Sacos Biodegradáveis Enterrados Durante 3 Anos Mantêm Características

Novo estudo coloca em questão a viabilidade dos plásticos biodegradáveis na luta contra a poluição por plástico.Friday, May 10, 2019

Por Laura Parker
Um saco de plástico que esteve enterrado durante 3 anos ainda consegue transportar compras.

Richard Thompson, biólogo marinho britânico que dedicou a sua carreira ao estudo de resíduos plásticos, interroga-se há muitos anos sobre a forma como os sacos de plástico biodegradáveis se degradam na realidade.

Em 2015, Thompson e os seus alunos da Universidade de Plymouth enterraram um conjunto de sacos biodegradáveis no jardim da universidade.

Três anos mais tarde, quando os sacos foram desenterrados, descobriram que estes não só mantinham as suas características, como ainda conseguiam transportar mais de 2 quilos de compras.

“Fiquei surpreendido ao ver que três anos depois ainda conseguimos encher os sacos e transportar compras normalmente”, disse em entrevista à National Geographic. “Os sacos já não tinham a mesma resistência como quando eram novos, mas não se degradaram significativamente.”

As qualidades indestrutíveis dos sacos biodegradáveis são apenas uma de várias descobertas feitas num estudo inédito publicado na Environmental Science & Technology. A pesquisa documenta a deterioração de cinco tipos de sacos de compras que foram imersos em água, enterrados no solo ou expostos ao ar livre como se fossem lixo. Thompson e a sua equipa testaram sacos normais, distribuídos em lojas na área de Plymouth, e concluíram que nenhum – incluindo sacos compostáveis – se deteriorou eficazmente durante um período de 3 anos, não oferecendo assim quaisquer vantagens ambientais sobre os sacos convencionais.

O estudo destaca como o termo "biodegradável" pode confundir os consumidores, levando-os a acreditar que os sacos vão simplesmente desaparecer. As pessoas assumem que estão a ser mais responsáveis quando colocam os sacos biodegradáveis nos contentores de reciclagem, mas na realidade isso pode destruir os esforços de recolha de sacos convencionais (destinados a serem reconvertidos em sacos novos), alertam os cientistas. Os aditivos químicos presentes nos sacos biodegradáveis podem contaminar a mistura, inutilizando o processo.

“Os centros de reciclagem não querem sacos com ‘funções de autodestruição’ misturados com outros”, disse Thompson. “Precisam de materiais conhecidos e consistentes. Portanto, a questão gira em torno da forma como separamos os plásticos biodegradáveis dos plásticos convencionais. E falta saber como é que os consumidores conseguem livrar-se deles corretamente.”

FABRICANTE EM DESACORDO
O estudo irá provavelmente reacender a controvérsia que deflagrou no verão passado, quando a BBC apresentou resultados preliminares onde um dos sacos biodegradáveis, após um período de 2 anos, ainda não se tinha degradado.

A empresa Symphony Environmental Technologies, responsável pela manufaturação do saco intacto, criticou o estudo e questionou as credenciais de Thompson, dizendo que “ele não é um cientista de polímeros”.

Thompson, que foi distinguido com a Ordem do Império Britânico pela Rainha Isabel II, pela sua investigação sobre resíduos plásticos, disse que defende a investigação da sua equipa.

“Estamos completamente confiantes no nosso trabalho, como sempre estivemos. E o trabalho foi revisto na totalidade pelos nossos pares.”

CONTROVÉRSIA BIODEGRADÁVEL
Os sacos descartáveis são um dos produtos plásticos mais utilizados no mundo. São frequentemente usados por pouco tempo e estima-se que a União Europeia utilize cerca de 100 mil milhões de sacos por ano, com uma utilização anual per capita, em alguns países da UE, superior a 450 sacos. Enquanto procuramos soluções para a acumulação de resíduos plásticos na Terra, produtos que são anunciados como biodegradáveis são cada vez mais comercializados, oferecendo a promessa de uma resposta fácil no uso de sacos descartáveis. Mas em muitos casos, a biodegradabilidade pode ser apenas isso – uma promessa.

“Não existe nenhum material biodegradável mágico que desapareça em pouco tempo e em todos os ambientes a que possa estar exposto. Isso não existe”, diz Ramani Narayan, engenheiro químico na Universidade Estadual do Michigan e perito em biodegradáveis. Narayan não participou no estudo de Plymouth.

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Tanto as Nações Unidas como a União Europeia têm tomado posições contra os produtos biodegradáveis. A ONU, através de um relatório publicado em 2016, declarou abertamente que os plásticos biodegradáveis não são a solução para a poluição marinha por plástico. E a União Europeia recomendou no ano passado, com alguma controvérsia, a proibição de oxibiodegradáveis, que contêm aditivos projetados para acelerar o colapso das moléculas de polímero – mas de acordo com a maior fabricante britânica de “oxiprodutos”, a supracitada Symphony Environmental Technologies, “é o mesmo que uma folha de árvore a desaparecer sem deixar rasto”.

Este processo faz com que o saco se desintegre em pequenos microplásticos, levantando alertas sobre o efeito cumulativo dos microplásticos nos oceanos mundiais.

