Metade da Área Terrestre do Planeta Deve Ser Mantida no seu Estado Natural

Novos estudos afirmam que a conservação das terras deve duplicar até 2030, para prevenir o aquecimento perigoso e a perturbação de ecossistemas.quinta-feira, 2 de maio de 2019

Por Stephen Leahy
Um novo estudo adverte que a natureza, que fornece benefícios essenciais, desde o clima estável ao ar limpo, pode estar em risco.

Os líderes mundiais devem aumentar os seus compromissos para com a conservação da terra e da água, e devem fazê-lo rapidamente, para preservar um clima estável e uma boa qualidade de vida num futuro próximo, argumenta um novo estudo científico.

Os cientistas concluem que os países devem duplicar as suas áreas protegidas, para 30% da área terrestre, e adicionar 20% para áreas de estabilização climática, para um total de 50% de todas as terras mantidas no seu estado natural. Tudo isso precisa de ser feito até 2030, para termos uma esperança real de manter as alterações climáticas no limite da "zona de perigo", de 1.5 graus Celsius, e evitar que os ecossistemas do mundo desvaneçam – segundo um plano ambicioso chamado Acordo Global pela Natureza.

“Os benefícios de proteger a natureza em 50% até 2030 são tremendos”, diz Eric Dinerstein, diretor de soluções para a biodiversidade e vida selvagem na RESOLVE, uma organização sem fins lucrativos, e autor de um novo estudo publicado no dia 19 de abril, na Science Advances, intitulado “Um Acordo Global Pela Natureza: Princípios Básicos, Metas e Objetivos.”

Este é o primeiro plano científico com metas definidas sobre a importância vital de atingir esses objetivos, e apresenta também uma forma para o conseguir, diz Dinerstein. Ainda não foi assimilado por todos que as grandes áreas de floresta, as pastagens e as outras áreas naturais são necessárias para absorver as emissões de carbono, acrescenta. Florestas intactas, sobretudo as florestas tropicais, recolhem o dobro do carbono absorvido pelas monoculturas plantadas, por exemplo.

Os cientistas argumentam que só teremos boas possibilidades de atingir a meta climática de Paris, de menos de 1.5 graus Celsius de aquecimento, quando 50% da área terrestre do planeta estiver protegida, juntamente com cortes substanciais no uso de combustíveis fósseis e um crescimento acentuado na utilização de energias renováveis. Se o aquecimento ultrapassar os 1.5 graus Celsius, perderemos alguns dos sistemas naturais e os benefícios que fornecem à humanidade, incluindo a sua capacidade de absorção de carbono, diz Dinerstein.

“Não conseguirmos ter um clima mais seguro sem proteger 50% da Terra, e vice-versa.”

“Sem essas espécies, não existimos.”

“Cada bocado de comida, cada gole de água, o ar que respiramos, tudo isso resulta de um trabalho feito por outras espécies. A natureza dá-nos tudo o que precisamos para sobreviver”, diz Enric Sala, explorador National Geographic e diretor do trabalho da National Geographic Society feito em parceria com a Campanha pela Natureza Wyss, integrado na Campanha pela Natureza, que visa inspirar a proteção de 30% do planeta até 2030.

“Sem essas espécies, não existimos”, disse Sala, destacando que as estamos a perder a um ritmo acelerado e que estão perto do limite.

“Se tivéssemos de produzir o nosso próprio oxigénio, custar-nos-ia mil e seiscentas vezes o PIB mundial – se é que isso é possível”, disse Sala.

Alguns países já se comprometeram em proteger 17% das terras e 10% dos oceanos até 2020, de acordo com a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB). No entanto, a maior parte dos países não está a cumprir as metas para 2020, e os EUA não são signatários da convenção. A diretora da CDB, Cristiana Pașca Palmer, disse que metade do mundo deve ser protegida e que as nações vão considerar essa proposta numa reunião importante em 2020, na China.

