Cada Vez Mais Pessoas Comem Animais Marinhos – Com Efeitos Mortíferos

O consumo de criaturas marinhas que dão à costa está a tornar-se num perigo para a saúde pública e os governos não estão a conseguir lidar com a situação.terça-feira, 4 de junho de 2019

Por Craig Welch
Pessoas a recolher carne de baleias encalhadas, na Praia do Tofo, em Moçambique.

O aumento das populações humanas e o declínio do marisco em zonas como a África Ocidental originaram uma demanda por animais marinhos, como baleias, golfinhos, focas e tartarugas-marinhas: algo que os cientistas chamam de carne de caça marinha. Às vezes essa carne é consumida depois dos animais darem à costa já mortos, podendo provocar doenças ou a morte de quem a consome.

Os debates entre os especialistas de todo o mundo estão a ganhar forma: como devem as autoridades equilibrar um potencial perigo para a saúde pública com as necessidades de proteína – sobretudo em comunidades mais pobres?

Multidões reúnem-se em torno de duas baleias que deram à costa, numa praia de Moçambique, em abril. É sabido que o consumo de animais marinhos – acabados de morrer ou já em decomposição – é perigoso devido aos poluentes e toxinas marinhas mortíferas que se desenvolvem dentro deles.

Em abril, um incidente em Moçambique deixou bem patente que as questões inerentes a este problema são complexas.

Durante a noite, nos arredores de uma pequena aldeia na Praia do Tofo, deram à costa duas baleias-de-bico mortas. Por volta do meio-dia já se tinham reunido várias centenas de pessoas em torno dos animais, muitas dessas pessoas estavam munidas com machetes, ávidas para cortar bocados de gordura e de carne para suplementar as suas dietas de coco, peixe e amido.

Mas era impossível saber se o consumo de carne destas baleias era seguro. Ambas tinham falecido há relativamente pouco tempo, portanto a frescura não seria um problema, mas os animais podiam ter morrido de doença ou pela ingestão de peixe infetado com algas tóxicas, fatores perigosos para os humanos. No ano passado, pelo menos sete crianças, incluindo duas crianças em idade de amamentação, morreram em Madagáscar, depois das crianças e/ou as suas mães terem comido carne de uma tartaruga-marinha morta.

Quando Jessica Williams – bióloga de tartarugas-marinhas, que estava na praia perto de Tofo – chegou ao local, deparou-se com as autoridades a proteger as carcaças, enquanto aguardavam por alguém que as removesse da praia.

“Com o passar do dia, a multidão foi crescendo e a polícia começou a perder o controlo da situação”, diz Williams. “Estava um dia quente, as pessoas estavam a ficar famintas e o calor só piorava as coisas.”

Com a fúria crescente da multidão, a polícia acabou por arrastar uma das carcaças para longe, para dividir as pessoas. Mas as autoridades foram rapidamente dominadas e afastaram-se, dizendo às pessoas para levarem o que quisessem de uma das baleias. A baleia desapareceu por completo em 15 minutos.

"Infelizmente, esta história não é particularmente nova", diz Margi Prideaux, vice-presidente de um novo grupo de trabalho das Nações Unidas que estuda o consumo de mamíferos marinhos e de répteis. "As pessoas recolhem de forma oportunista esta carne há gerações. Mas, com tudo o que temos feito ao mundo, esta carne traz agora um nível de risco que não era normal."

Desenvolvimentos Modernos
As pessoas que vivem em zonas costeiras, da África do Sul à América do Sul, e da Indonésia à Tribo Makah ao longo da ponta noroeste dos Estados Unidos, consomem criaturas marinhas encalhadas há milénios. Na Islândia, por exemplo, uma baleia encalhada tem o nome de hvalreki, que significa "baleia encalhada" e "boa sorte inesperada".

Nas últimas décadas, os cientistas marinhos observaram um aumento no consumo humano de mamíferos marinhos e de répteis, incluindo animais geralmente encalhados nas praias. Alguns cientistas estão cada vez mais preocupados com o facto desse fenómeno poder representar ameaças sérias à saúde.

O Alasca tem de longe a taxa mais alta de botulismo dos Estados Unidos – nessa região, existem 800 vezes mais casos per capita – e alguns desses casos têm sido ligados à ingestão de baleias, focas e animais em decomposição ou em fermentação. Este ano, em Nome, um homem morreu de botulismo depois de comer uma barbatana de baleia-branca.

A proliferação de algas tóxicas, em parte devido às alterações climáticas, está a tornar-se cada vez mais frequente e duradoura, e os grandes mamíferos podem acumular essas toxinas nos seus corpos. Os mamíferos marinhos também transmitem doenças, da brucelose à toxoplasmose, que é a principal causa de morte nos EUA em doenças transmitidas por alimentos.