3 ZONAS DE TESTE
Thompson e a sua equipa testaram cinco tipos de sacos, incluindo um saco compostável, um saco convencional de polietileno de alta densidade e três tipos de sacos biodegradáveis. Dois dos sacos biodegradáveis eram oxibiodegradáveis. O outro saco biodegradável foi fabricado de maneira a degradar-se com um processo diferente.

Os sacos foram expostos ao clima em três locais diferentes. Para esta experiência, alguns dos sacos foram cortados em tiras e colocados em bolsas de malha. Também foram usados sacos inteiros em cada um dos locais de teste.

Para os testes feitos no solo, no jardim da universidade, foram enterradas amostras a 25 centímetros de profundidade. Para o teste de exposição ao ar livre, as amostras foram colocadas numa parede do jardim virada para sul. E para o teste marinho, foram submersas a um metro de profundidade no porto de Plymouth. Também foi montado um quarto local de testes laboratoriais para controlar a experiência.

As amostras foram colocadas no dia 10 de julho de 2015, e inspecionadas regularmente para verificar se tinham perda de superfície, buracos ou desintegração. Também foi medida a sua força para testar se quebravam sob tensão.

RESULTADOS COMPOSTÁVEIS
No espaço de um mês, os sacos e tiras no porto de Plymouth adquiriram um biofilme microbiano na superfície. O saco compostável desapareceu em três meses.

No local ao ar livre no jardim, após nove meses, todos os sacos e tiras estavam demasiado frágeis para se fazerem testes de tensão adicionais ou tinham-se desintegrado em microplásticos. Não podiam continuar a ser testados.

No local de teste no solo, os sacos estavam intactos. E apesar do saco compostável ter sobrevivido no seu formato original durante 27 meses, já não conseguia suportar qualquer peso sem se rasgar.

Narayan, o químico, diz que o estudo fornece dados reais que revalidam as limitações dos biodegradáveis. Mas questionou a inclusão de um saco compostável em testes para os quais não fora projetado. Sacos compostáveis, diz Narayan, devem ser descartados em centros industriais de compostagem e a maioria das nações mundiais exige instruções, nas etiquetas dos sacos, que descrevam isso claramente.

“É aqui que está a confusão”, diz. “O saco compostável só é biodegradável em ambientes industriais de compostagem e é projetado de propósito para ser tratado nesses ambientes.”

A Vegware, a empresa que fabrica os sacos compostáveis usados no estudo, disse em comunicado ao jornal The Guardian que tinha atualizado as etiquetas nos seus sacos com a seguinte inscrição: “compostável comercialmente em locais selecionados”.

A Symphony Environmental Technologies também afirma que os oxibiodegradáveis não se destinam à degradação em aterros sanitários, ou à submersão nas profundezas do mar. Em vez disso, os sacos oxibiodegradáveis são feitos com o intuito de se degradarem ao ar livre ou na superfície do oceano, disse Michael Stephen, vice-presidente da Symphony, em entrevista.

Os oxibiodegradáveis contêm estabilizantes que dão aos sacos um tempo de vida útil, disse Stephen, que impedem que estes se desintegrem quando levamos as compras para o carro. Normalmente, disse Stephen, as empresas de sacos querem que os estabilizantes funcionem durante um período de 18 meses.

“Quando os estabilizantes se esgotam e o produto atinge o seu tempo de vida útil, o catalisador entra em ação e o saco começa a degradar-se.”

Os tempos de degradação podem variar. “Num ambiente quente, degradam-se no espaço de um ano. Num ambiente seco e frio, talvez dois ou três anos, mas é sempre mais rápido que o plástico convencional”, disse Stephen. “Queremos dois anos ou queremos 100 anos?”

Imogen Napper, exploradora National Geographic e líder do estudo, disse que ao longo destes três anos notou "pouquíssimas alterações" nas amostras no solo. Ainda assim, ela duvidava que esses sacos conseguissem transportar compras. Por isso, encheu um saco com uma caixa de cereais, latas de refrigerantes, bananas, laranjas, bolachas e esparguete. "Os sacos estavam descoloridos e repugnantes, mas ainda eram utilizáveis", disse.

Thompson disse que o estudo não devia ser interpretado como um argumento contra o desenvolvimento de biodegradáveis ou compostáveis. “Na realidade, o estudo debate a necessidade de repensarmos quais são os produtos que funcionam melhor como biodegradáveis. Temos de ligar esses produtos à sua utilização adequada.”

Ambientes contidos, como estádios de futebol, podem ser mais apropriados para a utilização de produtos biodegradáveis ou compostáveis do que as lojas de retalho. Os sacos das compras, no final do seu tempo de vida útil, podem acabar em qualquer lado. Mas num estádio, as embalagens descartáveis de comida podem ser recolhidas e processadas em centros industriais de compostagem. “A ideia de termos tudo isto canalizado em fluxos de resíduos do mesmo género faz sentido”, disse Thompson.

E também sugeriu que um futuro melhor para os sacos de plástico poderia passar por invertermos o processo e apostarmos na qualidade que os tornou populares desde o início – durabilidade. Essa é a conclusão final do estudo: “Um saco que pode ser e é reutilizado muitas vezes é uma alternativa melhor à degradabilidade.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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