A Maioria dos Rios Está Contaminada com Antibióticos

Quase dois terços dos rios estudados continham antibióticos suficientes para piorar o crescente problema das bactérias resistentes a antibióticos.Monday, June 17, 2019

Por Alejandra Borunda
Rio Bramaputra, no Bangladesh. Algumas zonas dos rios no Bangladesh têm níveis de antibióticos 300 vezes acima do que é considerado seguro para o ambiente.

A cada ano que passa, os humanos produzem, prescrevem e ingerem mais antibióticos do que no ano anterior. Estas drogas têm feito maravilhas pela saúde pública, salvando milhões de pessoas de infeções potencialmente letais.

Mas depois das drogas terem cumprido o seu dever nos corpos humanos, a sua influência persiste no ambiente. Estas substâncias penetram no mundo exterior, onde a sua presença pode estimular o desenvolvimento de bactérias “resistentes aos antibióticos”. Num novo estudo que analisou 91 rios de todo o mundo, os investigadores encontraram antibióticos nas águas de quase dois terços das zonas analisadas, seja no Tamisa, no Mekong ou no Tigre.

Isto é muito importante, diz Alistair Boxoll, o cientista coautor do estudo e químico ambiental na Universidade de York, no Reino Unido. “Estas moléculas são biologicamente ativas e nós, enquanto sociedade, expelimos toneladas delas no ambiente.”

Isto é algo com potencial para afetar profundamente a ecologia dos rios – bem como a saúde humana.

Resistência crescente

Os antibióticos previnem infeções nocivas, salvando milhões de vidas todos os anos. Mas as populações de bactérias, contra as quais os antibióticos lutam, podem evoluir em resposta, criando resistência às drogas. Isto significa que uma infeção contraída por uma dessas bactérias “resistentes” é mais difícil e, às vezes, impossível de tratar. A diretora médica do Reino Unido, a professora Dame Sally Davies, diz que o problema piora de ano para ano e que, no futuro, pode representar uma "ameaça catastrófica" às capacidades médicas no combate às infeções.

De acordo com um relatório de 2016, todos os anos morrem cerca de 700.000 pessoas em todo o mundo devido a infeções resistentes aos antibióticos. Cientistas, especialistas médicos e autoridades em saúde pública temem que, à medida que a resistência aos medicamentos cresce, esse número possa disparar. Em 2014, um estudo comissionado pelo Reino Unido alertava para o facto de, até 2050, as infeções resistentes aos antimicrobianos poderem vir a ser a principal causa de morte em todo o mundo.

E a poluição antibiótica, na qual os antibióticos em excesso entram nos sistemas naturais e influenciam as suas bactérias, ajuda a acelerar o desenvolvimento de vertentes mais resistentes – e também perturba os delicados equilíbrios ecológicos dos rios e dos riachos, alterando a composição das suas comunidades bacterianas.

É algo que pode afetar todos os tipos de processos ecológicos, diz Emma Rosi, ecologista marinha no Instituto de Estudos de Ecossistemas Cary (em Millbrook, Nova Iorque), porque muitas bactérias desempenham papéis fundamentais nos ecossistemas fluviais, contribuindo para o ciclo de nutrientes, como o carbono ou o nitrogénio.

Um dos grandes problemas para os cientistas é ninguém saber exatamente onde, quando e em que quantidade os antibióticos fluem para o mundo natural. Muitos países têm poucos, ou nenhuns, dados sobre as concentrações de antibióticos nos seus rios. Por isso, Alistair Boxall e os seus colegas decidiram mapear a magnitude do problema.

À pesca de antibióticos

A equipa – que apresentou os seus resultados em finais de maio, na Sociedade de Toxicologia Ambiental e Química, em Helsínquia – reuniu um grupo de colaboradores de todo o mundo para recolher amostras de rios próximos: ao todo, encontraram substâncias em 72 rios, em todos os continentes, exceto na Antártida. Os cientistas usaram baldes para recolher amostras de água com um filtro, depois congelaram as amostras e enviaram-nas por correio aéreo, para o Reino Unido, para serem analisadas.

As amostras foram selecionadas para 14 tipos diferentes de antibióticos comuns. Nenhum continente estava imune: em 65% das amostras estudadas encontraram traços de pelo menos uma droga.

“O problema é realmente global”, diz Alistair Boxall.

Isto não é particularmente surpreendente, diz Rosi, porque “em qualquer lugar onde  são usados produtos farmacêuticos, as evidências são encontradas a jusante”.

Os nossos corpos não decompõem as drogas, portanto, o excesso é expelido pela urina ou sob a forma de desperdício. Em muitos países desenvolvidos, o lixo – e a sua carga de antibióticos – passa por uma estação de tratamento de águas residuais, mas nem as estações de última geração eliminam todos os medicamentos. Em locais sem estações de tratamento, os antibióticos podem fluir livremente para os rios e riachos.

Os dados coincidiram com as expetativas. As concentrações de muitos dos antibióticos eram mais altas a jusante das estações de tratamento e de depósitos de lixo adjacentes ao rio, e em locais onde os esgotos são encaminhados diretamente para as águas fluviais.

Num dos rios, no Bangladesh, as concentrações de metronidazol, um medicamento geralmente prescrito para infeções na boca e na pele, estavam 300 vezes acima do limite considerado “seguro” para o ambiente. No Danúbio, o segundo maior rio da Europa, os investigadores detetaram 7 tipos diferentes de antibióticos. Encontraram um – claritromicina, que é usado em tratamentos do foro respiratório, como a bronquite – em concentrações 4 vezes superiores aos níveis de “segurança”.

“De muitas formas, é semelhante ao problema da poluição por plástico”, diz Alistair Boxall. “O problema é que não pensamos no destino do nosso lixo, e que esse lixo tem uma vida para além de nós próprios.”

Até os vestígios mais fracos de antibióticos podem ter efeitos enormes no desenvolvimento de resistências, diz William Gaze, microbiológo ecologista na Universidade de Exeter. As bactérias são particularmente boas a trocar genes e evoluem rapidamente para responder a uma ameaça – como um antibiótico. Essa evolução pode acontecer na presença de concentrações muito baixas de drogas, concentrações como as que a equipa de investigação encontrou nos rios do mundo inteiro.

William salienta que são necessárias mais investigações até que os cientistas consigam perceber exatamente como é que funciona a evolução da resistência das bactérias aos antibióticos. “Está na hora das comunidades encontrarem soluções que impeçam a inundação dos rios com antibióticos, porque os efeitos na saúde humana são demasiado graves”, diz William.

“Existe uma tendência que afirma que devemos ter uma abordagem cautelosa, mas quando finalmente tivermos todas as provas científicas, pode ser tarde demais. Podemos estar a entrar numa era pós-antibióticos onde as pessoas se picam numa rosa, no seu jardim, e morrem de uma infeção incurável.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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