Meio Ambiente

Crianças Em Greve Contra As Alterações Climáticas: ‘Estamos a Lutar Pelas Nossas Vidas’

De Vanuatu até à Califórnia, os mais jovens entraram numa “greve ambiental”, para alertar para a forma como as alterações climáticas ameaçam o seu futuro. Segunda-feira, 25 Março

Por Alejandra Borunda

WASHINGTON, CAPITAL DOS EUA – No dia 15 de março, milhares de jovens de todo o mundo abandonaram a escola, em “greves” coordenadas internacionalmente, para chamar a atenção para o que consideram ser uma ameaça existencial: as alterações climáticas. De Vanuatu a Bruxelas, multidões de estudantes, agitando cartazes e entoando cânticos, reuniram-se numa tentativa coordenada de expressar a sua preocupação àqueles que têm o poder de resolver o problema.

Estes jovens nunca viveram num mundo livre de alterações climáticas – mas serão eles a suportar o fardo dos seus impactos, diz Nadia Nazar, uma das organizadoras da greve na capital dos EUA.

“Nós somos a primeira geração a ser afetada de forma significativa pelas alterações climáticas, e a última que pode fazer algo sobre isso”, disse Nazar.

Durante o dia, foram coordenadas mais de 1700 greves, começando com os países mais a leste, como a Austrália e Vanuatu, percorrendo depois todos os continentes, exceto a Antártica. Estima-se que mais de 40 mil estudantes encheram as ruas da Austrália, e as ruas das principais cidades europeias também estavam apinhadas de jovens.

UM MOVIMENTO CRESCENTE

As greves fazem parte de um movimento maior que começou no outono de 2018, quando Greta Thunberg, uma adolescente sueca, se instalou no edifício do parlamento sueco, em Estocolmo, com cartazes e um propósito: forçar os líderes do seu país a reconhecer as alterações climáticas (com esperança que estes façam algo significativo sobre isso). Ela chamou as suas ações de "Greve Escolar pelo Clima".

Inicialmente, a sua greve atraiu pouca atenção, mas depois começou a gerar mais e mais interesse. Jovens de todo o mundo começaram a organizar as suas próprias greves, muitas vezes solitárias, à sexta-feira, nas suas cidades natais. Nos EUA, Alexandria Villasenor, com 13 anos de idade, começou a fazer greve, num banco de prata gelado, no exterior da sede das Nações Unidas, em Nova Iorque. Haven Coleman, com 12 anos, instalou-se no exterior da Casa Estadual de Denver, no Colorado.

Mas fazer greves semanalmente era obstáculo enorme para muitos jovens, sobretudo se as suas escolas, amigos e familiares não os apoiassem. Como disse a jovem de 16 anos, Isra Hirsi, uma das líderes da Greve de Jovens Pelo Clima nos EUA, nem todos se podem afastar da escola ou ir para lugares onde possam chamar a atenção. Mas isso não significa que eles não se importem com as alterações climáticas, ou que não queiram fazer algo sobre isso.

Hirsi e outros jovens ativistas queriam organizar um dia em que as crianças de todo o país se reunissem de forma coesa e visível.

“É muito bom podermos fazer greve todas as semanas”, disse ela, “mas essa possibilidade também é um privilégio. Existem muitas pessoas que se preocupam com esta questão e que não podem sair da escola todas as semanas, e que nem podem sair para esta greve à sexta-feira, e nós queremos que todas as vozes sejam ouvidas.”

"Estamos a lutar pleas nossas vidas"

Nos Estados Unidos, no dia 15 de março, as crianças reuniram-se em mais de 100 greves. Na noite de véspera, os telefones dos organizadores ainda recebiam pedidos para adicionar mais locais de greve, ou a pedir ajuda para saber onde se deviam dirigir, o que levar e como se envolver no movimento de raiz.

Os organizadores da greve nacional reuniram-se em Washington, enviaram mensagens e planearam tudo até altas horas da madrugada. A reunião terminou com as crianças de mãos dadas, respirando profundamente, enquanto Nazar falava tranquilamente sobre a razão pela qual estavam a lutar.

“Estamos a lutar pelas nossas vidas, pelas pessoas de todo o mundo que estão a ser afetadas por isto, pelos ecossistemas e ambientes que já cá estavam há milhões de anos e que estão a ser devastados, em apenas algumas décadas, pelas nossas ações”, disse Nazar.

"Um crime contra o nosso futuro"

Em outubro de 2018, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas divulgou um relatório alertando que, sem uma ação internacional séria e coordenada para conter as emissões de gases de efeito estufa, é quase certo que o planeta aquecerá mais de 1,5 graus Celsius – e que os impactos desse aquecimento serão potencialmente mais devastadores do que se pensava anteriormente. A cronologia? Colocar as emissões em cheque até 2030.

Muitos jovens de todo o mundo ouviram esse número, contaram os anos e perceberam que nessa altura estarão nos melhores das suas vidas.

“Eu tenho muitos sonhos e objetivos que quero alcançar até ter 25 anos”, diz Karla Stephan, uma organizadora da greve em Washington, que tem 14 anos e vem de Bethesda, em Maryland. “Mas em apenas 11 anos, os danos provocados pelas alterações climáticas não podem ser desfeitos. E isso é algo que eu não posso simplesmente aceitar.”

E quando estes jovens olham à sua volta, veem muito poucas, ou nenhumas, ações que lidem com o problema. Como tal, Stephan e muitos outros perceberam que lhes compete a eles fazer pressão, para que o debate continue.

“A ignorância não é uma bênção”, diz Stephan. “É morte. É um crime contra o nosso futuro.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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