Os autores do novo estudo – Acordo Global pela Natureza – mostram como se consegue atingir os 30% de proteção, em 67% das 846 ecorregiões terrestres, até 2030. Outras regiões precisariam de alguma restauração.

Notavelmente, estas áreas não devem ser interditadas, mas sim protegidas da extração de recursos e da conversão de terras. Seriam permitidas utilizações sustentáveis em todas as áreas menos sensíveis. Uma investigação recente descobriu que as comunidades em torno das áreas protegidas são geralmente mais favorecidas que as comunidades mais distantes.

Poupar terras para o clima

As áreas de estabilização climática são terras atualmente intactas, mas que estão, em grande parte, fora do sistema de proteção tradicional. Os governos só precisam de prevenir atividades que tenham impacto nas suas funções naturais. Dado que 37% das restantes terras naturais são indígenas, é crucial que estas sejam suportadas pelo Acordo Global pela Natureza, diz o estudo.

Embora o Acordo Global pela Natureza se concentre em zonas terrestres, os autores do estudo defendem o apelo da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) para a proteção de 30% dos oceanos até 2030. Os recifes de coral mundiais já estão sob tensão com apenas 1 grau de aquecimento, diz a equipa. Os cientistas temem que poucos corais consigam sobreviver caso as temperaturas excedam os 2 graus. Os corais não são apenas coloridos e bonitos de se observar, são viveiros para a maioria dos peixes no oceano e outras formas de vida marinhas, das quais dependem mais de mil milhões de pessoas.

“O Acordo Global pela Natureza é um apelo ambicioso e radical para que se faça algo para proteger a natureza”, diz Justin Winters, diretora executiva da Fundação Leonardo DiCarpio, que não esteve envolvida no estudo. Contudo, o objetivo de proteger metade do planeta não vai ter sucesso sem a compreensão e o envolvimento da opinião pública, acrescenta Winters.

Em 2017, a fundação lançou a One Earth Initiative para ajudar a criar uma visão do futuro, baseada em energia 100% renovável, proteção e restauração de 50% das terras e oceanos do mundo, e transitar para uma agricultura regenerativa.

A fundação está empenhada em demonstrar como o nosso bem-estar depende da natureza, disse Winters. “Esperamos inspirar as pessoas a agir.” As ações podem ter muitas formas, desde ajudar a manter as crianças ao ar livre e transformar um relvado num jardim de vida selvagem, às marchas em protesto e desobediência civil.

As alterações climáticas, a perda de espécies e o declínio de ecossistemas deu origem a um novo movimento de protesto chamado Extinction Rebellion. Este movimento é uma rede internacional que usa “ações diretas e não violentas para persuadir os governos a agir sobre as alterações climáticas e sobre emergências ecológicas”. Desde o seu lançamento, a 31 de outubro de 2018, em Londres, já foram detidos dezenas de protestantes em 25 países.

Os custos da conservação

Tomar as devidas medidas de conservação da natureza, para proteger metade da Terra, poderia custar cerca de mil milhões de euros anualmente, estima o estudo.

O dinheiro existe, mas só se as pessoas compreenderem a necessidade, diz Sala. Ele realça que foram doados, em menos de dois dias, quase mil milhões de euros para reconstruir a catedral francesa de Notre-Dame, após o incêndio devastador. De acordo com outro estudo, em 2009 foram pagos mais de 29 biliões de dólares no resgate financeiro da Reserva Federal dos EUA. Um bilião são mil milhões, portanto, 29 mil milhões de dólares poderiam financiar 290 anos de esforços de conservação, que protegeriam metade da Terra, ajudando a estabilizar o clima.

As compensações económicas de tal investimento na natureza poderiam ser na ordem dos biliões de dólares, tal como demonstrado pelos estudos. Talvez ainda mais importante, não temos realmente escolha, diz Sala.

“Temos apenas 10 anos para nos salvarmos.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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