Cidades Flutuantes Poderiam Aliviar o Excesso Habitacional

Espremidas entre populações crescentes, a subida dos oceanos e ecossistemas ameaçados, as cidades precisam de novas opções, incluindo abordagens reais a conceitos outrora fantasiosos sobre comunidades ao largo da costa.Monday, April 22, 2019

Por Andrew Revkin
A empresa Oceanix está a propor um novo conceito modular para cidades flutuantes.

No dia 3 de abril, na sede das Nações Unidas, os corredores e as salas de reuniões estavam em alvoroço com uma mistura de temas familiares – “opções políticas para a baixa fertilidade”, o lançamento do “Relatório da Juventude dos Estados do Pacífico”, o “Dia Internacional do Desporto para o Desenvolvimento e Paz”...

Mas na sala de conferências 8 estava a acontecer algo completamente diferente, onde um modelo azul e bege, no pódio central, ilustrava o tema anunciado na porta: “Cidades Flutuantes Sustentáveis”.

Ali, dezenas de especialistas, investidores, cientistas e autoridades – juntamente com um grupo de estudantes numa ligação em vídeo a partir de Nairobi – exploraram uma nova abordagem para a construção de centros habitacionais flutuantes, com comércio, educação e entretenimento, projetados para aliviar as pressões enfrentadas pelas cidades costeiras, cada vez mais esmagadas entre o aumento da população e do nível da água do mar, o risco de tempestades, os recursos finitos e os ecossistemas ameaçados.

Conceitos brilhantes e sombrios da humanidade a abandonar terra para viver no mar existem há décadas, com variantes esperançosas – uma cidade flutuante em forma de pirâmide concebida para a Baía de Tóquio, na década de 1960, por R. Buckminster Fuller – e desanimadoras, com sobreviventes dispersos num planeta inundado, construindo "atóis” em Waterworld, o distópico filme de 1995.

Os autores do projeto, uma empresa chamada Oceanix e os seus parceiros, incluindo o arquiteto dinamarquês Bjarke Ingels, insistem que desta vez é diferente.

Eles imaginam uma eventual galáxia de "cidades" satélite, construída onde a urbanização costeira está a atingir os limites. Estas cidades consistiriam em módulos hexagonais flutuantes, produzidos em massa, à prova de tempestades, rebocados, ancorados e ligados em matrizes maiores, cobertos por habitações construídas de maneira sustentável, com locais de trabalho, instalações recreativas e religiosas, e tudo o resto. Ferries e drones fariam a linha de ligação à costa. As comunidades seriam sustentadas, tanto quanto possível, através da energia solar local e de outras energias renováveis, reciclando a água e a água da chuva, e pela produção local de alimentos.

À primeira vista, o conceito de cidades flutuantes parece algo fantasioso.

Mas as cidades costeiras de todo o mundo enfrentam graves problemas de espaço, problemas que aumentam exponencialmente a cada dia que passa.

Na região Makoko de Lagos, na Nigéria, várias centenas de milhares de pessoas vivem num labirinto de jangadas e barcos amarrados.

A erosão das camadas de gelo polar e a expansão dos oceanos, provocadas pelo aquecimento global, estão constantemente a afetar o nível do mar, com repercussões que se farão sentir durante séculos. E num mundo em constante urbanização, fomentada pelo aumento das populações, o risco costeiro aumenta dramaticamente.

Por isso, seria fantasioso excluir tais soluções, dizem os seus defensores.

UMA NOVA VISÃO SOBRE HABITAÇÕES MARINHAS

O projeto é uma criação de Marc Collins, um empreendedor nascido no Havai, com raízes taitianas e chinesas, que passou mais de uma década a pesquisar opções para este tipo de conceito, incluindo propostas oferecidas por individualistas favorecidos que tentam escapar das restrições dos governos e dos impostos.

Em entrevista, Collins disse que acabou por perceber que as comunidades flutuantes só conseguem realmente ter sucesso com o apoio governamental, e funcionariam melhor dentro das águas costeiras dos países. "Precisamos dos governos", disse.

