Meio Ambiente

Os “Thank You Bags” Têm Uma História Especial em Chinatown

À medida que mais cidades restringem a utilização de sacos de plástico de uso único, por razões ambientais, designers oferecem alternativas duráveis para um ícone familiar. Segunda-feira, 28 Janeiro

Por Bonnie Tsui
Fotografias de Andria Lo

Em todas as casas dos meus familiares chineses, quando estava em Nova Iorque, havia uma gaveta especial, um armário ou um roupeiro dedicados à arrumação de uma comodidade preciosa: o saco de plástico. Como os sacos eram geralmente obtidos nas compras de comida e de outras necessidades na Chinatown de Manhattan, no bairro Flushing, ou em Queens, muitos deles eram em tons de vermelho, cor que significa sorte na nossa cultura. Estes “thank you bags” demonstravam apreço pela compra, mas também serviam como uma espécie de amuleto portátil de boa sorte. A coleção destas ofertas de uso único tem um significado prático e particular para mim: a filosofia da minha família sino-americana de “reutilizar tudo”, numa ética emigrante de “não-desperdício”.

Agora vivo na Califórnia, o primeiro Estado a banir os sacos de plástico de uso único. Nos poucos anos desde que essa interdição foi promulgada, ainda vejo “thank you bags” por aqui, mas agora aparentam ser de um material mais pesado e multiusos.

Os “thank you bags” são utlizados por inúmeros negócios em todo o mundo, mas têm uma nostalgia especial para algumas comunidades. Ao longo das décadas, muitos dos desenhos usados nos sacos ficaram associados a estas comunidades, particularmente às “Chinatowns”, e foram adaptados para outros contextos. Os “thank you bags” também são encarados como símbolos da frugalidade de reutilização. Agora que os sacos de plástico estão a ser descontinuados por questões ambientais, designers estão a reinventá-los de novas formas que continuam a ter um significado cultural – poupanças dos imigrantes, imagens amigáveis e desejo de adaptação. Estes novos sacos fazem referência à mesma iconografia – vermelhos e rosas, sorrisos, caracteres chineses – dos sacos de compras originais.

UMA ABORDAGEM (MAIS ECOLÓGICA) A UM ÍCONE FAMILIAR

Para o designer Brandon Ly, o desejo de reutilização ajudou-o a criar uma nova geração de sacos. “O nosso saco é muito grande e por isso tenho-o utilizado para tudo, desde as compras, ao transporte de roupa para a lavandaria, ou em viagens de um dia. Parece-me adequado já que os lares asiáticos como o meu raramente desperdiçam um saco de compras”, explicou.

A sua marca de produtos baseada no estilo de vida californiano, a Black Bean Grocery, oferece uma sacola reutilizável cor-de-rosa com a mascote “happy bean” e com as frases tradicionais de boa sorte, incorporando caracteres chineses para “dupla felicidade” e “fortuna” – “basicamente andamos por aí com um amuleto gigante de boa sorte”, diz Ly. É a sua abordagem de nova geração à longa associação feita pela comunidade sino-americana aos “thank you bags” e à boa sorte.

A família de Ly trabalha em negócios de importação e supermercados, pelo que cresceu apreciando o imaginário dos produtos asiáticos e o design das suas embalagens, que também inspiraram outros designers de sacos.

Kathleen Tso e Vicki Ho fundaram a revista Banana Magazine, na Chinatown de Nova Iorque, há cinco anos, enquanto trabalhavam juntas na indústria da moda. “Estamos a tentar contar uma história sobre navegar uma identidade partilhada, sobre a tentativa de solucionar a fricção entre o nosso eu oriental e o nosso eu ocidental”, disse Tso. A dupla criou recentemente um saco BAESIAN amarelo (“bae” usado como gíria para querida, mais “Asian”) dando aos seus leitores uma forma divertida de mostrarem o seu orgulho asiático.

“Parecia extremamente típico do bairro, mas também foi contemporizado para encaixar no leitor millennial que estava a comprar a revista”, disse Tso. “A referência repetitiva do texto fazia-me lembrar quando era criança e ia buscar comida chinesa, na nossa pequena Chinatown em Plano, no Texas, e gosto da mensagem que representa e que nos dá algo de que nos orgulhamos, demonstrando orgulho e tradição, à nossa maneira.”

SACOS COMO MEMÓRIA CULTURAL

Eu própria não tenho nostalgia por estes sacos. Eles eram um componente básico da minha infância, e acima de tudo um item funcional. Mas isso não significa que algo inspirado neles não possa ser bonito e uma fonte de inspiração também.

Em “Chinatown Pretty”, da fotógrafa Andria Lo, uma longa série de fotografias exibe idosos residentes em Chinatown com todo o esplendor da sua indumentária, e as variações destes sacos aparecem de forma proeminente em autorrepresentação. Em Nova Iorque, um habitante transporta uma sacola reutilizável, acompanhada por uma mala a tiracolo de xadrez cor-de-rosa; em São Francisco, um homem com um fato cinzento tem uma gravata vermelha e um saco reutilizável vermelho, enquanto uma mulher com uma camisola de bombazine rosa e sandálias rosa transporta várias mercearias num familiar “thank you bag” cor-de-rosa – este tem mesmo impresso as palavras “Thank You”.

