Brasil Faz Cortes no Financiamento de Cientistas

O controverso presidente do país está a cortar nos apoios a investigações académicas, colocando maravilhas naturais como a Amazónia em risco, dizem os críticos.sexta-feira, 3 de maio de 2019

Por Shannon Sims
Cientistas em São Paulo, no Brasil, protestam contra os cortes profundos no seu financiamento.

Em janeiro, quando Jair Bolsonaro assumiu a presidência do Brasil, começou rapidamente a cumprir as suas promessas de campanha, revertendo as proteções da floresta amazónica e dos direitos indígenas, e a dar prioridade à expansão da agricultura e dos interesses comerciais, acionando o alarme entre os conservacionistas. E, mais recentemente, tem vindo a promover cortes profundos nos programas de investigação científica.

Mesmo assim, ninguém esperava que isso tivesse um impacto tão dramático na sua carreira de cientista, como aconteceu com Alessandra Camelo, de 25 anos.

“Tudo o que eu queria na vida era ser cientista”, diz Alessandra.

Depois de se formar em engenharia agrícola e ambiental, Alessandra integrou o programa de mestrado em energia, numa das principais universidades de investigação do Brasil, a Universidade de São Paulo. Desde então, passou um ano a estudar engenharia ambiental na Universidade de Chicago e trabalhou como académica visitante no programa de testes de bioenergia da Universidade Texas A&M.

O seu foco tem sido encontrar uma forma de tornar a produção de etanol mais eficiente. O seu objetivo de carreira? "Eu quero usar a ciência para trazer sustentabilidade e valor estratégico em grande escala para o Brasil."

A única coisa que a impede é o próprio Brasil.

No início do mês de abril, Bolsonaro anunciou que o orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação seria cortado pela metade e que as bolsas escolares para o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, chamado CNPq, a principal agência de investigação no Brasil, também seriam alvo de cortes.

O orçamento do CNPq, que sustenta bolsas de 80 mil brasileiros, já tinha sido drasticamente reduzido no início deste ano, pouco depois da tomada de posse de Bolsonaro. Agora, para esses estudantes, a situação é dramática: a expectativa é a de que todo o financiamento acabe até julho deste ano, sem planos para novos financiamentos no futuro.

Os brasileiros anteciparam que Bolsonaro faria reduções no financiamento cultural e académico, que era suportado pelos seus antecessores de esquerda, mas o próprio presidente da Academia de Ciências Brasileira, Luiz Davidovich, diz que ficou surpreendido com os cortes. Davidovich diz que Bolsonaro prometeu, numa carta enviada à academia antes de ser eleito, triplicar o investimento governamental em investigação e desenvolvimento. “Isto vai no sentido oposto à sua promessa”, diz Davidovich.

"Pessoalmente, estou muito preocupado com a situação que estamos a viver na ciência e inovação no Brasil", diz. "Os estudantes vão perder as suas bolsas de estudo, e os que conseguirem continuar a estudar serão forçados a usar equipamentos obsoletos ou a interromper as investigações que estão a fazer."

Mercedes Bustamante, professora na conceituada Universidade de Brasília, perita em estudos sobre ecossistemas, diz que os investigadores no Brasil já estão sob pressão para ajudar o mundo a compreender os impactos das alterações climáticas e do aquecimento global. Ela diz que, “embora a comunidade de investigação ambiental no Brasil se tenha fortalecido nas últimas duas décadas, agora enfrenta enormes desafios na continuação das suas investigações, especialmente as que envolvem pesquisa de campo em locais remotos, manutenção de equipamentos de investigação no terreno e análises laboratoriais mais sofisticadas". "Vinte porcento da biodiversidade mundial está aqui no Brasil", refere Davidovich. "A nossa investigação é o que protege essa biodiversidade; é como encontramos medicamentos mais baratos e tecnologia para reduzir o desmatamento. Este corte não prejudica apenas o Brasil, prejudica o mundo".

Estudantes Dedicados

Através do programa de bolsas de estudo do CNPq, os estudantes de mestrado de todo o país recebem 1.500 reais (€340) por mês, para frequentarem universidades publicas; os estudantes de doutoramento recebem um pouco mais, 2.200 reais (€500) por mês.

