Meio Ambiente

As Espécies Marinhas Estão a Desaparecer Mais Depressa que as Espécies Terrestres

As alterações climáticas estão a afetar mais intensamente as criaturas de sangue frio do mar. Quarta-feira, 8 Maio

Por Christina Nunez

À medida que as temperaturas globais sobem, os animais marinhos ficam mais vulneráveis à extinção que os animais terrestres – de acordo com uma nova análise feita a mais de 400 espécies de sangue frio.

Sem opções de fuga ao aquecimento, as espécies que vivem no oceano estão a desaparecer dos seus habitats, a um ritmo duas vezes superior ao que se verifica em terra, afirma um estudo publicado no dia 24 de abril na revista Nature.

O estudo, conduzido por investigadores da Universidade Rutgers, em Nova Jersey, é o primeiro a comparar os impactos das temperaturas no oceano e em terra, numa vasta gama de animais de sangue frio, desde peixes e moluscos a lagartos e libelinhas.

Apesar das investigações anteriores terem sugerido que os animais de sangue quente são melhores a adaptarem-se às alterações climáticas que os animais de sangue frio, este estudo em particular destaca o risco especial das criaturas marinhas. Os oceanos continuam a absorver o calor aprisionado na atmosfera pela poluição provocada pelas emissões de dióxido de carbono, aquecendo a água aos níveis mais elevados das últimas décadas, mas os habitantes submarinos, ao contrário dos terrestres, não têm o luxo de mergulhar num local “à sombra” ou numa “toca”.

“Historicamente, os animais marinhos vivem num ambiente que não sofreu grandes alterações de temperatura”, diz Malin Pinksy, biólogo e ecologista evolucionário que conduziu a investigação. “É como se os animais do oceano estivessem a atravessar uma estrada de montanha muito estreita, com penhascos de temperatura de ambos os lados.”

MARGENS DE SEGURANÇA ESTREITAS

Os cientistas calcularam as “margens térmicas de segurança” para 88 espécies marinhas e 318 espécies terrestres, determinando o aquecimento que conseguem suportar e o tempo que aguentam expostas aos limites de temperatura.

Para os habitantes dos oceanos, as margens de segurança eram mais estreitas perto do equador, enquanto que para os habitantes terrestres estas margens eram mais estreitas junto às latitudes médias.

Para muitos animais, o aquecimento já é demasiado. Segundo o estudo, a subida das temperaturas já fez desaparecer mais de metade das espécies marinhas do seu território histórico. Estas extinções locais acontecem com o dobro da velocidade verificada em terra.

“Estes impactos já estão a acontecer. Não é um problema qualquer abstrato do futuro”, diz Pinsky.

As estreitas margens de segurança para animais marinhos tropicais, como os peixes donzela-azul, abrangem uma média de 10 graus Celsius. “Parece muito”, diz Pinsky, “mas o problema é que as populações extinguem-se muito antes de atingirem os 10 graus de aquecimento.”
 

FOTOGRAFIAS DO OCEANO PACÍFICO

Até mesmo um grau ou meio grau de aquecimento, acrescenta Pinsky, pode originar problemas na alimentação, na reprodução e pode ter outros efeitos devastadores. Embora algumas espécies consigam migrar para novos territórios, outras – os corais e as anémonas do mar, por exemplo – não se conseguem mexer e entram simplesmente em extinção.

IMPACTO ABRANGENTE

"Este artigo é muito pesado porque contribui com dados concretos que suportam a teoria de que os sistemas marinhos têm algumas das maiores vulnerabilidades ao aquecimento climático", diz Sarah Diamond, ecologista e professora assistente na Universidade Case Western Reserve, em Cleveland, no Ohio, que não trabalhou no estudo. "Isto é importante porque os sistemas marinhos podiam passar despercebidos."

A maioria dos humanos gosta de viver em terra firme – apesar de muitos dos nossos alimentos e empregos estarem ligados a economias transoceânicas. Pinsky refere espécies como o halibute-atlântico, a solha-de-inverno e os moluscos bivalves Arcticidae que desapareceram dos seus habitats históricos e que são importantes para as pescarias.

Para além de cortamos nas emissões de gases de efeito estufa que estão a provocar as alterações climáticas, Pinsky diz que parar com a pesca em excesso, reconstruir as populações de peixes dizimadas por esse fator e limitar a destruição de habitat no oceano pode ajudar e evitar a perda de mais espécies.

"A criação de redes de áreas marinhas protegidas que funcionam como degraus, à medida que as espécies se deslocam para latitudes mais altas", acrescenta Pinsky, "poderia ajudá-las a lidar com as alterações climáticas daqui para frente".

PARA ALÉM DO MAR

O estudo da Rutgers reflete o quão importante é medir não apenas as alterações de temperatura, mas também a forma como esta afeta os animais, diz Alex Gunderson, professor assistente de ecologia e biologia evolutiva na Universidade de Tulane, em Nova Orleães, que não trabalhou no estudo.

E isso inclui aqueles que vivem em terra.

“Os animais terrestres só estão em menor risco que os animais marinhos se conseguirem encontrar zonas frescas à sombra, para evitar a luz solar direta e esperar que o calor extremo passe”, refere Gunderson.

"Os resultados deste estudo são mais uma chamada de atenção para protegermos as florestas e outros ambientes naturais devido ao amortecedor de temperatura que  fornecem à vida selvagem num mundo em aquecimento."
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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