Lojas de 1 Dólar Estão a Remover Plásticos Perigosos das Prateleiras

Sob pressão constante dos grupos de defesa dos consumidores, a cadeia de lojas Dollar Tree comprometeu-se em eliminar faseadamente os produtos químicos nocivos, como o BPA, dos seus produtos de plástico. Quem se segue?Thursday, June 6, 2019

Por Alessandra Bergamin
Na última década, as lojas de 1 dólar cresceram exponencialmente, expandindo-se em zonas urbanas de muita pobreza, inundando as cidades rurais dos EUA que são geralmente ignoradas pelas grandes cadeias comerciais. Embora estas lojas preencham um vazio, também podem estar a expor famílias a substâncias químicas nocivas, como PVC e ftalatos, encontradas principalmente em produtos plásticos mais maleáveis.

As lojas de 1 dólar, negócios omnipresentes que vendem um pouco de tudo, desde produtos de limpeza para casas de banho a ovos, estão a começar a emendar os erros apontados pelos grupos de defesa dos consumidores: muitos dos produtos plásticos nas suas prateleiras contêm químicos que podem ter efeitos graves na saúde dos consumidores.

No início do mês de maio, a Dollar Tree – uma das maiores cadeias americanas de lojas de 1 dólar – assinou um programa para ajudar a empresa a eliminar metais pesados, como o chumbo e produtos químicos nocivos, incluindo os aditivos plásticos bisfenol A (BPA) e ftalatos, dos seus produtos.

O Projeto Chemical Footprint (CFP na sigla em inglês) mede a pegada química de uma empresa e, de seguida, acompanha o seu progresso no sentido de usar alternativas mais seguras em toda a sua cadeia de abastecimento. Qualquer empresa envolvida com o CFP envia formalmente dados para o programa, começando com uma sondagem que estabelece uma linha de pontuação base.

Normalmente, o risco financeiro e a concorrência apertada entre as cadeias de lojas levam as empresas a entrar para o CFP. Mas com as lojas de 1 dólar, que servem basicamente comunidades com salários mais baixos, existiu pressão para salvaguardar estes grupos mais vulneráveis.

“A Dollar Tree é um caso onde sentimos que também se trata de justiça social”, diz Alexandra McPherson, líder de projeto na Investor Environmental Health Network, uma parceria de investimento que encoraja as empresas a juntarem-se à CFP. “Será que às pessoas que não conseguem comprar produtos orgânicos estão a ser vendidos, ainda que inadvertidamente, os produtos mais tóxicos?”

Nos últimos cinco anos, a Campanha por Soluções Mais Saudáveis – uma coligação de organizações nos EUA que se estende quase de costa a costa – pediu que as lojas de 1 dólar eliminassem gradualmente os produtos químicos nocivos dos seus produtos. Embora estes esforços se tenham lentamente transformado em ações, incluindo a promessa recente da Dollar Tree, as cadeias de 1 dólar nem sempre levaram em consideração as preocupações públicas. A campanha nasceu quando os defensores ambientais perceberam que, apesar de lojas como a Target e Walmart estarem a ser pressionadas por grupos de consumidores devido aos produtos tóxicos presentes nas suas cadeias de abastecimento, esse mesmo escrutínio estava a falhar nas quatro principais cadeias de lojas de 1 dólar, ou seja, na Dollar Tree, que recentemente adquiriu a Family Dollar, a Dollar General, e a 99 Cents Only Store.

“Nós percebemos desde sempre que enquanto pessoas de cor, em comunidades de salários mais baixos, estávamos desproporcionalmente expostos aos químicos”, diz José T. Bravo, o coordenador da campanha a nível nacional. “E estas são basicamente as comunidades invadidas pelas lojas de 1 dólar.”