Muitos estudantes, como Mariana Ciotta de 23 anos, esperam receber apoio familiar para continuar os estudos. Ciotta estuda na Universidade de São Paulo, onde se concentra em identificar rochas que possam ajudar na captura de carbono. Ela diz que os cortes não colocam apenas o financiamento individual em risco, o corpo de investigação científica do Brasil também é afetado no seu todo.

“Isto não prejudica apenas o Brasil, prejudica o mundo.”

por LUIZ DAVIDOVICH, ACADEMIA DE CIÊNCIAS BRASILEIRA

“Creio que uma das grandes questões se prende com a continuidade das nossas investigações. Se acreditamos nas alterações climáticas, ideologicamente desejaríamos que este trabalho continuasse com outros investigadores para além de mim e, a longo prazo, com projetos que complementassem e contribuíssem para a minha investigação. Em vez disso, vai acabar.”

Thiago Gonçalves, professor de astronomia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, partilha essa perspetiva. "Na ciência, não terminamos os projetos em poucos meses. A ciência exige anos de trabalho e planeamento a longo prazo. Para mim, a pior parte é a forma como a ciência no Brasil está sujeita aos caprichos do governo. Num dia temos financiamento e no dia seguinte já não temos."

Gonçalves explica que enquanto na Europa e nos EUA os investigadores podem recorrer a financiamentos de entidades não-governamentais, "no Brasil, o acesso a fontes privadas de financiamento para a ciência é praticamente zero, aqui dependemos mesmo do governo.”

“Se perdermos os estudantes das bolsas, perdemos a mão de obra que precisamos para a nossa investigação.”

Alessandra Camelo, a estudante de bioenergia, é um exemplo de alguém que será profundamente afetado pelos cortes. Ao contrário de Ciotta, a família de Alessandra não pode financiar o seu trabalho. Alessandra vem de uma pequena cidade no interior do estado de Rio Grande do Sul, onde, diz ela, a sua família mal tem dinheiro para pagar a luz, muito menos para financiar as suas despesas na universidade. Por isso, trabalhou a servir à mesa, juntando dinheiro durante o ensino secundário, e hoje está orgulhosa por ser o primeiro membro da sua família a frequentar a universidade pública (na realidade, Alessandra é o primeiro membro da sua família a viver fora do estado). Os €340 que recebe mensalmente da bolsa destinam-se a cobrir os custos académicos e de vida em são Paulo, uma das cidades mais caras do Brasil.

Escolhas Difíceis

Sem financiamento, para as pessoas que estão na mesma posição que Alessandra, tudo o que trabalharam até agora desaparecerá de repente, terminando efetivamente as suas carreiras promissoras. A recessão económica que o Brasil atravessa há alguns anos também não ajuda; estes alunos serão reintegrados num mercado de trabalho deprimido, com currículos que impressionam nos laboratórios, mas que são inadequados para a maioria dos empregos. Conclusão, os cortes podem criar uma onda de choque em toda a economia brasileira.

Mas alguns alunos têm outra opção: sair do Brasil. Estudantes como Alessandra, cuja capacidade académica supera o apoio financeiro, olham agora para o estrangeiro – para a Europa, para os EUA – para continuar a sua investigação de mestrado e doutoramento. Mercedes Bustamante acrescenta que essa migração de investigadores brasileiros para o exterior "compromete a renovação das fileiras de cientistas ambientais no Brasil".

Alessandra teve sorte. O seu currículo exemplar assegurou-lhe um lugar, durante 3 meses, num instituto de investigação na Alemanha, o suficiente, espera ela, para aguentar até ao Natal. Ela tem esperança em atravessar o fio da navalha: brilhar mais do que qualquer outro candidato, alemão ou estrangeiro, na Alemanha – muitos dos quais, ao contrário dela, falam alemão fluentemente – e ganhar de alguma forma um lugar no programa de doutoramento alemão. Alessandra não hesita em admitir que está a ser forçada a integrar a exploração de cérebros científicos do Brasil.

“Sinto-me tão mal neste momento, quando olho para o meu futuro, sinto-me como lixo”, diz Alessandra. “É como se tudo aquilo para o qual trabalhei já não importasse.”

“Mas eu sei quem sou, e sei que vou trabalhar no duro. Vou continuar a trabalhar no meu sonho de ser cientista. Eu sonhava com isto muito antes deste governo aparecer.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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