O Que Pode um ‘Novo Acordo Verde’ Aprender Com os Outros Países?

Desde emissões zero a correções nos transportes, algumas das ideias do ‘Novo Acordo Verde’ dos EUA têm sido testadas noutros países.Friday, February 22

Por Alejandra Borunda
Shenzhen, na China, converteu toda a sua frota de autocarros em veículos elétricos, em pouco mais de cinco anos, tendo resultado numa melhoria significativa da qualidade do ar.

Recentemente, dois membros democratas do Congresso apresentaram uma resolução, delineando os traços gerais para um ‘Novo Acordo Verde’, uma proposta ambiciosa para a transição dos EUA para um futuro mais sustentável, reduzindo as emissões de carbono a zero – a ser colocada em prática em apenas dez anos.

A necessidade de mudança, dizem os autores, é premente. As alterações climáticas já estão a aumentar as inundações que percorrem as cidades dos EUA, a piorar as vagas de calor e a extrair o frio do inverno. E estas alterações estão a atingir de forma mais grave os mais vulneráveis.

De maneira a colocar o país no rumo certo, em direção a um futuro mais sustentável e equitativo, a resolução propõe várias medidas para reduzir as emissões de carbono e estimular a economia – transitar para 100% de emissões energéticas a nível zero, modernizar infraestruturas-chave levando em consideração um futuro cada vez mais quente e "reformar" a rede de transportes de costa a costa.

Atualmente, a resolução do ‘Novo Acordo Verde’, apresentada por Alexandria Ocasio-Cortez e Edward Markey, contém o esboço de um plano abrangente, em vez de propostas políticas detalhadas. E como as coisas estão, não é muito provável que o Congresso dividido aprove qualquer versão do plano, ou receba uma assinatura do presidente Donald Trump. Mas a proposta trouxe para a ribalta a procura de soluções para as alterações climáticas.

Crucialmente, diz Leah Stokes, cientista política da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, nada do que está presente nas 13 propostas da resolução é completamente novo: contém todos os conceitos que foram testados e implementados em comunidades, cidades e estados de outros países em diferentes partes do mundo (e, em alguns casos, nos EUA). Em algumas situações, as propostas foram introduzidas explicitamente como medidas de adaptação climática. Mas, em muitos casos, foram colocadas em prática simplesmente porque faziam sentido política, económica ou socialmente.

No entanto, nenhum país reuniu tantas ideias num plano coeso como este.

"Há carbono por todo o lado e temos de nos livrar disso", diz Stokes. “Mas nós temos toda a tecnologia de que precisamos. Isto não é impossível.”

Aqui, a National Geographic analisa a forma como países, cidades ou regiões de outras partes do mundo abordaram algumas das secções importantes desta proposta.

A CORRIDA ÀS EMISSÕES ZERO

Com o intuito de reduzir as emissões de carbono dos EUA no futuro – e, eventualmente, para alcançar a meta de atingir as emissões zero – o país terá de mudar drasticamente a forma como obtém e usa energia, afirma a proposta. Três estados – Califórnia, Havai e Nova Jersey – e dezenas de cidades já se comprometeram a fazer a transição, entre 2045 e 2050, para fontes de energia renováveis a 100%, mas o resto do país terá de fazer o mesmo para atingir a meta zero nas emissões de gases de efeito estufa em todo o país.

Cerca de 54 países em todo o mundo, do Afeganistão a Madagáscar, comprometeram-se com objetivos semelhantes. Seis desses países conseguiram atingir, quase na sua totalidade, os 100% de eletricidade renovável: Albânia, Costa Rica, Islândia, Noruega, Paraguai e Tadjiquistão.

Algumas destas histórias de sucesso emergiram da utilização de recursos naturais, que são mais escassos nos EUA. A Islândia, por exemplo, está assente num complexo vulcânico ativo: o país explora mais de 60% da sua energia através de fontes geotérmicas. E a Noruega e a Costa Rica dependem fortemente da energia hidroelétrica, que num sistema totalmente renovável poderia fornecer apenas cerca de 4% das necessidades elétricas totais dos EUA, diz Mark Jacobson, especialista em energia da Universidade de Stanford.

