Vagas de Calor no Oceano Estão a Matar a Vida Subaquática, Ameaçando a Biodiversidade

O oceano sente as vagas de calor da mesma forma que estas se fazem sentir em terra, e a vida subaquática está a lutar para sobreviver.Friday, March 22

Por Sarah Gibbens
Um leito de ervas marinhas perto da Ilha Vancouver, no Canadá. As ervas marinhas, como as florestas de algas ou os recifes de coral, são uma zona de vida marinha diversa. As águas quentes ameaçam a saúde destes ecossistemas.

As vagas de calor intensas são prejudiciais para a saúde humana e podem originar condições mortíferas, como a desidratação ou ataques súbitos de doença. E tal como as temperaturas extremas em terra, as vagas de calor marítimas podem alterar drasticamente a vida submarina.

Um novo estudo, publicado no dia 4 de março na revista Nature Climate Change, descobriu que as vagas de calor marítimas aumentaram substancialmente nas últimas três décadas, e os efeitos mortíferos das temperaturas mais quentes são cada vez mais evidentes na biodiversidade.

As vagas de calor marítimas são períodos em que a temperatura média da água, de uma determinada região, está excecionalmente alta. Nos últimos 30 anos, os dias de vagas de calor marítimas aumentaram pouco mais de 54%, uma tendência que os autores do estudo consideraram ser compatível com o declínio da vida nos oceanos.

Vagas de calor marítimas de alto nível, como "a bolha", uma enorme massa de água quente que esteve presente na costa oeste dos EUA, entre 2014 e 2016, foram incluídas no estudo. A bolha foi responsável pelo extermínio em massa de quase tudo, desde invertebrados a mamíferos marinhos.

“É evidente que os eventos extremos de aquecimento podem provocar mudanças abruptas em ecossistemas inteiros, com consequências generalizadas”, diz o ecologista Daniel Smale, autor do estudo.

UM RETRATO GLOBAL
Para obter uma visão global de como as vagas de calor marítimas estão a mudar a vida nos oceanos, Smale e a sua equipa de investigação analisaram 116 estudos, publicados anteriormente. Isso forneceu-lhes dados sobre mais de mil registos ecológicos diferentes. As vagas de calor foram quantificadas em períodos superiores a cinco dias, em que o oceano aqueceu até temperaturas anormalmente altas.

Depois, usaram os conjuntos de dados existentes para quantificar a biodiversidade numa determinada região. Para os cientistas, as regiões com uma biodiversidade mais densa, expostas ao aquecimento, foram particularmente preocupantes. Essas regiões estavam mais expostas ao risco de deterioração e morte, podendo ter um efeito em cascata nos ecossistemas vizinhos.

De acordo com o estudo, três regiões foram particularmente atingidas pelo aquecimento das águas: os recifes de corais nas Caraíbas, as ervas marinhas na Austrália e as florestas de algas na costa da Califórnia.

O aquecimento perturba as funções básicas destes habitats ecológicos maciços. Os corais, por exemplo, ficam sob tensão quando são submetidos a temperaturas acima da média. Nesse estado, expelem as suas algas simbióticas e passam por um processo chamado branqueamento de corais, onde os corais geralmente coloridos mudam para uma cor branca e doentia.

O QUADRO GERAL
Em 2005, os EUA perderam metade dos seus corais nas Caraíbas. Na Grande Barreira de Corais, na Austrália, mais de metade dos corais já morreram. Quando os corais morrem, já não conseguem sustentar as centenas de peixes e outras espécies marinhas que vivem nos recifes.

“Os recifes de coral que evoluíram a viver com algumas semanas de temperaturas acima da média em cada década, estão agora a sofrer até três meses de temperaturas extremas em poucos anos”, diz o ecologista Enric Sala, explorador da National Geographic que não esteve envolvido no estudo.

“Por exemplo, as tempestades tropicais vão ser ainda mais devastadoras, pois os recifes de coral não conseguem continuar a crescer e a proteger o litoral das ondas”.

A diminuição da biodiversidade também pode vir a ter impactos profundos na segurança alimentar e nas economias baseadas no mar. Um estudo publicado recentemente, na revista Science, descobriu que as alterações climáticas estão a provocar o desaparecimento de peixes. As populações globais de peixe capturadas para consumo humano, pelas pescarias, diminuíram cerca de 4%. Para algumas regiões que sentem o aquecimento das águas, assim como a pesca em excesso, o declínio é de mais de 30%.

Daniel Smale também teme que a perda de regiões críticas, como os recifes de coral, os leitos de ervas marinhas e as florestas de algas, acrescente mais dióxido de carbono à atmosfera. Os cientistas estimam que na última década o oceano absorveu 26% do carbono libertado na atmosfera. Todo o carbono absorvido pela flora subaquática é libertado quando esse ecossistema morre.

O QUE PODE SER FEITO?
“Os sistemas oceânicos estão a enfrentar diversas ameaças, como a poluição por plástico e a acidificação”, diz Smale. “Mas é óbvio que os eventos extremos de aquecimento podem originar mudanças abruptas em ecossistemas inteiros, com consequências generalizadas."

Smale prevê que, nas próximas décadas, os eventos de aquecimento vão continuar a ameaçar o equilíbrio da vida nos oceanos.

"A causa destes eventos é algo que temos de resolver", diz Katie Matthews, cientista-chefe adjunta da Oceana. "Se não fizermos isso, tudo o resto em que trabalhamos terá pouco ou nenhum impacto."

Katie acrescenta que a gestão das pescarias, feita de forma ambientalmente consciente, e a monitorização do aquecimento dos oceanos em tempo real, são ferramentas que podem ajudar a minimizar os impactos dos eventos de aquecimento.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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