Corais Na Grande Barreira Lutam Para Recuperar

As alterações climáticas estão a piorar as vagas de calor no oceano – uma realidade que aumenta as probabilidades de branqueamento em massa, colocando os corais em risco.Monday, April 15

Por Sarah Gibbens
Na Grande Barreira de Coral, o coral Acropora desova libertando uma névoa de material reprodutivo sob a lua cheia.

Nos dias mais quentes do verão australiano, logo após a lua cheia, a Grande Barreira de Coral passa por uma “tempestade de neve” submersa.

Ao longo da extensão massiva de recifes, os corais libertam milhões de ovos e espermatozoides pegajosos que flutuam até a superfície da água, misturando-se – formando eventualmente larvas. Algumas flutuam e estabelecem-se no fundo do oceano, outras podem ser arrastadas pelas correntes.

Uma nova investigação, publicada recentemente na revista Nature, revela que as águas mais quentes dificultam a reprodução em massa dos corais. Depois de um enorme evento de branqueamento de corais ter ocorrido em 2017, a quantidade de material reprodutivo recolhido na água, na Grande Barreira de Coral, em 2018, após um evento de desova em massa, diminuiu em 89%. Os investigadores estimam que demorará entre cinco a dez anos para os corais recuperarem completamente.

Esquerda: A luz da tarde é filtrada até ao recife de Lodestone, na Grande Barreira de Coral. Direita: Uma equipa de mergulhadores nada pelos jardins de corais de Keeper Reef, na Grande Barreira de Coral.

A investigação mostra que, após os eventos de branqueamento em massa, os recifes de coral lutam para recuperar. Esse declínio afeta alguns corais mais do que outros, o que significa que a composição dos recifes pode ser drasticamente alterada pelas alterações climáticas.

RECOLHA DE DADOS

Os corais que se reproduzem através da libertação de uma massa de material reprodutivo chamam-se procriadores. A maior parte das espécies de corais na Grande Barreira de Coral reproduz-se dessa forma, mas alguns, um grupo rotulado de reprodutores, reproduzem-se através da libertação de larvas que se estabelecem nas proximidades.

Para avaliar as espécies de corais adultos mais afetados, os investigadores fizeram análises subaquáticas, colocando fita adesiva sobre os leitos dos recifes, medindo a sua topografia. Para recolherem amostras de larvas, nos dias que se seguiram a um evento de desova em massa, montaram painéis ao longo da Grande Barreira de Coral.

"Colocámos mil painéis", diz Terry Hughes, cientista de recifes de coral na Universidade James Cook, e investigador principal do estudo. "Entre as zonas norte e sul, são quase 2900 quilómetros."

Nas análises anteriores tinham sido recolhidos painéis que continham entre 50 a 100 gametas. Este ano, diz, “os números mais comuns têm sido entre zero e um”.

MENOS TEMPO DE RECUPERAÇÃO

As temperaturas quentes e a poluição fazem com que os corais comecem a expelir as algas que vivem nos seus tecidos. Estas algas fornecem alimento a todos os pólipos corais. Quando a água não arrefece ou a poluição não se dissipa, as algas não regressam aos corais, deixando-os a morrer à fome. Padrões climáticos como o El Niño podem aquecer as águas de forma insuportável para os corais.

O branqueamento de corais foi registado pela primeira vez no início da década de 1980, e a Grande Barreira de Coral sofreu quatro eventos de branqueamento em massa que devastaram áreas enormes do recife. O primeiro ocorreu em 1998, e o segundo em 2002. De 2002 a 2016, os corais conseguiram recuperar o que haviam perdido nesses eventos.

“Tivemos a sorte de ter um período de 14 anos entre o segundo e o terceiro branqueamento”, diz Hughes. “E o azar de não termos uma pausa depois de 2016.”

Eventos consecutivos de branqueamento em 2016 e 2017 devastaram a Grande Barreira de Coral, e uma investigação publicada por Hughes, no ano passado, na revista Science, sugere que o tempo entre ocorrências de aquecimento extremo está a diminuir.

"É o mesmo que ter uma doença grave a cada dois anos, ou em intervalos tão curtos que nem temos tempo de recuperar nos intervalos", disse na época a autora do estudo e bióloga marinha, Julia Baum, à National Geographic.

FUTURO ROCHOSO

Os 10 anos estimados para a recuperação de corais só são relevantes se nenhum outro evento de branqueamento em massa acontecer durante esse período. Hughes diz que é improvável que isso ocorra num mundo em aquecimento.

"Estou razoavelmente confiante de que teremos recifes no futuro", diz Hughes. “Mas já estamos a observar as mudanças que estão a ocorrer com apenas um grau de aquecimento. Se a temperatura aumentar dois graus ou mais, então os recifes ficarão cada vez mais degradados e irreconhecíveis”.

Algumas espécies de corais procriadores, como os corais Acropora, foram as mais afetadas. Os números dessa espécie diminuíram em 93%. Os corais Acropora têm formas que fazem lembrar mesas. São responsáveis por grande parte da tridimensionalidade do recife, e os investigadores dizem que sustentam milhares de outras espécies.

“Nós sabíamos que as alterações climáticas mudariam a amálgama de corais”, diz Hughes. “O que nos surpreende é a velocidade com que isso está agora a acontecer. Não é algo que vai acontecer no futuro, é algo que estamos agora a analisar.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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