Esta proposta visa um meio-termo, atraindo investidores na Ásia – onde as cidades são extraordinariamente densas e os imóveis exorbitantemente caros, e onde existe um poder governamental substancial para orquestrar esse tipo de desenvolvimento no mar ou em terra. Mas Collins disse que é fundamental estes projetos beneficiarem todas as pessoas da cidade, não apenas os ricos. "Isto não se pode transformar em algo onde um grupo de pessoas ricas fica a ver os pobres a morrer na praia", disse em entrevista.

A reunião foi organizada pelo programa UN-Habitat, que foi lançado em 1978 para incentivar o progresso em comunidades com responsabilidades socioambientais, e que agora está focado em alcançar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 11 – tornar as cidades inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis até 2030.

Não é uma agência associada a tecnologia de ponta ou design. Atualmente, com as pressões intensas, sobretudo na ausência de progressos na luta contra o aquecimento global, as soluções não convencionais já não podem ser desvalorizadas, disse Victor Kisob, vice-diretor executivo da ONU-Habitat e coordenador do evento.

A aldeia flutuante de Kompong Luong, no lago Tonle Sap, no Camboja, é habitada por quase mil famílias.

Como é que uma ideia pouco convencional subiu ao palco principal?

“A ideia surgiu entre muitas outras enquanto procurávamos soluções possíveis, projetos que pudéssemos considerar em casos como o furacão Sandy, ou crises humanitárias como as que estamos a enfrentar em Moçambique”, disse Victor. “Depois de ouvir o Marc e ver os seus desenhos, isto parece futurista mas é realmente prático. E temos de levar em consideração o que poderá acontecer a estes locais se não fizermos nada.”

Com o decorrer do dia, os méritos de tal projeto, em teoria, tornaram-se evidentes. A ameaça do nível do mar, e de tempestades, é eliminada a dois ou três quilómetros da costa. E mesmo os tsunamis não representariam o tipo de ameaça que representam para as costas, porque as ondas provocadas por um sismo só atingem níveis devastadores em águas rasas.

Em muitos países, as águas costeiras podem ser alugadas por poucos euros, ao passo que em cidades como Hong Kong ou Lagos os valores imobiliários são astronómicos.

POTENCIAIS DESAFIOS

A conversa identificou uma série vasta de questões.

Algumas eram técnicas. Um aglomerado de plataformas amarradas pode ser atingido por um furacão?

Nicholas Makris, diretor do Centro de Engenharia Oceânica do MIT, esteve presente na sessão com vários colegas. Ele perguntou aos participantes se algum deles já tinha estado no mar com ventos de tempestade. A mão dele foi a única no ar.

Makris descreveu várias estruturas, em todo o mundo, projetadas para tais condições, mas realçou que são infraestruturas globais de petróleo e gás, enormes e extremamente caras.

Em entrevista, Makris disse que o conceito da Oceanix tem mérito, mas que se restringe a águas abrigadas, tal como foi projetado.

A escala será provavelmente o maior desafio. Já existem muitas estruturas flutuantes por todo o lado. A Holanda, que há muito tempo lidera esses esforços, tem um protótipo flutuante de uma quinta de laticínios, em Roterdão, e abriga um novo Centro Global de Adaptação às Alterações Climáticas – instalado num prédio flutuante. Contudo, a quinta foi projetada para 40 vacas.

Mas Collins diz que o conceito da Oceanix se concentra na eventual produção em massa das unidades flutuantes básicas, que podem ser rebocadas para qualquer lugar do mundo, oferecendo as mesmas vantagens económicas da construção em grandes quantidades, que reduz o custo de tudo, desde mobiliário a células solares.

Apesar da construção de tais comunidades poder ser muito dispendiosa, disse Collins, uma “cidade” Oceanix seria muito mais barata se compararmos com uma habitação costeira. Num mundo onde existem cada vez mais carências habitacionais e os preços exorbitantes colocam um fardo enorme sobre os pobres, o valor social seria enorme.

ver galeria

Joseph Stiglitz, da Universidade Columbia e laureado com o Prémio Nobel da Economia, que construiu a sua carreira a estudar políticas de redução de desigualdades, expressou o seu entusiasmo na reunião. “Vale certamente a pena tentar”, disse em entrevista. “A única forma de sabermos se estas coisas funcionam é experimentando.”

