Meio Ambiente

Em 15 Anos, a Europa Teve 5 dos Verões Mais Quentes dos Últimos 500 Anos

O continente europeu lutou com dias de 38 graus em junho – e interroga-se sobre como vai lidar com os anos mais quentes que se avizinham.Monday, July 8, 2019

Por Stephen Leahy
No dia 26 de junho, parisienses e turistas brincam na Fonte do Trocadero, do outro lado do rio Sena, a partir da Torre Eiffel, para se refrescarem.

Em finais de junho, a Europa sentiu novamente os efeitos sufocantes de uma vaga de calor. As altas temperaturas atingiram os 37.8 graus em algumas zonas de França, Alemanha, Polónia e Espanha, com dias mais quentes pela frente. No ano passado aconteceu o mesmo – o calor foi responsável por 700 mortes na Suécia e mais de 250 na Dinamarca, países que nunca precisaram de ar condicionado antes desta nova era de eventos extremos movidos pelas alterações climáticas.

Os 5 verões mais quentes da Europa dos últimos 500 anos ocorreram nos últimos 15 anos, sem incluir este verão. Todos foram mortíferos. A vaga de calor de 2003 foi a pior, onde mais de 70.000 pessoas perderam a vida; e em 2010, na Rússia, morreram 56.000 pessoas.

Estes eventos de calor extremo estão todos ligados a uma corrente de jato mais lenta que bloqueia os sistemas climáticos, afirma Michael Mann, da Universidade Penn State. No ano passado, Mann foi coautor de um estudo que fazia a ligação entre o abrandamento da corrente de jato – um fluxo de ventos de alta altitude que percorre o mundo todo – e as secas sem precedentes do verão passado, as vagas de calor, os incêndios e as inundações em todo o hemisfério norte. E é provável que este fator também seja responsável pelas chuvas fracas na monção da Índia, e pelas inundações generalizadas na região Centro-Oeste dos EUA este ano.

"Os meus colegas no PIK (Instituto Potsdam para a Investigação sobre o Impacto Climático) verificaram que é isso que está a acontecer agora na Europa", disse Mann por email.

A perda de gelo marinho no Ártico está a impulsionar o aquecimento nas regiões mais setentrionais do planeta, afetando os padrões naturais da corrente de jato, disse Dim Coumou, da Vrije Universiteit Amsterdam e do PIK. Os ventos da corrente de jato são influenciados pelas diferenças de temperatura entre o ar gelado do Ártico e o ar quente dos trópicos. Um Ártico em rápido aquecimento – no inverno passado, a camada de gelo era a mais reduzida de sempre – diminui as diferenças de temperatura, reduzindo também a velocidade da corrente de jato.

Como um rio que se move em câmara lenta, um jato mais lento forma meandros profundos, que podem estagnar durante o verão, às vezes durante semanas. Os padrões climáticos acompanham essa estagnação, sejam vagas de calor ou chuvas torrenciais.

Embora as temperaturas na Europa não tenham atingido os níveis que se verificaram na onda de calor de um mês na Índia – as temperaturas no subcontinente asiático atingiram os 51°C – a maioria dos europeus, particularmente no norte, não está habituada a temperaturas acima dos 29 graus. Em grande parte da Europa, a utilização de aparelhos de ar condicionado continua a ser rara. Por exemplo, em França apenas 5% dos lares usam ar condicionado, e na Alemanha são menos de 2%.

Noites quentes na cidade
Nas cidades europeias, o número de dias com vagas de calor é quase o dobro dos verificados nas paisagens suburbanas e rurais, devido ao efeito urbano das ilhas de calor, disse Jürgen Kropp, do PIK. O betão e o asfalto absorvem o calor durante o dia e libertam-no durante a noite, mantendo as áreas urbanas mais quentes. Até ao final deste século, se não existirem cortes significativos nas emissões de carbono, o número de dias com vagas de calor nas cidades poderá aumentar 10 vezes, disse Kropp. "Em Berlim, assistimos recentemente ao dia mais quente de sempre no mês de junho."

Existe um debate real sobre como lidar com o aumento do calor, continuou Kropp. Mas os ares condicionados aumentam o consumo de energia, aumentando também as emissões de carbono na Alemanha, e prejudicam as alterações climáticas. A maioria dos alemães quer mais ações ao nível do clima, disse Kropp – mas as unidades portáteis de ar condicionado têm agora a maior procura de sempre.

A Europa aprendeu com a vaga de calor de 2003, que matou mais de 70 mil pessoas em todo o continente, disse Richard Keller, professor de história médica na Universidade de Wisconsin-Madison. Este ano, o número de fatalidades deve ser mais baixo, disse Keller, autor de Fatal Isolation, um livro sobre a vaga de calor que matou milhares de pessoas em Paris em 2003. "A França está mais precavida, os serviços de emergência estão em funcionamento e a consciencialização dos perigos é muito maior", disse Keller.

Algumas escolas em França estão fechadas – quase nenhuma tem ar condicionado, disse Keller. Nas zonas mais movimentadas da cidade foram instaladas áreas de refrescamento e fontes temporárias de água; os parques e as piscinas continuam abertos até mais tarde. Em Paris, os carros mais antigos estão banidos da cidade para neutralizar o agravamento da vaga de calor através da poluição.

Uma redução nos níveis de poluição pode ser um dos pontos positivos para os fãs do Mundial de Futebol feminino organizado em França.

“O calor não vai ser um problema para as jogadoras”, disse Keller. “Elas são atletas de alto nível, conseguem suportar estas condições. Os fãs é que estão em risco.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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