Meio Ambiente

O Problema ‘Aderente’ das Películas de Plástico

As películas de plástico podem ajudar a conservar a nossa comida, mas poluem o planeta. Existe uma solução melhor?sexta-feira, 26 de julho de 2019

Por Sarah Gibbens
As películas de plástico foram descobertas por acidente num laboratório, na década de 1940. Agora existem mais de 100 marcas por onde escolher.

O rolo liso e transparente que hoje conhecemos como película de plástico surgiu originalmente de um erro de química – um resíduo que ficou teimosamente agarrado ao fundo de um copo de precipitação, num laboratório da década de 1940. Inicialmente, a película foi usada pelos militares para proteger os seus equipamentos e aviões da água. Atualmente, os consumidores de todo o mundo têm mais de uma centena de marcas à disposição.

As películas de plástico são muito populares nos Estados Unidos. Um grupo de investigação industrial descobriu que, nos últimos 6 meses, quase 80 milhões de americanos usaram pelo menos um rolo de película, mas mais de 5 milhões de americanos passaram por mais de 10 milhões de embalagens. Os usos comerciais em supermercados e exportações são responsáveis pelos 3 milhões de toneladas adicionais que as empresas esperam produzir em 2019.

Embora a película barata mantenha os alimentos frescos durante mais tempo, existem várias contrapartidas: as películas de plástico contribuem para a enorme crise da poluição por plástico, são difíceis de reciclar e são feitas de químicos potencialmente nocivos, sobretudo quando se desfazem no ambiente.

"Se olharmos para trás, para a década de 1950, quando não tínhamos um armazenamento de alimentos tão eficaz como o que temos agora, conseguimos perceber a sua popularidade", diz Leah Bendell, especialista em ecotoxicologia marinha na Universidade Simon Fraser.

“Há 70 anos não havia plástico, mas no período pós-guerra surgiram os químicos que nos iam abrir as portas para esse admirável mundo novo. Os pesticidas, os herbicidas e os plásticos desempenharam um papel importante nisso tudo”, diz Leah.

Os Plásticos Explicados Em Minutos
Os Plásticos Explicados Em Minutos

Liso e verde
Ralph Wiley descobriu o cloreto de polivinilideno (PVDC) enquanto trabalhava no laboratório de física da Dow Chemical, em Midland, no Michigan, e apelidou-o de “eonite” – tal como o material fictício e indestrutível dos livros de banda desenhada de Annie, A Pequena Orfã.

O seu trabalho consistia em criar um novo produto a partir de hidrocarbonetos e cloro, dois subprodutos da fabricação do agente de limpeza a seco percloroetileno.

A nova substância química era tão resistente à água que nem a conseguiam limpar do seu frasco de destilação. As moléculas de PVDC unem-se com tanta força que são quase impenetráveis pelas moléculas de oxigénio e de água. Essas propriedades tornaram o material famoso nos esforços de guerra e nas cozinhas americanas, dando origem à marca Saran Wrap.

Na década de 1960, a empresa australiana GLAD criou a sua própria versão das películas de plástico – embora menos aderente – a partir de polietileno. As películas da Saran Wrap, depois dos consumidores ficarem preocupados com os impactos do cloreto nas embalagens de comida, também começaram a ser feitas de polietileno.

Os consumidores de todo o mundo podem comprar películas de plástico feitas de PVDC, PVC, polietileno e algodão encerado.

Atualmente, os consumidores de todo o mundo têm à sua disposição películas de plástico feitas de PVDC, PVC e polietileno.

Infiltração do plástico no ambiente
Os plásticos mais finos e frágeis são difíceis de reciclar; sem equipamento especializado, encravam as máquinas. Reciclar películas de plástico é mais dispendioso do que usar materiais virgens. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o PVC e o PVDC, quando acabam em aterros ou em incineradoras, podem libertar uma substância química altamente tóxica chamada dioxina.

Em ambientes marinhos, as películas de plástico contribuem para o aumento da crise da poluição por plástico, mas, ao contrário de outros plásticos, os cientistas estão agora a descobrir que o PVC e o PVDC são ótimos a recolher bactérias e metais. Estes pedaços de microplástico contaminado afetam os peixes que os confundem com comida.

Apesar de os ativistas ambientais defenderem tendencialmente a eliminação completa do produto, os fabricantes apontam o dedo às infraestruturas desatualizadas.

Scott Defife, vice-presidente para os assuntos governamentais da Associação da Indústria de Plásticos dos EUA, diz que as películas de plástico podiam ser facilmente recicladas se a infraestrutura de recolha de lixo não fosse "deficiente".