Martha Cisneros, que esteve envolvida com a campanha através da rede feminina de trabalhadores rurais (Lideres Campesinas), vive numa dessas comunidades. Arvin, na Califórnia, uma cidade com 30.000 habitantes, predominantemente trabalhadores rurais latinos, abriga duas lojas de 1 dólar, mas fica a mais de 30 km de distância de qualquer estabelecimento comercial de grandes dimensões. Sem automóvel, essa é uma viagem impossível para Cisneros e, mesmo que ela conseguisse fazer a viagem, esta mãe de quatro filhos não tem a certeza de a poder pagar. Em vez disso, ela anda menos de um quilómetro, desde a sua casa móvel de um quarto, até à Dollar Tree nas redondezas. Na loja de 1 dólar, diz Cisneros, ela sabe que cada item – desde a meia dúzia de ovos, da qual a sua família depende, ao material escolar para a sua filha mais nova – custará apenas um dólar cada. Mas esses produtos acarretam riscos.

“Sinto-me mal por fazer as compras nestas lojas”, diz. “Mas eu nunca soube; ninguém me falou dos produtos químicos.”

Químicos tóxicos escondidos
Em 2014, os membros da Campanha por Soluções Mais Saudáveis recolheram mais de 160 produtos das lojas, como estojos e palhinhas, que foram depois testados para verificar a sua composição química. Descobriram que 81% dos produtos se revelaram perigosos em pelo menos um químico alarmante, como chumbo ou plástico policloreto de vinila (PVC). No entanto, entre os mais subtis estavam os ftalatos – um grupo de produtos químicos, incluindo DEHP e DIBP, que tornam o plástico macio e maleável.

Os ftalatos, como o BPA, são disruptores endócrinos, substâncias químicas que podem interferir com as hormonas corporais. Estas substâncias estão fragilmente ligadas aos plásticos onde são adicionadas, sendo facilmente removidas dos produtos, provocando exposição por ingestão, inalação e até mesmo contacto com a pele.

Estojos de lápis reluzentes, tapetes de banheira em forma de concha e bandoletes de plástico estavam entre os produtos com níveis de ftalatos acima dos limites regulamentares dos EUA. Estas substâncias, itens de plástico brilhantes e baratos, são sinónimo de crianças e lojas de 1 dólar.

“Se entrarmos numa loja de 1 dólar, cheira a plástico”, diz Carmen Messerlian, professora assistente de epidemiologia ambiental reprodutiva, perinatal e pediátrica na Escola de Saúde Pública Harvard T.H. Chan. "Conseguimos sentir o cheiro dos ftalatos."

Carmen Messerlian faz parte do Estudo de Saúde Ambiental e Reprodutiva, com base em Boston, Massachusetts – um corpo de investigação que explora a forma como as substâncias químicas ambientais podem afetar a saúde reprodutiva. Um artigo de 2016, publicado pela equipa, descobriu que entre as mulheres que passaram por uma gravidez assistida medicamente, as que tinham as maiores concentrações de DEHP (um tipo de ftalatos) na sua urina, tinham 60% mais probabilidades de abortar antes das 20 semanas de gestação do que as mulheres com menores concentrações. O estudo é o primeiro a observar como a exposição ao ftalato pode afetar os estágios iniciais da gravidez entre casais com problemas de fertilidade.

Outros estudos observacionais e investigações com animais relacionaram a exposição ao ftalato a problemas reprodutivos, obesidade, diabetes tipo II e problemas de desenvolvimento neurológico em crianças.

Para Deyadira Arellano, este último é especialmente preocupante. Na consulta pediátrica da sua filha de 3 anos, o médico disse estar preocupado com o seu desenvolvimento neurológico. Arellano, cliente habitual das lojas de 1 dólar e trabalhadora comunitária na área da saúde, na organização Texas Environmental Justice Advocacy Services, sedeada em Houston, envolveu-se com a Campanha por Soluções Mais Saudáveis durante a gravidez. As descobertas da campanha deixaram-na desconfiada em relação aos produtos das lojas de 1 dólar feitos de metais brilhantes ou de plásticos maleáveis. Depois da consulta, começou a questionar tudo.

“Comecei a questionar-me se seria do ar, da água, da comida para bebé, algo que eu tivesse comprado”, diz Arellano. “Ficamos presos nesta armadilha mental a pensar onde errámos.”