Stiglitz disse que o mérito de viver no mar reside na capacidade de começar do zero, enveredando por uma abordagem holística na formação de serviços e na limitação de custos e riscos – ambientais e financeiros.

COMO SERIA VIVER NUMA ILHA FLUTUANTE?

A reunião também abordou desafios políticos e sociais.

Como seriam selecionados os habitantes dessas comunidades? Os estudantes em Nairobi, que acompanhavam a apresentação em vídeo, não estavam muito preocupados com a tecnologia, mas sim com a forma como tais projetos poderiam diminuir a divisão entre pobres e ricos.

Um observador, nos lugares junto à zona circular da mesa, questionou se os mais jovens não se sentiriam isolados numa ilha artificial, mesmo com transportes de ligação à costa. Desde a Polinésia ao Norte de África, o fascínio pelas cidades mundiais é mais forte nos jovens, não só por questões profissionais, mas também pelas artes, pela cultura, pela criatividade e conexão.

Viver numa ilha não seria encarado como uma armadilha?

Mas um dos jovens presentes, Max Kessler, estudante de engenharia no MIT, disse que ansiava poder trabalhar num projeto deste género.

"Eu cresci numa ilha no noroeste do Pacífico", disse. “Se conseguirmos criar algo que fomente o tipo de cultura e mentalidade de sustentabilidade que tínhamos lá, acho que é realmente exequível.”

Outro participante realçou que o projeto comunitário seria ideal para os idosos, oferecendo uma opção habitacional para os reformados, levando em consideração o aumento das populações mais velhas nas próximas décadas.

A urbanização e o desenvolvimento dependem de mais-valias. Se uma opção como os anexos flutuantes nunca se concretizar, a outra opção passa por mais dragagens e preenchimento de espaço – as escolhas de eleição do século passado, num mundo onde o nível do mar continua a subir.

De acordo com as Nações Unidas, o estado-nação insular de Singapura, através da mineração e importação de areia, expandiu o seu tamanho em quase um quarto, desde a sua independência em 1965. Mas os danos ambientais provocados pela indústria mundial de areia estão a limitar essa opção no futuro.

Não será portanto surpreendente que, no final do mês de abril, Singapura organize um evento comercial mais expressivo, para promover o desenvolvimento ao largo da costa – a Conferência Mundial sobre Soluções Flutuantes.

Antes do dia terminar, a ideia ganhou um apoio notável da subsecretária-geral Amina J. Mohammed, que já lidou com desafios costeiros brutais enquanto ministra do Ambiente da Nigéria, com outro tipo de cidade flutuante – o enorme bairro de lata Makoko, em Lagos, onde centenas de milhares de pessoas vivem num labirinto de jangadas e barcos amarrados.

Amina disse que podia demorar alguns anos, mas talvez este modelo de comunidade flutuante pudesse ajudar em Lagos. “Nós temos realmente a oportunidade de fazer algo em lugares como Makoko”, disse. “Podemos pegar nas nossas universidades, nos jovens e em parceiros externos, e transformar isto num exemplo brilhante. Podemos oferecer a milhões de pessoas a possibilidade de viver ao largo da costa, sem terem de se mudar para o continente se não precisarem.”

Amiba também referiu que num mundo que luta para alcançar o desenvolvimento sustentável – com rápidas alterações tecnológicas e ambientais – as ideias e inovações “de ponta” são essenciais. (Em maio, outra filial das Nações Unidas irá realizar uma sessão em Genebra, focando-se no papel da ciência e da tecnologia na aceleração dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.)

“A nossa abordagem ao desenvolvimento e sustentabilidade ambiental nas cidades precisa de uma reformulação séria, para dar resposta aos desafios de hoje e de amanhã”, disse Amina, destacando que as cidades são o ponto de partida para novos conceitos que enfrentem a urgência das vulnerabilidades climáticas. “As cidades flutuantes podem vir a integrar o nosso novo arsenal de ferramentas.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler