Meio Ambiente

Consegue Resolver o Problema do Plástico? Prémio incita novas ideias

O plástico está a sufocar o oceano. Um novo desafio de inovação procura ideias, de qualquer pessoa e de qualquer lugar, para resolver o problema da poluição. Quinta-feira, 14 Março

Por Alejandra Borunda

O plástico está em toda a parte. Acumula-se nos confins do oceano e nas encostas das montanhas mais altas; os investigadores descobriram esta realidade nas barrigas das baleias e nas reservas de água subterrânea que usamos para beber. Todos os dias é produzida mais uma megatonelada de plástico, o suficiente para produzir quase 22 triliões de garrafas de água – e mais de 90% destas garrafas nunca verá o interior de uma fábrica de reciclagem.

Portanto, o que devemos fazer sobre isto? Como é que conseguimos evitar que o plástico afogue o planeta?

Soluções para casos sérios como este requerem a ajuda de todos, diz Valerie Craig, cientista adjunta na National Geographic Society. As boas ideias podem surgir de qualquer pessoa, em qualquer lugar. Assim, para explorar a criatividade e o conhecimento de todo o planeta, a National Geographic Society e a Sky Ocean Ventures criaram o Ocean Plastic Innovation Challenge, para recolher ideias de todo o mundo sobre como lidar com o lixo plástico.

"Esperamos poder inspirar pessoas de várias origens a utilizar os seus próprios recursos, para tentar resolver realmente os problemas com que se deparam e alcançar os seus próprios objetivos", diz Fred Michel, diretor da Sky Ocean Ventures, uma filial de investimento de impacto da empresa de comunicação Sky, sedeada em Londres. "E talvez – esperamos nós – as pessoas inventem algo incrível, algo transformacional."

O desafio, anunciado em fevereiro, divide-se em três categorias, cada uma delas pensada para lidar com uma parte diferente do problema da poluição por plástico. Cada categoria é elegível para prémios no valor máximo de 500 mil dólares, oferecendo também a oportunidade de novos investimentos e aconselhamento empresarial por parte da Sky Ocean Ventures.

Os inovadores podem enviar as suas ideias até ao dia 11 de junho. Uma equipa de júris, selecionada pela National Geographic e pela Sky Ocean Ventures, irá escolher as melhores no início de julho – até 10 finalistas por categoria – e os finalistas terão até novembro para aperfeiçoar as suas ideias. Os vencedores serão anunciados em dezembro de 2019.

O primeiro desafio é um apelo para projetar embalagens melhores – uma chávena de café totalmente biodegradável, por exemplo; ou um invólucro para barras energéticas que se decompõe com o tempo; ou uma ideia "fora do baralho" que aborde uma questão de embalamento diferente. As equipas podem enviar ideias para qualquer uma das três categorias.

O segundo desafio solicita modelos de negócio criativos com desperdício zero. Como pergunta Craig, podem as empresas enviar os seus produtos para os clientes com menos – ou sem – plástico?

"O negócio dos refrigerantes é basicamente um negócio de garrafas de plástico", refere Craig como exemplo. Mas será que existe uma forma de dar aos clientes as bebidas que querem – sem que as garrafas se intrometam? As equipas podem enviar ideias sobre como criar modelos de negócio viáveis ou usar soluções de tecnologia para levar os produtos aos consumidores sem o desperdício de embalagens.

O terceiro desafio pede aos designers e aos prospetores de dados que exponham a escala do problema da poluição por plástico de formas criativas e intuitivas. O objetivo é destacar tanto a amplitude do problema – os 120 quilos de lixo plástico que cada norte-americano gera anualmente, por exemplo – quanto o poder da ação coletiva. Quatro equipas finalistas irão depois colaborar com a equipa gráfica da National Geographic para aperfeiçoar os seus trabalhos, e a equipa vencedora levará para casa um prémio de 10 mil dólares.

A CRIATIVIDADE PODE VIR DE TODO O LADO

Existem muitas formas de eliminar o problema da poluição do plástico. Alguns movimentos surgem da própria indústria, quando as empresas fazem cortes na produção de embalagens. Outros derivam das próprias leis, como as interdições às palhinhas de plástico ou aos recipientes de esferovite.

Outra estratégia? Exponha o assunto a qualquer pessoa que possa contribuir com boas ideias – e ofereça um prémio às melhores inovações.

“É como um sinal luminoso gigante, ou um balão, a dizer – Olá! Olhem para aqui! Aqui está o que nos interessa. Agora vão e resolvam o problema”, diz Fiona Murray, especialista em prémios e incentivos do MIT.

Existe um longo histórico, bem documentado, sobre o recurso a prémios para resolver problemas técnicos ou ambientais.

No início dos anos 1700, os navegadores europeus tinham um problema. Eles tinham descoberto como usar a posição do sol, medida ao meio-dia, para identificar a sua latitude exata no globo, de modo a poderem calcular o quão para norte ou para sul tinham navegado. Mas não tinham forma de medir a longitude, pelo que tinham de tentar adivinhar a sua posição a este ou a oeste.

O governo britânico ofereceu uma recompensa de até 20 mil libras (o equivalente atual a 3.4 milhões de dólares) a quem fosse capaz de inventar uma forma fidedigna de determinar a longitude.

Os europeus mais ligados ao oceano não conseguiram resolver o problema: nem os capitães, nem os construtores de barcos, nem os cientistas com as equações. Em vez disso, a solução surgiu de um construtor de relógios chamado John Harrison, que construiu um relógio capaz de manter um registo preciso do tempo no convés de um navio. Se os navegadores soubessem as horas exatas no navio, e as horas noutro local, com uma longitude precisa, conseguiam calcular a sua posição exata.

O problema teria sido resolvido sem Harrison? Eventualmente, diz Reto Hofstetter, especialista em gestão da Universidade de Lucerna, na Suíça. Mas a recompensa, ou prémio, incentivou Harrison e muitos outros a abordar o problema de formas que aceleraram a sua resolução.

As complexas questões ambientais, como a poluição, raramente têm uma solução óbvia. Mas os prémios podem estimular soluções criativas que, de outra forma, nunca veriam a luz do dia.

Craig dá como exemplo o Desafio de Limpeza de Petróleo da Wendy Schmidt, criado após o derramamento provocado pela plataforma Deepwater Horizon, em 2010, no Golfo do México. As empresas de limpeza industrial propuseram usar as mesmas técnicas que usavam há anos. Mas a organização, a Fundação XPRIZE, queria saber se havia outra solução, e criou um prémio de 1.4 milhões de dólares para as ideias mais inovadoras.

Uma equipa de jovens – “que de outra forma nunca teriam trabalhado juntos nesse problema”, diz Craig – propôs uma estratégia nova: encher invólucros com material absorvente e usá-los para limpar o petróleo do derrame.

Michel tem esperança que o novo Ocean Plastic Innovation Challenge estimule uma criatividade semelhante. "O fator-chave é ajudar estes inovadores", diz. "Queremos ajudá-los a crescer, a desenvolver os seus produtos, a fazer grandes inovações – e depois entrar no mercado e fazer com que os consumidores adotem essas ideias".

 

A National Geographic está comprometida a reduzir a poluição dos plásticos em todo o mundo. Saiba mais sobre as nossas atividades sem fins lucrativos em natgeo.pt/planeta-ou-plastico. Aprenda o que pode fazer para reduzir a utilização de plásticos descartáveis, e assuma este compromisso.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com