“Queremos que o governo faça investimentos”, diz Scott. “O governo devia encarar isto como um problema de utilidade pública, tal como acontece com as estradas e pontes.”

A Associação da Indústria de Plásticos alega que as películas de plástico são uma maneira eficaz de reduzir o desperdício de alimentos, mantendo-os frescos.

FONTES: MORE RECYCLING; U.S. PACKAGING AND WRAPPING; HARVARD BUSINESS REVIEW; STATISTA; CLEAN AIR COUNCIL

“Cada um destes materiais foi desenvolvido por uma razão”, diz Scott.

Preocupações com a segurança
O PVC e o PVDC diferem ligeiramente nas suas composições moleculares de cloreto. A Saran Wrap inclui um pouco de cloreto de vinil nos seus produtos, geralmente 13%, e normalmente ambos os compostos têm aditivos tóxicos, disse Leah. Nos EUA, a Food and Drug Administration regula ambos e tenta limitar a migração de PVC e PVDC para os alimentos, numa fração inferior a 1%. Com esses níveis de exposição, é pouco provável que alguém fique envenenado pelas películas de plástico.

“Se tivermos um prato de refeições feito de PVC, isso representa um risco para a nossa saúde? Provavelmente não”, diz Rolf Halden, cientista ambiental no Instituto de Biodesign da Universidade Estadual do Arizona. “Mas se nos rodearmos de PVC e de ftalatos, que podem lixiviar ou escoar dos produtos, ficamos sob uma exposição indesejada.”

Com o intuito de os tornar mais macios, flexíveis e transparentes, os plásticos são muitas vezes misturados com plastificantes, sobretudo em embalagens de comida, diz Ramani Narayan, engenheiro químico na Universidade Estadual do Michigan. Uma das classes mais comuns de plastificantes é um grupo de moléculas chamado ftalatos – uma categoria que contém elementos cancerígenos – embora o plástico de PVC já não contenha ftalatos. O PVC contém um plastificante chamado DEHA, ou adipato de dietil-hexila, mas os seus efeitos na saúde humana ainda não são completamente conhecidos.

PLANETA OU PLÁSTICO?

Três coisas que pode mudar para fazer parte da solução:
1. Troque a película de plástico por alternativas reutilizáveis de cera.
2. Armazene a comida em recipientes de vidro.
3. Cubra os alimentos com papel de alumínio em vez de película de plástico.

A marca Stretch-Tite faz películas de plástico que contêm PVC. Através de email, a empresa refere que os seus produtos não contêm substâncias químicas cancerígenas, como o BPA e os ftalatos, e alega que as preocupações com a segurança, relativamente às películas de plástico, não são baseadas em dados científicos concretos.

Rolf diz que, “ao contrário dos agentes patogénicos infecciosos, os efeitos da exposição a substâncias químicas tóxicas podem levar décadas a manifestar-se.” E é muito complicado conseguirmos ligar diretamente o aumento de cancros aos produtos químicos usados nas películas de plástico.

À procura de alternativas
Antes de os plásticos invadirem os corredores dos supermercados, o papel de cera era muito usado, e é esse papel de cera, na sua forma reutilizável, que oferece agora uma alternativa aos plásticos descartáveis.

A marca Bee’s Wrap faz revestimentos com cera de abelha, óleo de jojoba, resina das árvores e uma tira fina de algodão. O calor das nossas mãos liberta os seus componentes, tornando-os mais flexíveis e pegajosos.

Steve Reble, coproprietário de uma start-up chamada Etee, diz que foi inspirado pela forma como os antigos egípcios embrulhavam as múmias, criando a sua própria versão de um invólucro reutilizável, revestindo uma tira fina de algodão com uma camada de cera.

Apesar de ambas as empresas serem relativamente recentes – a Bee’s Wrap foi fundada em 2012 e a Etee em 2017 – estão a atrair uma demografia de consumidores que procura alternativas aos plásticos descartáveis.

Steve Reble diz que, nos últimos dois anos, os invólucros de comida da Etee eliminaram mais de 92 milhões de metros quadrados de plástico. Katie Flagg, representante da Bee’s Wrap, diz que a empresa cresceu 87% no ano passado.

O grupo Nielsen, um grupo de informação aos consumidores, estima que, até 2021, os norte-americanos vão gastar cerca de 150 mil milhões de dólares numa vasta gama de produtos sustentáveis.

“Estamos a ficar cada vez mais experientes na forma como interagimos com os nossos recursos”, diz Katie Flagg.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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