A Alemanha também está a meio do caminho na redução da sua dependência da energia a carvão, tendo declarado recentemente que abandonaria o carvão até 2038. O plano foi concebido de uma forma crucial que reuniu o apoio de um sindicato de mineração de carvão, bem como de grupos ambientalistas.

Uma das preocupações mais comuns reside no facto de esta importante transição, estabelecida pela resolução, nunca poder vir a acontecer tão rápido quanto se propõe – em dez anos ou menos. Mas outros países fizeram mudanças rápidas e drásticas nas suas misturas de energia, diz Kathleen Araújo, especialista em política energética da Universidade Estadual Boise, em Idaho. A França, por exemplo, passou de 10% de baixo carbono para 65% em apenas uma década, entre 1975 e 1985, ao ativar muitas centrais nucleares, que muitos especialistas dizem ser uma parte crítica na transição para a energia limpa. E a Dinamarca fez uma reviravolta dramática semelhante, em relação à energia eólica desde os anos 1980, que fornece agora mais de 40% da sua energia – movimento estimulado em parte por cientistas, associações industriais e comunidades locais, em vez do governo.

“Não existe nenhuma razão real para que não possamos atingir os 100% de energia renovável, de forma barata”, diz Jacobsen. "Lá por não ter sido feito, não quer dizer que não possa ser feito." A vontade política, diz, é que conduz as transições – muitas vezes além do que era considerado anteriormente o limite máximo de viabilidade.

FORTALECER A GRELHA

A resolução propõe também que os sistemas de redes elétricas dos Estados Unidos sejam atualizados e melhorados, tornando-se mais fluidos, flexíveis e responsivos a um conjunto de fontes em mudança.

Para um exemplo de uma transição bem sucedida, os projetistas podem olhar para a Alemanha. Lá, uma carga crescente de energias renováveis entrou lentamente em cena, com uma pequena percentagem de cada vez, fazendo com que o sistema não tivesse sentido interrupções sérias. Mas a transição foi bem-sucedida, em parte, porque a rede era grande o suficiente para absorver energia produzida numa determinada zona do país, redirecionando-a – às vezes para fora dos limites do país – quando necessário para outro lugar. Um sistema maior e mais interligado pode capitalizar em fatores como o vento a soprar num vale e o sol a brilhar noutro.

RESILIÊNCIA - NAS COMUNIDADES E NO MUNDO JÁ CONSTRUIDO

Responder às alterações climáticas é um problema técnico, mas também social. Outro objetivo importante da resolução prende-se com o aumento da resiliência das comunidades e das infraestruturas subjacentes às tensões de um planeta em aquecimento. As comunidades, diz a resolução, devem ser capazes de mudar de acordo com o clima – desta forma, as soluções devem ser flexíveis, justas e completamente sintonizadas com o que as pessoas querem e precisam.

A Holanda agrupou estes conceitos no seu Programa Delta, focado na adaptação. Depois de uma inundação em 1953 ter morto mais de 1800 pessoas, este país de baixa altitude percebeu que precisava de repensar a forma como interagia com a água, que estava sempre à sua porta. E quando as realidades das alterações climáticas se consolidaram, o potencial de inundação aumentou. Como tal, desenvolveram um plano que mobilizou as comunidades para zonas fora de perigo, deixando as terras baixas vulneráveis e facilmente inundáveis, abertas à agricultura, mas não à habitação humana. E quando as inundações destroem as colheitas dos agricultores, estes têm o apoio do Estado.

Ao mesmo tempo, as autoridades holandesas construíram infraestruturas para proteger cidades e portos valiosos, como Roterdão – certificando-se de que as alterações eram feitas de maneira a poderem adaptar-se a um clima em constante mudança. A cada cinco anos, uma comissão reavalia o estado das previsões do aumento do nível da água do mar e a forma como outros fatores relacionados com o clima podem mudar, ajustando a sua avaliação de acordo com os resultados.

“Muitas vezes, entramos neste ciclo muito negro, onde só atualizamos os sistemas  depois de um desastre acontecer”, diz Stèphane Hallegatte, economista e especialista em clima do Banco Mundial. “Ou então podemos tomar ações preventivas como a Holanda. O primeiro caso pode ser infinitamente caro, ou podemos seguir o exemplo do segundo, que é caro, mas exequível – partindo do princípio que foram tomadas medidas preventivas.”

