Meio Ambiente

Como Apagar 100 Anos de Emissões de Carbono? Plantar Árvores – Muitas Árvores.

Aumentar as florestas da Terra, com uma área do tamanho dos Estados Unidos, poderia reduzir o dióxido de carbono atmosférico em 25%.quarta-feira, 17 de julho de 2019

Por Stephen Leahy
Uma vista aérea do rio Vologda, na região de Vologda, na Rússia. Entre os países que podem ajudar a reduzir as emissões – com a plantação de novas florestas – a Rússia é um dos principais candidatos.

De acordo com o primeiro estudo a determinar quantas árvores a Terra conseguiria sustentar, se uma área do tamanho dos Estados Unidos fosse restaurada com florestas teria o potencial de apagar quase 100 anos de emissões de carbono.

Publicado no dia 4 de julho na revista Science, o relatório "O potencial global de restauração de árvores" revelou que existe terra suficiente para aumentar a cobertura florestal mundial em um terço, sem afetar cidades ou agricultura. Contudo, a quantidade de áreas adequadas vai diminuindo à medida que a temperatura global aumenta. Mesmo que o aquecimento global esteja limitado aos 1.5 graus Celsius, a área disponível para a restauração florestal pode ser reduzida em um quinto até 2050, devido às temperaturas demasiado altas para algumas florestas tropicais.

"O nosso estudo demonstra claramente que a restauração florestal é a melhor solução disponível neste momento", disse Tom Crowther, investigador no ETH Zürich e líder sénior do estudo.

Isto não altera a importância vital da proteção das florestas existentes e o abandono faseado dos combustíveis fósseis, já que as novas florestas levariam décadas a amadurecer, disse Crowther através de um comunicado.

"Se agirmos já, podemos reduzir o dióxido de carbono na atmosfera até 25%, para níveis registados pela última vez há quase um século."

Pode demorar mais de cem anos até conseguirmos adicionar florestas maduras o suficiente para obter uma redução satisfatória de carbono. Enquanto isso, a queima de combustíveis fósseis adiciona todos os anos 40 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) à atmosfera, disse Glen Peters, diretor de pesquisa no Centro de Pesquisa Internacional do Clima, na Noruega.

"A única forma de nos conseguirmos manter abaixo dos 1.5 ou 2 graus Celsius, é acabar com a emissão de combustíveis fósseis", diz Peters por email.

Isto significa que não podemos construir novas infraestruturas que dependam de combustíveis fósseis, e algumas das centrais energéticas já existentes precisam de ser desativadas precocemente, com base num estudo publicado no dia 1 de julho na revista Nature.

A remoção de CO2 em grande escala, através do reflorestamento, ajudará a compensar as emissões de setores como a aviação, onde as alternativas ainda não estão disponíveis, e talvez ajudem a baixar as temperaturas, disse Peters.

Árvores que ‘comem’ carbono
As árvores – e todas as plantas – usam a energia da luz do sol e, durante a fotossíntese, retiram dióxido de carbono (CO2) do ar e da água no solo. E no processo de conversão em madeira libertam oxigénio na atmosfera. As árvores, para além de capturarem CO2, também ajudam o solo a capturar quantidades significativas de carbono.

Os investigadores estudaram cerca de 80.000 fotografias de satélite de alta resolução de áreas florestais protegidas, numa variedade de ecossistemas, para determinar o nível natural de cobertura de árvores em cada ecossistema. Este processo foi combinado com o software de mapeamento Google Earth Engine para gerar um modelo preditivo capaz de mapear a cobertura possível de árvores em todo o mundo.

Mais de metade das potenciais áreas que podem restaurar árvores podem ser encontradas em apenas seis países: Rússia (151 milhões de hectares); EUA (103 milhões); Canadá (78 milhões); Austrália (58 milhões); Brasil (50 milhões); e China (40 milhões). Estes países têm muito potencial porque já removeram grande parte das suas florestas existentes, disse o principal autor do estudo, Jean-François Bastin, da ETH Zürich.

“Qualquer pessoa pode plantar uma árvore, e podemos começar a fazê-lo amanhã. A reflorestação pode dar-nos algum tempo para reduzirmos as emissões de carbono”, diz Bastin.

“Apesar das plantações de árvores conseguirem armazenar carbono, não suportam muita vida selvagem, como os polinizadores, cujo declínio é deveras preocupante.”

“Na minha opinião, o nosso estudo indica que precisamos de respeitar as florestas. Elas são o melhor aliado da humanidade para proteger o clima e o nosso sistema de suporte à vida."

