As Plantas Ajudam a Absorver o Nosso Carbono – Até Quando?

Desde a era industrial que as plantas absorvem carbono, mas os cientistas temem que estas possam atingir rapidamente o seu limite.

Wednesday, May 29, 2019,
Por Sarah Gibbens
Florestas como a Hall of Mosses, no Parque Nacional Olympic, em Washington, são zonas críticas de ...
Florestas como a Hall of Mosses, no Parque Nacional Olympic, em Washington, são zonas críticas de absorção de carbono, regiões que absorvem mais carbono do que emitem.
Fotografia de Keith Ladzinski, Nat Geo Image Collection

Todos os arbustos, trepadeiras e árvores que nos rodeiam desempenham um papel fundamental na extração do excesso de carbono da atmosfera, e um novo estudo argumenta que as plantas continuam a ajudar a absorver o excesso destas emissões.

Mas, a qualquer momento as plantas podem atingir o seu limite de carbono, e a ajuda que têm dado, para colmatar os efeitos das alterações climáticas, pode começar a desaparecer. Saber exatamente quando é que isso vai acontecer é uma questão que os cientistas urgem em responder.

Desde o início da Revolução Industrial, no início do século XX, a quantidade de carbono libertada na atmosfera pela atividade humana aumentou rapidamente. Usando modelos de computador, os autores do estudo concluíram que a fotossíntese aumentou em 30%.

“É uma espécie de coisa positiva no meio dos céus negros”, diz Lucas Cernusak, um dos autores do estudo e ecofisiologista na Universidade James Cook, na Austrália.

O estudo foi publicado na revista Trends in Plant Science.

Como conseguem saber?
Cernusak e os seus colegas usaram dados de um estudo da Nature, de 2017, que mediu o sulfeto de carbonilo encontrado em amostras de gelo e de ar. Para além do dióxido de carbono, durante o seu ciclo natural de carbono as plantas também absorvem o sulfeto de carbonilo, e isso é frequentemente usado para medir a fotossíntese a uma escala global.

“As plantas terrestres removem cerca de 29% das nossas emissões que, de outra forma, contribuiriam para o crescimento da concentração de CO2 na atmosfera. O que a nossa análise de modelo mostrou é que o papel da fotossíntese terrestre, na absorção de carbono, é maior do que o estimado pela maioria dos outros modelos”, diz Cernusak.

A absorção de carbono refere-se à quantidade de carbono recolhida pelas plantas, e não ao carbono que estas podem emitir naturalmente através da desflorestação e respiração.

Mas alguns cientistas estão pouco confiantes sobre a utilização de sulfeto de carbonilo como método de medição da fotossíntese.

Kerrie Sendall, bióloga na Universidade da Geórgia do Sul, que estuda a forma como as plantas crescem sob diversas condições climáticas, partilha o seu ponto de vista.

Como a absorção de sulfeto de carbonilo feita pelas plantas pode variar consoante a quantidade de luz que estas recebem, Sendall diz que as estimativas do estudo “podem estar acima da realidade”, mas ela também realça que a maior parte dos métodos de medição global de fotossíntese têm um determinado grau de incerteza.

Ecológico e folhoso
Independentemente da taxa de crescimento da fotossíntese, os cientistas concordam que o excesso de carbono está a agir como um fertilizante para as plantas, potenciando o seu crescimento.

“Existem provas de que as árvores têm mais folhas e de que existe mais madeira”, diz Cernusak. “A madeira é onde grande parte do carbono é absorvida na massa da planta.”

Cientistas do Laboratório Nacional de Oak Ride observaram que quando as plantas são expostas a níveis crescentes de CO2, o tamanho dos poros nas suas folhas aumenta.

Na sua investigação experimental, Sendall expôs plantas ao dobro da quantidade de dióxido de carbono a que estavam acostumadas.

Sob essas condições de aumento drástico de CO2, “a composição dos tecidos das folhas é um pouco diferente”, diz Sendall. "É uma composição que dificulta a alimentação de herbívoros e o crescimento de larvas."

Ponto Crítico
Os níveis de CO2 na atmosfera estão a aumentar e presume-se que, eventualmente, as plantas não conseguirão acompanhar este ritmo.

"A resposta da absorção de carbono terrestre ao aumento de CO2 atmosférico continua a ser, até hoje, a maior incerteza nos modelos globais dos ciclos de carbono, e isso contribui em muito para as incongruências nas projeções das alterações climáticas", observa o Laboratório Nacional de Oak Ride no seu website.

O desmatamento de terras, para práticas pecuárias ou agrícolas, e as emissões de combustíveis fósseis são as maiores influências nos ciclos de carbono. Se esses dois fatores não forem reduzidos, os cientistas dizem que é inevitável atingir um ponto crítico.

“A retenção na atmosfera de quantidades de dióxido de carbono que emitimos será maior, aumentando rapidamente as concentrações de CO2 e ocorrências de alterações climáticas", diz Danielle Way, ecofisiologista na Universidade Western.

O que podemos fazer?
Cientistas da Universidade do Illinois e do Departamento de Agricultura dos EUA têm testado formas de alterar geneticamente plantas para armazenarem ainda mais carbono. A enzima, chamada RuBisCo, é a responsável pela captura de CO2 para a fotossíntese, e os cientistas querem torná-la mais eficiente.

Testes recentes de colheitas modificadas demonstraram que o reforço desta enzima traduz-se em aumentos de 40%, mas a sua utilização em grande escala para fins comerciais pode levar mais de uma década a ser implementada. Até agora, os testes só foram feitos em culturas comuns, como o tabaco, e o efeito da enzima sobre as árvores que capturam mais carbono não é completamente claro.

Em setembro de 2018, em São Francisco, grupos ambientalistas reuniram-se para elaborar um plano para salvar florestas, um ativo natural que eles afirmam ser a “solução climática esquecida”.

"Creio que os decisores políticos devem responder às nossas descobertas reconhecendo que a biosfera terrestre está atualmente a funcionar como um absorvente eficiente de carbono", diz Cernusak. "E devem tomar medidas imediatas para proteger as florestas, para que estas possam continuar a funcionar dessa maneira, e começar a trabalhar imediatamente para descarbonizar a nossa produção de energia".
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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