Outros países, como Fiji, foram atingidos por tempestades intensificadas pelo clima – e reconstruíram, de uma forma mais ponderada e segura, implementando programas de educação, divulgação e apoio a comunidades que estão a cooperar na reconstrução da infraestrutura física perdida.

CONSTRUIR MELHOR

Uma das melhores formas de reduzir a utilização de energia, é tornar os edifícios onde vivemos mais eficientes. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas, o aquecimento e a refrigeração de edifícios ocupam cerca de um terço de toda a utilização energética de todo o mundo, representando quase 20% de todas as emissões de gases de efeito estufa relacionadas com energia.

Muitos países reforçaram os seus códigos de eficiência na construção, para tentar reduzir estes custos de energia, mas os números a nível mundial permanecem teimosamente estáveis.

A França estabeleceu alguns dos requisitos mais rigorosos para a eficiência energética em novos edifícios. E o Japão tem algumas das regras de eficiência mais robustas sobre os itens que “habitam” dentro dos edifícios, como eletrodomésticos, diz Noah Kaufman, especialista em política energética de Columbia. Mas sem uma remodelação gigante dos edifícios existentes em todo o mundo, as metas de redução de energia para os imóveis serão difíceis de alcançar.

RETIRAR OS "POLUENTES" DA ESTRADA

Essencialmente, é impossível atingir as emissões zero sem alterar as formas como as pessoas se movimentam de um lugar para o outro. Assim, propõe o plano, o setor dos transportes deveria ser atualizado – através de uma mudança rápida para mais veículos elétricos, em conjunto com uma fixação de transportes públicos de escala local, bem como com a construção dos tipos de redes ferroviárias supereficientes que proliferam noutras partes do mundo.

Atualmente, mais de 50% dos carros vendidos na Noruega são híbridos ou 100% elétricos, e esse número disparou num espaço de tempo significativamente curto, diz Costa Samaras, engenheiro civil da Carnegie Mellon, em Pittsburgh. Isto deve-se, em parte, a “cenouras”, como os enormes incentivos fiscais e o estacionamento gratuito para veículos elétricos e, em parte, devido a “paus”, como os elevados impostos sobre os carros a gasolina e a gasóleo.

E em Shenzhen, na China, a pressão para expandir o sistema de transportes públicos e limpar o ar poluído colocou mais de 16.000 autocarros elétricos na estrada em apenas cinco anos. Agora que a frota de energia totalmente renovável desliza pela cidade, a qualidade do ar melhorou para os seus habitantes, aliando vantagens sociais e ambientais.

Este tipo de expansão seria difícil, mas não impossível, de alcançar nos EUA, diz Samaras.

“Nos EUA, seguindo a linha de tempo delineada pela resolução, teremos de ser sustentáveis – grande não é a palavra certa, é mais do que grande, estamos a falar de uma mobilização ao nível da Segunda Guerra Mundial – para chegar ao tipo de transição energética de que precisamos.” Neste processo, é importante garantir que as pessoas mais fortemente afetadas por essa transição – as pessoas que precisam de carros para chegar aos empregos, que vivem fora das áreas urbanas e que não podem dar-se ao luxo de substituir um carro velho por um elétrico – são incluídas e consideradas prioritárias em quaisquer alterações.

"Mesmo sendo muito difícil e ambicioso, isso não significa que não devamos estabelecer metas e tentar", diz Samaras. "Mas as prioridades competitivas na economia, na equidade, na política e na rápida “descarbonização”, devem ser ponderadas com cuidado."

Um ‘Novo Acordo Verde’ está longe de ser uma certeza. Os desafios políticos já estão a crescer em torno da proposta, e não é fácil perceber como os seus planos, delineados de forma grosseira, irão resultar em políticas específicas. Mas as sondagens mostram que os eleitores americanos estão agora mais preocupados com as alterações climáticas do que nunca – e que a maioria dos eleitores, de ambos os lados, apoia a ideia de um plano abrangente para as enfrentar.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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