Meio Ambiente

Esta Ilha Vai Reciclar Todos os Seus Resíduos

A ilha dinamarquesa de Bornholm tem uma antiga incineradora que precisa de ser substituída. Em vez disso, o governo local está a adotar um sistema completamente novo. Terça-feira, 30 Abril

Por Karen Gunn

Imagine uma comunidade inteira a reutilizar ou a reciclar todos os resíduos. Pode parecer utópico, mas na ilha dinamarquesa de Bornholm talvez não seja.

Até 2032, todos os resíduos em Bornholm serão tratados como recursos, dizem as autoridades. A triagem de lixo, a reciclagem, a minimização de resíduos e as diversas tecnologias novas são as ferramentas planeadas para transformar Bornholm numa das primeiras comunidades livres de lixo do planeta.

Bornholm, a ilha mais oriental da Dinamarca, é uma rocha de granito de 588 quilómetros quadrados que se projeta no mar Báltico. Conhecida pelas suas pitorescas vilas piscatórias e pelo clima ensolarado, é um destino de férias popular, com uma população permanente de 40.000 habitantes e com cerca de 600.000 visitantes anuais.

"Até 2032, pretendemos reutilizar ou reciclar tudo", diz Jens Hjul-Nielsen, CEO da BOFA, a empresa que faz a gestão de resíduos da ilha e a grande responsável pelo projeto livre de lixo. “O processo para atingir esse objetivo será emocionante porque ainda existe muita coisa que não sabemos. Temos uma visão, mas não um plano concreto para a atingir.”

A única instalação de incineração de resíduos da ilha está a deteriorar-se e, em dezembro passado, foi tomada a decisão ousada de a fechar até 2032, para fazer a transição para uma sociedade livre de lixo.

“Gerir uma empresa de tratamento de resíduos, numa escala tão pequena como a que temos aqui, tem os seus desafios, por isso, ao invés de investirmos numa nova incineradora, decidimos simplesmente eliminar o aterro e a incineração enquanto opções de gestão de resíduos. Queríamos experimentar algo diferente e tirar proveito do facto de sermos uma sociedade em miniatura, completa com empresas, residências privadas e turismo, onde podemos experimentar e adquirir conhecimentos que mais tarde poderão ser ampliados a um nível nacional ou até mesmo global”, explica Hjul-Nielsen.

VISÃO

Na visão do futuro apesentado pela BOFA, os cidadãos de Bornholm irão fazer a triagem de todos os seus resíduos em frações diferentes, fáceis de recolher e de usar em novos ciclos de recursos. Metal, plástico, vidro, papel e papelão serão amplamente reciclados, e novas frações de resíduos, como as redes de pesca e materiais de isolamento, serão adicionados ao sistema de triagem e reciclagem. Enquanto isso, os resíduos orgânicos serão convertidos em energia, juntamente com os resíduos dos jardins e do parque, enquanto que os resíduos ricos em nutrientes, provenientes da extração de energia, serão usados como fertilizante em campos, parques e jardins, escreve a BOFA.

Nesta economia circular, os habitantes reutilizarão tudo, desde mobiliário a roupas infantis, usufruindo de serviços de economia partilhada – por exemplo, emprestando, alugando ou trocando bens pela internet ou com comunidades semelhantes.

Nas escolas primárias, as crianças serão educadas como “heróis de recursos”, com lições práticas sobre resíduos, recursos, ambiente e natureza. E será estabelecido em Bornholm um centro universitário de investigação sobre modelos de transição verde e economia circular.

"ILHA VERDE"

A decisão de encerrar a incineradora e de abraçar esta visão ousada foi tomada em dezembro, de forma unânime, com um parecer do município.

Esta mentalidade amiga do ambiente já não é novidade para o governo local. O município já tinha adotado uma estratégia de “Ilha Verde Brilhante”, colocando-se na linha da frente do desenvolvimento sustentável, com o objetivo de neutralizar emissões de CO2 até 2025, depender apenas de fontes de energia limpas e expandir as terras de cultivo orgânicas da ilha.

“Apesar de tudo isto, estávamos muito atrasados na área dos resíduos, sendo por isso muito importante progredirmos nesse setor também”, diz Anne Thomas, vice-presidente da câmara de Bornholm.

“Enquanto pioneiros neste tipo de área, podemos beneficiar de apoios financeiros de fontes nacionais e internacionais como a União Europeia”, acrescenta Anne. “Quem chegar mais tarde, beneficiará de todo o processo de tentativa e erro feito anteriormente, e a implementação da tecnologia será muito mais barata. Estar algures no meio é um lugar complicado e, para nós, a decisão de sermos os primeiros não foi difícil.”

