Alterações Climáticas Esgotam Pescarias Fundamentais

Durante os últimos 80 anos, um planeta em aquecimento perturbou pescarias essenciais – e muitas delas entraram em declínio acentuado.Wednesday, March 13

Por Sarah Gibbens
Um cardume de peixes-patela a nadar no Parque Natural do Recife de Tubbataha.

Um novo estudo, publicado recentemente na revista Science, delineia os impactos do aquecimento das águas, em espécies de peixes comercialmente importantes.

A indústria pesqueira mundial depende daquilo a que se chama pescarias, os aglomerados de populações regionais de peixes que as pessoas podem apanhar para fins comerciais. E os investigadores descobriram que, em média, o número de peixes em pescarias fundamentais em todo o mundo diminuiu 4% desde 1930.

As pescarias localizadas no Mar do Japão e no Mar do Norte foram as mais atingidas, sofrendo uma queda de 35% nos seus números. Outras pescarias, no entanto, beneficiaram das águas mais quentes, e as suas populações aumentaram, uma expansão que os cientistas alertam poder vir a criar uma competição insustentável por recursos.

"Ficámos surpreendidos com a força de impacto do aquecimento sobre as populações de peixes", diz o principal autor do estudo, o ecologista Chris Free, da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.

 

SENTIR A TEMPERATURA DO OCEANO

Para medir o efeito do aquecimento e da pesca em excesso, Free começou por examinar os dados das temperaturas dos últimos 80 anos, comparando-os com a produtividade de uma determinada pescaria, durante períodos com temperaturas acima da média. A equipa analisou 235 populações de 124 espécies de peixes, espalhadas por 38 regiões diferentes.

Águas mais quentes podem reduzir algumas pescarias, colocando tensão metabólica sobre os peixes, dificultando a sua alimentação e reprodução. As águas mornas também podem fazer com que o zooplâncton, alimento essencial para os peixes, diminua. Os impactos nos organismos menores repercutem-se depois no resto da cadeia alimentar.

No Mar do Norte e no Mar do Japão, onde mediram o aumento da temperatura da água, os cientistas descobriram que a pesca excessiva tornava as pescarias ainda mais vulneráveis.

"É como um soco duplo", diz o coautor do estudo, Malin Pinsky, ecologista da Rutgers. "Se a pesca em si já é prejudicial, é normal que as espécies respondam mal quando está mais quente."

"Quando o Chris me mostrou estes números, fiquei realmente atordoado", acrescenta Pinsky. "Sabíamos que os animais estavam a mudar-se para novos locais, mas não percebi que isso já tinha afetado a capacidade de reprodução dessas populações".

 

MITIGAR O IMPACTO DO AQUECIMENTO

Will White, ecologista de pescarias da Universidade Estadual do Oregon, não participou no estudo de Free e Pinsky, mas diz que as suas conclusões destacam a importância da gestão das pescarias.

“Com tantas pescarias ao largo da Costa Oeste, temos historicamente uma boa gestão pesqueira, o que nos deu resiliência”, diz White.

De 2014 a 2016, a Costa Oeste sentiu a presença mortal de uma mancha de água quente chamada “bolha”. Quando aqueceu as águas do Pacífico, matou criaturas marinhas como o zooplâncton, que serve de alimento para o salmão, colocando em risco a saúde das lucrativas pescarias de salmão no Oregon.

"Não tenho a certeza se conseguimos encontrar uma forma de gerir a nossa saída disto", diz White em relação ao aquecimento dos oceanos, mas numa escala global menos dramática, levar em consideração o aquecimento dos oceanos deve ser uma ferramenta importante na gestão pesqueira.

Pinsky adverte que não devemos encarar o aumento das populações como um bom sinal.

"Os peixes são um pouco como a Caracóis Dourados", diz Pinsky. "Para alguns está demasiado frio, mas o aquecimento pode fazer com que fique demasiado quente.”

A população crescente de um peixe também pode invadir o território de outra espécie. Na costa da Nova Inglaterra, as populações de robalo aumentaram.

"Acontece", acrescenta ele, "que os robalos gostam de comer lagosta. À medida que se tornam mais abundantes, podem começar a ter impacto na lagosta-americana. Há uma série de efeitos colaterais”.

 

ALIMENTAR O PLANETA

Se as atuais tendências populacionais continuarem ao mesmo ritmo, o mundo precisará de duplicar a sua produção alimentar até 2050. Para compensar, os líderes mundiais observam constantemente as pescarias como fonte crítica de proteína para milhões de pessoas.

Em 2016, 171 milhões de toneladas de peixe foram retiradas do mar, prevendo-se que esse número suba para 201 milhões nos próximos 10 anos.

"A segurança alimentar é uma grande preocupação", diz Pinsky. Estima-se que três mil milhões de pessoas usem peixe como fonte primária de proteína.

"Para além disso", acrescenta Pinsky, "também sabemos que tem impactos locais muito importantes nas vidas daqueles de dependem da pesca destes peixes".

Pinsky acredita que uma gestão melhorada pode ajudar a mitigar os impactos do aquecimento. O estabelecimento de zonas de “interdição”, por exemplo, dando tempo aos peixes para se reproduzirem e recuperarem da pesca em excesso.

Em última análise, Free diz que o seu estudo destaca os amplos impactos da queima de gases de efeito estufa. E diz, de forma inabalável, que algumas pescarias irão provavelmente continuar em declínio.

“Teremos de ser flexíveis”, acrescenta.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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