Projeto ‘Guardiãs do Mar’ Financiado com Bolsa da National Geographic

O projeto português da bióloga marinha Raquel Gaspar foi financiado com uma bolsa da National Geographic e visa contribuir para a conservação das pradarias marinhas no estuário do Sado. Tuesday, March 26, 2019

Por National Geographic
A bióloga marinha Raquel Gaspar

Raquel Gaspar obteve recentemente uma bolsa da National Geographic para o projeto ‘Guardiãs do Mar: Pescadoras Líderes para a Conservação do Oceano’, que financiará a sua missão durante um ano. ‘Guardiãs do Mar’ dá resposta a um problema de sustentabilidade ambiental – a degradação das pradarias marinhas, no estuário do Sado.

A bióloga marinha foi galardoada no dia 8 de julho com a medalha de mérito científico atribuída pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior durante o encontro Ciência 2019. A Medalha de Mérito da Ciência distingue individualidades nacionais ou estrangeiras que se destaquem pelo seu contributo para o desenvolvimento da ciência ou da cultura científica em Portugal.

O projeto 'Guardiãs do Mar' irá capacitar a comunidade piscatória feminina para recolher dados sobre este habitat e inspirar mudanças de comportamento, materializando-se na criação de um mapa da distribuição das pradarias e na implementação de um piloto para a mitigação do impacto das amarrações das embarcações na sua degradação. Por forma a consolidar os resultados do projeto, serão criados um plano de monitorização e um grupo de conservação. O projeto tem como membros da equipa investigadores do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve e a parceria da Reserva Natural do Estuário do Sado.

Raquel Gaspar considera que “o maior desafio deste projeto é comprometer as autoridades na implementação de ações de gestão local e de políticas que salvaguardam as pradarias marinhas”. A bióloga acredita que ao construir “uma história em que as comunidades estão envolvidas, as entidades também vão querer ser atores”.

As pradarias marinhas são um habitat em declínio e desconhecido pelo público em geral, e isso faz com que o seu desaparecimento não seja sentido ou os impactos negativos não sejam acautelados. Contudo, são um dos ecossistemas mais importantes do planeta, frequentemente menosprezadas nas políticas costeiras e extremamente ameaçadas pela atividade humana. Um terço já desapareceu e, se nada mudar, 30 a 40% pode perder-se nos próximos 100 anos.

Em Portugal, o cenário é semelhante – as pradarias marinhas estão em declínio – e o Estuário do Sado é uma das poucas zonas onde este habitat ainda existe. A sua conservação terá um impacto determinante na abundância e biodiversidade da vida marinha do estuário, evitando o declínio das populações de golfinhos e cavalos marinhos.

A bióloga assegura que a bolsa vai permitir criar “conhecimento científico base para desafiarmos o problema da degradação das pradarias marinhas pela via da sensibilização do público em geral”. Através da identificação das manchas do habitat no estuário do Sado, planeia “criar um programa de popularização das pradarias” onde “cada mancha passará a ser identificada por um nome, da mesma forma que desde há 20 anos a comunidade local participa na atribuição do nome dos golfinhos do Sado”. 

o projeto ‘Guardiãs do Mar: Pescadoras Líderes para a Conservação do Oceano’ financia a missão de Raquel Gaspar durante um ano, no estuário do Sado.

As ‘Guardiãs do Mar’ resultam do percurso profissional de Raquel Gaspar e do seu trabalho enquanto cofundadora da Ocean Alive, a primeira cooperativa portuguesa dedicada à proteção oceânica. A missão da cooperativa é a transformação de comportamentos para a proteção do Oceano envolvendo a comunidade e tem como objetivo a proteção das pradarias marinhas do estuário do Sado, através do contributo de mulheres pescadoras. A equipa conta atualmente com 15 mulheres da comunidade piscatória. Algumas são guias marinhas e já divulgaram as pradarias marinhas a mais de 5000 estudantes em atividades educativas, outras são agentes de sensibilização e inspiram boas práticas na sua comunidade.

Há 3 anos, a Ocean Alive limpa todos os meses o estuário do Sado com guardiãs e voluntários. Até à data conseguiram recolher 47 toneladas de lixo e recuperar 53 mil embalagens de sal, o equivalente a quatro vezes a altura da Serra da Estrela.

Através do projeto recentemente financiado, as pescadoras serão capacitadas para ter uma nova profissão como monitoras do meio marinho. Serão treinadas para recolher informação científica sobre a localização e estado de conservação das pradarias, quer durante a sua lida da pesca e mariscagem, quer colaborando com a equipa do projeto em missões específicas para este objetivo.

Segundo Raquel Gaspar, as ‘Guardiãs do Mar’ não irão apenas beneficiar o ecossistema do Estuário do Sado. As novas profissões criadas por este projeto contribuem para melhorar a condição económica das suas famílias e representam “uma oportunidade única em dar um papel ativo às mulheres da comunidade piscatória na monitorização e proteção das pradarias, pois são as pessoas que dependem deste habitat”. A bióloga ambiciona alcançar um oceano saudável através da sua proteção pelas próprias comunidades costeiras.


Artigo atualizado a 9 de julho de 2019 com informação recente

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