Meio Ambiente

Trufas Preciosas Lutam Para Sobreviver à Intensificação das Secas na Europa

Os verões no sul da Europa estão ficar cada vez mais quentes e secos, e as trufas sentem esses efeitos.quarta-feira, 31 de julho de 2019

Por Alejandra Borunda
As trufas negras são apreciadas em todo o mundo pelo seu aroma e sabor. Mas as alterações climáticas estão a dificultar o seu crescimento.

Nos bosques de carvalho, no nordeste de Espanha, as coisas não estavam bem.

As delicadas e perfumadas trufas que os agricultores costumavam apanhar nas raízes das árvores estavam a ficar cada vez mais difíceis de encontrar, disseram os agricultores a Ulf Büntgen, cientista na Universidade de Cambridge. Talvez as árvores da região estivessem com problemas de saúde, disseram, ou talvez algo estivesse a mudar no habitat da zona.

Büntgen falou com agricultores em Itália. Depois, conversou com agricultores em França. Ao longo do Mediterrâneo ocidental, Büntgen ouviu sempre a mesma história: algo não estava bem com os valiosos fungos.

Büntgen, cientista climático, ao ouvir as mesmas histórias numa região tão vasta, pensou: Talvez exista um padrão climático a impulsionar isto tudo. E as alterações climáticas podem estar a exacerbar estes problemas.

Foram necessários vários anos para definir os detalhes, mas agora, Büntgen e uma equipa descobriram essa ligação. Num estudo publicado na Environmental Research Letters de julho, foi revelado que a produção de trufas é altamente sensível à quantidade de chuva que cai no verão antes da colheita.

E no Mediterrâneo ocidental, nos últimos 40 anos, com a intensificação das secas e o aumento da temperatura, os padrões das chuvas de verão alteraram-se. Estes fatores têm colocado sob tensão o sistema natural e delicado que as trufas precisam para sobreviver.

"Quando observamos padrões sincronizados numa região tão vasta, geralmente o catalisador é o clima", diz Büntgen.

Trufas adoram carvalho
As trufas são muito valiosas e estima-se que o seu mercado global ultrapasse os 6 mil milhões de dólares nos próximos 10 anos.

Isto deve-se, em parte, ao facto das trufas serem fungos manifestamente sensíveis. Algumas variedades, como a trufa branca, que é altamente preciosa, não podem ser cultivadas. Estas trufas encontram-se apenas em algumas florestas remanescentes de carvalho velho e intacto, por toda a Europa, e geralmente são vendidas por mais de 2 mil euros o quilo (e às vezes por muito mais).

Outras variedades, como a trufa negra mais comum, podem ser cultivadas, ainda que com imperfeições.

Estes fungos crescem no subsolo, aninhados na fina rede de pequenas raízes dos carvalhos, numa espécie de simbiose. As trufas retiram pequenas porções de água e de açúcar das raízes das árvores hospedeiras e, em troca, alimentam as árvores com nutrientes do solo. Os detalhes exatos desta parceria ainda estão envoltos em mistério, já que os cientistas não conseguem estudar estas interações subterrâneas. Assim que desenterram uma trufa para a estudar, o seu habitat é destruído, ou seja, fazer análises de forma continuada é praticamente impossível.

Desde o início do século XIX, os agricultores em Espanha, Itália e no sul de França cultivam lotes de árvores “amigas” das trufas e cuidam delas de formas que, acreditam os agricultores, estimulam o crescimento dos fungos. Mas à medida que as práticas agrícolas se intensificaram por todo o continente, as antigas florestas de carvalhos começaram a ser devastadas – levando à perda das trufas associadas.

Na década de 1950, para reverter esta situação, os produtores, cientistas e comunidades começaram a descobrir formas de cultivar os preciosos fungos, desenvolvendo “plantações” semiestruturadas de carvalhos que conseguiam sustentar o crescimento de trufas. Hoje, cerca de 400 mil hectares de plantações de trufas – espalhados por Espanha, França e Itália – fornecem perto de 80% de todas as trufas no mercado legal.

Muitos dos produtores instalaram sistemas de irrigação para manter as árvores saudáveis durante os verões quentes e secos do sul da Europa. Outros tentam incentivar a biodiversidade das suas trufas, ou testam técnicas diferentes de inoculação. Mas mesmo com todas estas ferramentas e estratégias, as colheitas anuais continuam a ser uma incerteza. Um dos potenciais problemas, segundo os cientistas e alguns dos produtores de trufas, é um clima em mudança.

“Os produtores estão completamente cientes dos impactos climáticos”, diz Yildiz Aumeeruddy-Thomas, antropólogo cultural no Centro Nacional de Pesquisa Científica, em França, que trabalhou com comunidades de cultivo por toda a Europa. "Estes produtores são observadores privilegiados das complexas interações entre o clima e o ambiente – e da forma como afetam as trufas."

Alterações climáticas e trufas
Para os observadores mais atentos do sistema de trufas, existia um conjunto ideal de condições: boas chuvas na primavera. Verões quentes com alguns episódios de chuva. Invernos moderados. Com estas condições, alguns anos eram muito bons e as trufas abundavam.

Mas alguns anos eram muito maus. E os piores foram os anos com verões longos, quentes e secos. E quando Büngen e os seus colegas começaram a estudar os 49 anos de dados que tinham à sua disposição, perceberam que as condições intensas de verão se tornaram cada vez mais comuns no sul da Europa, entre 1970 e o início dos anos 2000 – e coincidem com os anos em que as colheitas de trufa foram particularmente más.

A equipa descobriu que não era propriamente a temperatura que estava a impulsionar este padrão, mas sim a quantidade de chuva que caía durante o verão, antes da colheita anual de inverno. O calor parece agravar a situação, já que as temperaturas mais altas aumentam os efeitos da seca sentidos pelas árvores. Mas a partir dos anos 1990, a chuva parece ser o fator mais importante.

Surpreendentemente, esse padrão também se mantém nas plantações com sistemas de irrigação, sugerindo que a água preciosa e dispendiosa não faz efeito.

Os cientistas climáticos preveem que as secas se vão intensificar com o aquecimento do planeta. E isso pode fazer com que as trufas negras atinjam os seus limites de sobrevivência na Europa, diz Paul Thomas, cientista especializado em fungos da Universidade de Stirling, no Reino Unido.

"Até 2071, com o agravamento alterações climáticas, muitas das zonas onde atualmente existem trufas negras serão inadequadas", diz Paul. "E provavelmente não vamos poder irrigar os terrenos porque a água será mais escassa."

“O futuro das trufas não parece muito brilhante.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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