos glaciares marinhos, disse Box.

Tudo o que é necessário para derreter a camada de gelo da Gronelândia é uma temperatura à superfície de 1 grau centígrado e luz do sol. “Costumava ser raro obtermos temperaturas acima dos zero graus na camada de gelo, mas agora não”, disse Bevis. E cada grau acima de um duplica a quantidade de gelo derretido.

O QUE ACONTECE A SEGUIR?

Se não agirmos rapidamente na redução da queima de combustíveis fósseis que estão a aumentar as temperaturas globais, grande parte, senão toda, da camada de gelo da Gronelândia pode derreter, subindo os níveis da água do mar em 7 metros, avisa Richard Alley, glaciologista na Penn State. Este evento iria ocorrer numa escala temporal de séculos. No entanto, existe uma fronteira no aquecimento da temperatura que pode ser ultrapassada nas próximas décadas, ou até antes, e se for excedida durante o tempo suficiente, o degelo da Gronelândia será irreversível, disse Alley.

Outra grande preocupação prende-se com o facto de todo este degelo estar a abrandar a Corrente do Golfo, que traz águas mais quentes do equador para o Atlântico Norte, e leva as águas mais frias para as profundezas do oceano. A corrente do Golfo, também conhecida por circulação termoalina  meridional do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês), é a razão pela qual a Europa Ocidental tem um clima temperado. No ano passado, os investigadores reportaram na revista Nature que a AMOC enfraqueceu em cerca de 15% desde meados do séc. XX.

Os meteorologistas acreditam agora que este abrandamento está ligado às recentes vagas de calor de verão na Europa. Um dos coautores do estudo, Stefan Rahmstorf, do Instituto de Investigação do Impacto do Clima de Potsdam, na Alemanha, atribuiu o abrandamento aos enormes volumes de degelo da Gronelândia. “Eu penso que isto está a acontecer... e penso que são más notícias”, disse ao The Washington Post.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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