E alguns cientistas suspeitam que essas infeções, que surgem do manuseamento e ingestão de animais contaminados, são mal diagnosticadas e pouco notificadas nas zonas mais remotas de países em desenvolvimento, especialmente onde as carcaças de baleia são mexidas sem luvas ou qualquer tipo de proteção.

No Peru, um cientista que fez necropsias a centenas de pequenas baleias e golfinhos sofreu "convulsões com perda de consciência, mialgias e dores nas costas, febre e suores noturnos, fadiga crónica persistente, anorexia e perda de peso dramática" – todos os efeitos são consistentes com a brucelose.

A carne de tartaruga-marinha em particular pode ser bastante perigosa, especialmente as tartarugas-de-pente, que se alimentam de esponjas que são tóxicas para os humanos. Em 2010, na Micronésia, três pessoas morreram e vinte ficaram doentes depois de terem comido carne de tartaruga-de-pente. Em 2013, nas Filipinas, morreram mais quatro consumidores de tartarugas-marinhas. Em algumas partes da África do Sul as tartarugas-de-pente são conhecidas por "tartarugas caixão".

Em comunidades onde a pobreza e a fome são mais predominantes, comer animais marinhos encalhados – ou animais acidentalmente presos em equipamentos de pesca – levou à prática de novas operações pesqueiras que visam essas criaturas em particular.

Os golfinhos são agora regularmente caçados no Gana, em Madagáscar e no Peru. "A disponibilidade de carne de golfinho, que derivou originalmente da pesca acidental, levou a uma nova preferência por essa fonte não tradicional de proteína", escreveram os cientistas sobre o Sri Lanka em 2012.

Parte dessa carne, seja encalhada nas praias ou capturada intencionalmente, acarreta outros riscos da vida moderna. Poluentes – pesticidas, metais pesados e bifenilos policlorados (PCB) – acumulam-se dentro dessa carne. Nas Índias Ocidentais, descobriu-se que os cetáceos carregam muito mais mercúrio tóxico do que outros mariscos. Investigações feitas nas Ilhas Faroé ligaram problemas cardíacos, atrasos no desenvolvimento cerebral e outros problemas de saúde em crianças à carne de baleia consumida pelas suas mães.

A Nova Carne De Caça Selvagem
Tradicionalmente, a carne de caça selvagem refere-se a animais selvagens de florestas tropicais nas latitudes do sul, como macacos, morcegos, ratos e outros animais selvagens. Mas os investigadores começaram recentemente a mencionar uma classe inteira de marisco não-peixe, que inclui cetáceos, outros mamíferos marinhos e répteis marinhos, como carne de caça marinha.

Até há dois ou três anos, os gestores de vida selvagem não atribuíam grandes riscos ao consumo de carne de caça marinha. Mas agora, as preocupações são tão graves que o comité de Prideaux, em conjunto com a Convenção de Bona das Nações Unidas, está a tentar elaborar recomendações globais para ajudar os países a reagir.

Os desafios são enormes. Não existem dados estatísticos sobre a frequência do consumo de carne de caça marinha, e muito menos sobre a frequência de doenças daí derivadas. Os governos que mais precisam de linhas orientadoras estão muitas vezes reféns da escassez de recursos.

"Estamos a falar de um grupo de trabalho que tenta fornecer orientações para o mundo inteiro, e essas orientações precisam de ser o mais localizadas possível", diz Prideaux. "Em lugares como os EUA ou a Austrália, se houver a mais ínfima ameaça à carne nos supermercados, esses lotes serão recolhidos. Em algumas dessas comunidades, a dependência é tão forte que o risco de doença pode atingir os 1 em 100.”

“Precisamos de uma consciencialização governamental gigantesca para que as agências se preparem melhor e consigam seguir orientações genéricas de forma regional ou nacional”, acrescenta Prideaux.

Nem todos concordam com a existência de grandes riscos no consumo de carne de caça marinha. Phil Clapham, chefe da equipa de avaliação de cetáceos no Laboratório de Mamíferos Marinhos da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA, em Seattle, disse que na maioria das vezes as baleias que se alimentam de organismos filtradores não são prejudiciais ao consumo.

"É a base para a recente indústria baleeira e também é extensivamente usada, por exemplo, pelos nativos do Alasca", disse.

E apesar das baleias dentadas poderem ter mais contaminantes, dado que comem presas maiores que podem absorver mais toxinas ao longo da cadeia alimentar, não se sabe ao certo de que forma isso poderia afetar a saúde humana – mesmo em carne recolhida de baleias mortas numa praia.

Martin Robards, cientista no programa da Sociedade de Conservação de Vida Selvagem do Ártico, disse que, embora os casos de botulismo sejam mais elevados no Ártico do que noutros lugares, eles ainda não são propriamente comuns.

Mas, em alguns casos, o mesmo animal é partilhado por tantas pessoas que uma única fonte de contaminação pode afetar dezenas de famílias.

“Os problemas podem ser graves e colocar vidas em perigo”, diz Prideaux. “Mas estamos apenas a começar a compreendê-los.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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