Entrevista a Afroz Shah, Responsável pela Maior Limpeza de Praia do Mundo

O advogado e ativista Afroz Shah liderou a maior limpeza de praia do mundo, em Versova, na cidade de Mumbai, ao longo de 86 semanas.Monday, March 18, 2019

Por National Geographic
Afroz Shah, um dos oradores da Climate Change Leadership de 2019, responsável pela maior limpeza de praia do mundo

Afroz Shah, distinguido pela ONU com o prémio de ‘Champion of the Earth’ pelo seu trabalho e compromisso naquela que foi considerada a maior limpeza de praia do mundo, foi um dos oradores da edição deste ano da Climate Change Leadership. Durante 86 semanas, com o apoio de muitos voluntários, incluindo estudantes, políticos e estrelas de Bollywood, foram retiradas 5 mil toneladas de lixo da praia de Versova.

O advogado e ativista deixou uma mensagem importante ao público – “se virmos algo que deva ser feito, devemos fazê-lo”, acrescentando que a “terra deve ser um melhor lugar do que foi”. Leia a entrevista sobre a missão de Afroz Shah e as suas palavras inspiradoras para um futuro mais saudável.

 

Como é que um advogado toma a decisão de limpar uma das praias com mais lixo em todo o mundo?
Se eu consigo, toda a gente consegue fazê-lo! Chamo ao meu projeto ‘A Date with the Ocean’ (‘Um Encontro com o Oceano’) e acredito que para expressarmos amor, não precisamos de educação superior. As expressões ‘amor pela mãe natureza’, ‘carinho pela mãe natureza’, ‘coexistir com outras espécies’, coexistir neste Planeta com outros fenómenos, têm de ganhar significado, dimensão, espectro.

Este caminho é sobre dar relevância à palavra amor. E o que é o amor? Não dizemos ‘adoro-te’, dizemos ‘adoro-te, mas quero fazê-lo desta forma’. Todos os sábados e domingos saímos e limpamos praias, treinamos as pessoas a adotarem a economia circular. Essa é a nossa filosofia. Hoje em dia existe menos amor e temos de o expandir mais e mais.

 

Como foi o primeiro dia?
Lembro-me que foi na primeira semana de outubro em 2018 com um dos meus colegas que, entretanto, faleceu com cancro. Enchemos 5 sacos de plástico e eu estava extremamente feliz por não saber o que iria acontecer. Mumbai tem 22 milhões de pessoas e 19 praias, limpar uma área ocupada por 22 milhões, significa três ou quatro países europeus juntos.

Estava feliz porque tinha começado o meu caminho pessoal, o início partia de mim e disse a mim mesmo que devia continuar a fazê-lo até o tempo se encarregar de me levar ou até não ser capaz de o fazer. Nesse dia fui para a praia às 8h da manhã e 5 sacos depois, estava muito feliz por ter começado esta aventura.

 

O que significa realmente limpar uma das praias mais sujas do Planeta?
Para mim significa quatro coisas. Primeiro, estou a demonstrar à mãe natureza que a respeito de uma forma verdadeira. Em segundo, se muitas pessoas se expressarem assim, enviam uma mensagem forte ao mundo: temos todos de o fazer. Em terceiro, pode significar a maior limpeza de praia alguma vez feita, mas é uma experiência pessoal. O quarto significado é que temos de continuar a fazer alguma coisa todas as semanas. Limpar uma das maiores praias do Planeta diz-nos que devemos continuar este caminho. E as palavras-chave que utilizo são: sinceridade, consistência e persistência.

 

Atualmente está a salvar o rio Mithi. Quantas mãos precisa para o ajudar a limpar o rio?
Essa é uma questão muito difícil. Quando comecei pensei que demoraria cinco anos, embora não saiba quanto tempo vai demorar. São 18 quilómetros de rio que passam por pelo menos 5 milhões de pessoas e não há gestão de lixo nessa área.

Um dos passos é limpar e o outro é informar as pessoas do que não podem atirar para o rio e a tratarem-no devidamente. Em quatro meses limpámos 500 metros, o que aparenta ser um início bastante positivo. Os números são irrelevantes, o que precisamos é que alguém o faça com consistência!

 

Qual o valor das comunidades locais nestas missões?
São um fator-chave! Não se consegue fazer uma limpeza, rejuvenescimento de um oceano ou de um rio ou adoção de uma economia circular sem o seu apoio. Se não estiverem lá, não vamos ter pessoas a caírem de para-quedas de outros sítios… não vai acontecer. E digo isto pela minha experiência no terreno.

As pessoas locais são as que poluem, que utilizam plástico e não o tratam devidamente. Se lhes dissermos que podemos tratá-lo de uma determinada forma, talvez mudem. Sem eles, não é possível! Nos meus quatro anos neste caminho, não tenho uma ONG ou uma conta bancária, e é por isso que digo às pessoas que é fácil fazê-lo sem dinheiro.

 

Acredita que é possível combater a invasão do plástico?
Eu não lhe chamo invasão do plástico, temos de combater a poluição do plástico. O uso de plástico descartável é um problema enorme, tem de ser retirado da nossa vida. O que temos de fazer é combater a poluição do plástico. Os produtos que não são necessários na nossa vida têm de ser banidos… como os sacos de plástico, não precisamos deles… as palhinhas, não precisamos delas!

Há uma diferença no plástico que é mantido em terra e o plástico que está no oceano. O plástico no oceano é fatal… os animais ingerem-no e morrem. Se mantivermos um saco de plástico no chão durante 10 mil anos, irá manter-se assim. Correr atrás de tudo o que achamos que é mau, não é a estratégia correta, devemos correr atrás daquilo que os especialistas e peritos nos dizem que está mal.

 

Esta entrevista foi encurtada por motivos de extensão e clareza.

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