Recentemente, as marcas de moda e de streetwear também fizeram referência aos “thank you bags”, de diversas formas. Embora Tso diga que sempre se sentiu atraída pelos desenhos simples e ousados que apareciam nos sacos, diz também que tem sentimentos contraditórios relativamente ao seu uso por parte de empresas não asiáticas. A resposta de Ly às imagens que sente como apropriação cultural? “Inundar o mercado com coisas nossas.”

 

"ATUALMENTE OS SACOS DE PLÁSTICO SÃO PRODUZIDOS A UM RITMO DE UM MILHÃO DE BILIÕES POR ANO."

 

Inicialmente, dava por mim a resistir à ideia de que os “thank you bags” baratos eram um acessório asiático, ou que estavam de certa forma na moda. Os sacos de plástico de compras eram uma raridade nos anos de 1970, mas foram rapidamente adotados pelos supermercados e restaurantes. Em Chinatown, a escolha dos sacos de “take away” começou de uma forma consciente: usando tanto os símbolos tradicionais com mensagens amigáveis, como o imaginário emprestado de outras partes da cultura americana – como a cara sorridente – num esforço de apelar a audiências caucasianas e como resposta ao racismo de um mundo mais abrangente. Desde então, estes sacos atingiram um estatuto kitsch icónico; os desenhos foram incorporados em todo o tipo de produtos, desde t-shirts a bolas de basquete.

A escolha da cor apela à comunidade. Numa reportagem fotográfica recente do New York Times, “Os Sacos Vermelhos de Chinatown”, o fotógrafo James Prochnik descreve os sacos como “lanternas chinesas, cheias de luz do sol, peixe e esperança”.

Por um lado, isto parece extremamente romântico. Mas a intenção de Prochnik é esta: noutros bairros, os sacos são de tantas cores que não simbolizam nada. As coisas são diferentes em Chinatown; os sacos vermelhos são um símbolo de continuidade e de identidade, num local onde essas coisas estão constantemente sob ameaça. Para ele, existe beleza no facto deste item comum ter um significado cultural – mesmo que ele suporte as razões ambientais para banir os plásticos de uso único. Apesar de justificado, “vai ser uma perda” quando desaparecerem, diz Prochnik.

Em 2015, Margaret Chin, membro do concelho da Cidade de Nova Iorque, no Distrito 1, em Lower Manhattan, que inclui Chinatown, foi corresponsável por uma proposta de lei que iria instituir uma taxa para os sacos de plástico de uso único. “Em comunidades diversas espalhadas por toda a cidade, os habitantes de todos os quadrantes dizem que estão preparados para fazer a mudança para os sacos reutilizáveis”, disse Chin. A medida não passou, mas o estado de Nova Iorque tem uma lei que obriga os grandes retalhistas a levarem os sacos para a reciclagem. Os habitantes da cidade ainda usam mais de 10 mil milhões de sacos de plástico de uso único por ano, custando à cidade 12 milhões de dólares em eliminação de resíduos, dado que não existem contentores nos passeios para a reciclagem.

De maneira a reduzir o impacto ambiental e, ao mesmo tempo, prestar homenagem ao significado cultural dos “thank you bags”, outros designers estão a fazer opções reutilizáveis numa escala maior.

Há uma década, depois de São Francisco se ter tornado na primeira cidade a banir os sacos de plástico de uso único, a artista Lauren DiCioccio começou a recolher sacos que encontrava pela cidade e a fazer versões bordadas dos desenhos, incluindo uma versão do “thank you bag” da rosa, com o desenho vermelho bordado em organza cor-de-rosa. Queria destacar a sua omnipresença e beleza sublinhando o absurdo da sua natureza descartável. Eventualmente, DiCioccio começou a fabricar versões resistentes e mais baratas dos sacos em São Francisco; vendem-se online e em lojas por todo o país.

Apesar de funcionais, DiCioccio tem esperança que os seus sacos passem uma mensagem leve sobre a ética da reutilização e da poupança. Quando ela apresenta os sacos bordados nas caixas das lojas, é geralmente cumprimentada com um “momento maravilhoso de confusão que termina sempre com uma gargalhada e um aceno”.

Em 2007, Emily Sugihara, fundadora da Baggu, baseou o design do seu saco reutilizável nos sacos de plástico de compras tradicionais. Como teve problemas em encontrar um saco que fosse resistente e barato, ela e a mãe decidiram fazer um. “A minha mãe foi sempre uma amiga do ambiente”, disse-me. “Ela tinha uma pilha de sacos enorme debaixo do lava-loiças, e um armário que ninguém queria abrir. Isso pesava-lhe na consciência.”

Desde então, a companhia vendeu milhões de sacos reutilizáveis – Sugihara diz que um típico saco Baggu, se for utilizado durante um ano, substitui entre 300 a 700 sacos de plástico. As versões “thank you” desse design, personalizadas consoante a localização das lojas, estão constantemente entre os itens mais populares da empresa.

Atualmente, os sacos de plástico são produzidos globalmente a um ritmo de um milhão de biliões por ano. Nós sabemos que o plástico está a sufocar o nosso planeta. As taxas e as interdições nos sacos de uso único estão a entrar em vigor e a ser debatidas em muitos locais. Ao mesmo tempo, o saco de compras consegue levar mais do que o seu conteúdo; consegue transportar vestígios culturais e históricos de uma comunidade. Talvez o saco reutilizável seja uma forma de nos livrarmos do excesso, ao mesmo tempo que preservamos a memória cultural.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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