Potencial de África
As áreas de terra adequadas para o cultivo de florestas são apenas um dos fatores. As florestas são muito mais importantes do que a sua capacidade de absorção de carbono. É nas florestas tropicais, por exemplo, que encontramos 90% de todas as espécies terrestres, disse Robin Chazdon, ecologista na Universidade do Connecticut.

As alterações climáticas não são o único desafio ambiental da humanidade. No início deste ano, uma avaliação global feita pelas Nações Unidas alertou para o facto de um milhão de espécies estarem em risco de extinção, ameaçando as próprias fundações das nossas economias, meios de subsistência, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida.

Fazer uma floresta nova demora muito tempo, por isso, precisamos de uma vasta gama de benefícios para os habitantes locais e para a sociedade em geral, para além da captura de carbono, disse Chazdon. A ecologista, em conjunto com outros 11 especialistas, usou imagens de satélite de alta resolução e as mais recentes investigações, revistas pelos seus pares, para classificar as regiões menos dispendiosas e arriscadas de reflorestar – regiões que forneciam os melhores benefícios em termos de carbono, água, vida selvagem e outros.

“Se não fizermos alterações substanciais, as condições de vida para a humanidade só vão piorar.”

por ROBIN CHAZDON, ECOLOGISTA NA UNIVERSIDADE DO CONNECTICUT

No total, identificaram mais de 100 milhões de hectares de florestas tropicais de terras baixas perdidas, espalhadas pela América Central e do Sul, África e Sudeste Asiático. Os resultados foram publicados no dia 3 de julho na revista Science Advances.

Os principais pontos de restauro florestal são todos em África: Ruanda, Uganda, Burundi, Togo, Sudão do Sul e Madagáscar. O reflorestamento de algumas das áreas marginais de cultivo e de pasto identificadas abrem boas perspetivas para a proteção de diversas espécies, com riscos e custos mais baixos, ao mesmo tempo que, com o apoio financeiro adequado, representam vários benefícios para as populações locais, explicou Chazdon.

Trajetos diferentes para o mesmo objetivo
A reflorestação pode assumir diversas formas – pastagens enriquecedoras com árvores, o cultivo de café ou de cacau sob um dossel florestal, ou a adição de “amortecedores” florestais para os parques nacionais e áreas protegidas, melhorando também o turismo.

“Muitos dos habitantes locais querem este tipo de coisas, mas para resultar, é preciso que se envolvam no processo e que o apoiem”, diz Chazdon.

Os povos indígenas e as comunidades locais detêm pelo menos metade das terras mundiais, incluindo a maior parte das florestas tropicais. As taxas de desmatamento são muito menores nas florestas onde as posses de terra indígenas são reconhecidas.

“Nós somos os guardiões destas terras há gerações… também sabemos restaurá-las de forma saudável”, diz Joan Carling, membro da tribo Kankanaey, nas Filipinas, e coorganizadora do Grupo Maioritário de Povos Indígenas para o Desenvolvimento Sustentável.

“Se as nossas terras e recursos estiverem salvaguardados, podemos impedir que os nossos territórios estejam à mercê da extração destrutiva de madeira, da mineração, dos agronegócios e de outros projetos”, diz Carling por email.

Essa salvaguarda está ameaçada em muitas regiões – mais recentemente no Brasil. De acordo com as últimas informações, o novo governo brasileiro está a acelerar o desmatamento da floresta amazónica. As imagens de satélite revelam que a cada minuto perdemos o equivalente a um campo de futebol de área florestal. Em junho, a perda florestal estava 88% acima da verificada em 2018.

No entanto, estão a ser feitos vários esforços para proteger as florestas existentes e plantar muitas mais, incluindo o Desafio de Bonn, onde 59 países concordaram em restaurar 150 milhões de hectares de floresta até 2020, e 350 milhões de hectares até 2030.

Ao abrigo da Declaração de Nova Iorque sobre Florestas, diversos países comprometeram-se em reduzir para metade a taxa de desmatamento até 2020, e restaurar centenas de milhões de hectares de terras degradadas até 2030. E a Campanha Trillion Tree está a mobilizar crianças das escolas e comunidades do mundo inteiro que já plantaram 13.6 mil milhões de árvores desde 2007 – ano em que o alemão Felix Finkbeiner, de 9 anos, lançou a ideia.

“Se não fizermos alterações substanciais, as condições de vida para a humanidade só vão piorar”, disse Chazdon. “A reflorestação pode resolver muitos problemas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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