Magoar os mais vulneráveis
A exposição a disruptores endócrinos, incluindo ftalatos, é significativamente maior entre comunidades com salários baixos e minorias, muitas das quais já estão expostas a outros poluentes. Outro estudo descobriu que as exposições desproporcionais a disruptores endócrinos podem ser responsáveis pela maior taxa de diabetes entre as comunidades negra e hispânica. Mais recentemente, um estudo separou a exposição a disruptores endócrinos por raça e descobriu que as minorias suportavam desproporcionalmente os custos e a carga de doenças associadas a disruptores endócrinos, incluindo perda de QI e obesidade.

"É uma preocupação enorme verificar que alguns segmentos da população, pessoas que geralmente consideramos mais vulneráveis a problemas de saúde, têm menos acesso a produtos sem tantos químicos", diz Messerlian. "Infelizmente, isso significa que essas pessoas têm uma propensão maior para comprar produtos menos regulamentados."

Há pouco mais de uma década, o Congresso proibiu a venda e fabricação de “brinquedos e artigos para cuidados infantis” com concentrações de ftalato acima de 0,1%. Oito ftalatos, incluindo DEHP e DIBP, são atualmente regulados por essa lei. Na Califórnia, no Maine e em Nova Iorque, as políticas estaduais restringem ainda mais os ftalatos em produtos infantis. Atualmente, aguarda-se que o governador do estado de Washington aprove a lei de sanções mais forte do país na regulamentação de ftalatos. Mas, embora a política desempenhe um papel importante na proteção da saúde humana, esta também pode ser lenta e de alcance limitado.

Os níveis de ftalatos em utensílios domésticos comuns, como coberturas de mesa de plástico e tapetes antiderrapantes para banheiras, não têm restrições, apesar de estarem facilmente acessíveis às crianças. Depois, existe a questão de proibir ftalatos individualmente em vez sancionar todo o grupo. Essa abordagem, diz Messerlian, deixa os investigadores e os reguladores num jogo do gato e do rato em que uma substância química é banida e outra aparece no seu lugar. Para além disso, a investigação mostrou que os ftalatos substitutos podem ser tão ou mais prejudiciais que os regulados, tal como aconteceu quando o DINP e o DIDP substituíram o DEHP mais comum.

Pequenas vitórias
Em vez de esperar por uma política governamental que force uma adaptação, os membros da Campanha por Soluções Mais Saudáveis encorajaram as lojas de 1 dólar a seguir os exemplos de outros retalhistas, como a Target e Walmart, na eliminação de produtos químicos conhecidos. A Dollar Tree, que se recusou a fazer comentários para este artigo, já fez alguns progressos. José T. Bravo e outros líderes de campanha também se reuniram com executivos da Dollar General.

Numa declaração feita à National Geographic, os representantes da Dollar General afirmaram que a empresa está comprometida em vender produtos seguros que atinjam ou excedam os seus padrões de qualidade, bem como os requisitos legais e regulatórios.

"Os clientes podem comprar nas lojas Dollar General com confiança, sabendo que apoiamos firmemente os nossos produtos e as comunidades que orgulhosamente servimos", diz o comunicado. “Nós apreciamos o diálogo contínuo e positivo com a Campanha por Soluções Mais Saudáveis e com o senhor José Bravo.”

Após um protesto em frente à sua sede, em Los Angeles, no início de abril, um representante da loja 99 Cents Only também concordou em reunir-se com os membros da campanha. A loja 99 Cents Only não respondeu aos pedidos da National Geographic para comentar.

Apesar de José Bravo encarar estas reuniões como pequenas vitórias, ele gostava de ver as lojas de 1 dólar a irem mais longe do que lhes é exigido, transformando-se em retalhistas conscientes que fazem o que é correto para os seus clientes, trabalhadores e ambiente. Afinal de contas, para a maioria das pessoas envolvidas na campanha, e para as comunidades de salários mais baixos, comunidades rurais e minorias que representam, as lojas de 1 dólar são, muitas vezes, a sua melhor e única opção.

"No início da campanha, dissemos que não se trata de boicotar as lojas de 1 dólar", diz José Bravo. "Porquê? As nossas comunidades não têm grandes supermercados e, mesmo que tivessem, isso é algo que excede o nosso orçamento. Para nós, não existem alternativas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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