TRANSIÇÃO

Atualmente, Bornholm recicla 39% dos seus resíduos domésticos. O primeiro passo para se livrar do lixo é aumentar essa percentagem, para que muito mais resíduos sejam filtrados, reciclados e reutilizados. Isso em si já é uma tarefa enorme, "mas já sabemos como o fazer", diz Anne.

"A parte mais empolgante vem na segunda fase, onde poderemos estar a explorar novas formas de trabalhar com as empresas, alterando os processos de produção, envolvendo a população e testando novos métodos para a gestão de resíduos."

Olhando mais para o futuro, para a fase final da transição, não sabemos como vai ser, diz Hjul-Nielsen. “Afinal de contas, nem sabemos que tipo de desperdícios teremos futuro – alguns materiais que agora precisam de tratamentos especiais podem vir a ser banidos até lá, ou poderão ter sido inventados novos materiais. A balança pode pender nos dois sentidos, facilitando ou dificultando o nosso trabalho.”

As novas tecnologias terão um papel importante na resposta a esses desafios. A BOFA espera atrair empresas interessadas em testar novas tecnologias, numa arena pequena como Bornholm, antes de as implementar em grande escala – por exemplo, novos métodos de decomposição e de tratamento de materiais que ainda não estão disponíveis. "Em apenas quatro meses, já estamos a ver o interesse de algumas empresas muito importantes", diz Hjul-Nielsen.

COMUNIDADE

Mesmo assim, a tecnologia por si só não consegue impulsionar a mudança.

O envolvimento e a boa vontade da população será um fator crucial, realça Jens Hjul-Nielsen. “O crescimento do interesse na sustentabilidade é um sentimento animador, desde que essa sustentabilidade não seja dispendiosa ou uma coisa difícil para o quotidiano das pessoas. Caso contrário, podemos perder o seu apoio.”

Atualmente, os cidadãos de Bornholm pagam ao município um imposto sobre a eliminação de resíduos, de aproximadamente 3.000 coroas dinamarquesas (cerca de €400) por ano, por agregado familiar, para toda a gestão de resíduos, incluindo uma recolha semanal e serviços de tratamento (quem tem menos resíduos, pode optar por um serviço quinzenal).

Para financiar a primeira etapa de aumentar a triagem de resíduos até sete frações – alimentos, vidro, metal, papel, papelão, plástico e madeira – o governo local aprovou um aumento de 15% no imposto sobre resíduos, acrescentando cerca de €62, a partir de 2022, ao orçamento fiscal anual de cada domicílio. Esta etapa está em conformidade com uma política nacional onde 50% de todos os resíduos domésticos devem ser classificados nas sete frações para reciclagem até 2022.

“O próximo passo, para ficarmos completamente livres de lixo, precisa de financiamento interno e de financiamento de fontes externas e de colaboradores. Se isso não for suficiente, estamos a fazer orçamentos para um aumento adicional de impostos, de 1% a 2% ao ano, ou cerca de €5 a €10 por domicílio”, diz Hjul-Nielsen.

A BOFA está empenhada numa série de projetos para envolver o público em geral e o setor privado na transição. Por exemplo, um dos projetos analisa diferentes tipos de residências – uma vila piscatória com muitos turistas, um complexo de moradias, uma pequena vila agrícola – para entender os desafios de selecionar e minimizar o desperdício em diferentes situações de vida, e encontrar as melhores soluções e formas de motivar as pessoas.

Outros projetos visam incentivar a produção de bens com peças substituíveis e reduzir as embalagens, produzir material informativo e explorar – em diálogo com a indústria do turismo - as melhores maneiras de ajudar os visitantes a entender e a utilizar o sistema de triagem.

ABRIR CAMINHO

“Eu vejo muito interesse na gestão adequada de resíduos. Muitas aldeias e comunidades em Bornholm já estão a trabalhar em prol de um futuro mais verde e  a partilhar as suas ideias entre si”, disse Anne Thomas. "A transição para uma economia circular não é apenas uma questão de comprar mais contentores de lixo, é sobre novos métodos e novos comportamentos, uma maneira completamente nova de pensar."

Se a ilha não atingir o seu objetivo de se livrar completamente de lixo até 2032 – existe um plano B?

Estamos comprometidos com o nosso objetivo a longo prazo, mesmo que demore mais tempo do que o planeado, diz Jens Hjul-Nielsen. “Se ainda tivermos uma pequena quantidade de resíduos até 2032, enviaremos isso para incineração em instalações fora da ilha, e esse será um projeto a ser resolvido até 2033 – mesmo assim, teremos dado um passo gigante relativamente ao ponto em que estamos hoje.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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