Meio Ambiente

Degelo Glaciar Responsável Por um Terço da Subida do Nível do Mar

As regiões montanhosas do planeta estão repletas de milhares de glaciares. Agora, os cientistas sabem a que velocidade estão a derreter, e o quanto enchem os oceanos. Terça-feira, 16 Abril

Por Sarah Gibbens

Talcomo um cubo de gelo num dia de verão, muitos dos glaciares da Terra estão a derreter.

Em janeiro passado, um estudo feito pela Nature Climate Change mostrou que atualmente os glaciares estão entre os mais pequenos que alguma existiram na história da humanidade, revelando material de radiocarbono que não era exposto há 40 mil anos.

Agora, um novo estudo, publicado na Nature, calcula a quantidade de água perdida pelos glaciares e a forma como esta contribuiu para o aumento do nível da água do mar.

Desde 1961, altura em que os registos começaram a ser mantidos de forma competente, até 2016, o oceano subiu 27 milímetros – devido ao desmoronamento de gelo nos glaciares não polares do mundo. Os cientistas sabiam que o degelo dos glaciares contribuía para o aumento do nível do mar, mas o novo estudo oferece um olhar mais abrangente sobre a quantidade e velocidade a que estão a derreter.

Neste processo, descobriram que os glaciares nas montanhas contribuem com cerca de um terço para a subida do nível do mar – a mesma contribuição dada pela camada de gelo da Gronelândia, e mais do que a contribuição dada pela camada da Antártida. A investigação também destacou que muitos dos glaciares do planeta podem desaparecer no próximo século.

No total, a NASA estima que o nível da água do mar pode subir até 3 milímetros por ano. Os cientistas acreditam que, à medida que os oceanos aquecem, a expansão térmica pressione ainda mais a subida do nível do mar.

COMO SABEM?

O estudo analisou 19 regiões geologicamente distintas, previamente segmentadas pelo Inventário Glaciar Randolph.

Para cada uma das regiões, confiaram nos dados de campo do World Glacier Monitoring Service. E em todas elas, as medições de campo só estão geralmente disponíveis para um glaciar ou dois, diz Frank Paul, geógrafo na Universidade de Zurique e autor do estudo.

Para obter uma análise mais detalhada, os investigadores utilizaram dados recolhidos em levantamentos aéreos, feitos por satélite, para calcular as alterações na volumetria de um glaciar.

Não só descobriram que os níveis do mar tinham subido até 27 milímetros, nos últimos 50 anos, como também calcularam as alterações na massa glacial, de 2006 a 2016, descobrindo que o nível do mar aumentou aproximadamente um milímetro anualmente.

“O drama está a ficar cada vez pior”, diz Paul sobre a medição de massa perdida pelos glaciares. Os dados mostram que nas décadas de 1960 e 1970, os glaciares sofreram alterações sazonais previsíveis, perdendo massa no verão, mas recuperando no inverno. Na década de 1980, os dados revelam que se perdeu mais do que se recuperou e, na década de 1990, todos os glaciares medidos mostraram que estavam a perder mais volume do que conseguiam recuperar.

Para determinar a quantidade necessária para a subida do nível da água do mar, os investigadores dividiram a massa total dos glaciares pela superfície do oceano.

OS IMPACTOS

As cidades costeiras já estão a começar a sentir os impactos do aumento do nível da água do mar. Nos Outer Banks, na Carolina do Norte, os bairros mais perto do oceano começaram a desaparecer. As grandes cidades, como Miami, estão a desenvolver planos de adaptação para quando, e não se, o mar subir.

O degelo glaciar também vai ter impacto nas comunidades do interior que dependem deles.

“No Peru, parecem mesmo torres de água”, diz Paul.

As populações nos Andes peruanos são das que mais dependem de glaciares. Desde os Incas que os glaciares no Peru são uma fonte crucial de água doce para consumo humano e para a agricultura. Um estudo publicado em outubro passado, na revista Scientific Reports, estimou que a Calota de Gelo de Quelccaya, uma região que abrange mais de 9000 campos de futebol, pode atingir um ponto de inflexão se as emissões não forem reduzidas nos próximos 30 anos.

A vizinha Venezuela deve perder em breve o seu último glaciar, o Pico Humboldt, embora os cientistas ainda não tenham estudado completamente a forma como o glaciar se alterou ao longo do tempo – ou quando desaparecerá por completo.

Nos Himalaias, o degelo recém-libertado pelo glaciar está a formar lagos perigosos que originam inundações. Uma avaliação, publicada no início deste ano, estimou que dois terços dos Himalaias podem desaparecer se as emissões de carbono não forem reduzidas no próximo século.

Os investigadores concluíram o seu relatório afirmando que algumas regiões glaciares na Europa, no Canadá, nos EUA e na Nova Zelândia podem perder os seus glaciares por completo até 2100.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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