Usar os Nossos Talheres Pode Ajudar a Resolver a Crise do Plástico

Anualmente desperdiçamos milhões de utensílios e muitos acabam no ambiente. O movimento “Traz os Teus Próprios” talheres pode fazer a diferença.terça-feira, 9 de julho de 2019

Tal como muitos itens de plástico, os talheres acabam geralmente por entrar no ambiente, onde representam um perigo para os animais e podem demorar centenas de anos a decomporem-se.
Tal como muitos itens de plástico, os talheres acabam geralmente por entrar no ambiente, onde representam um perigo para os animais e podem demorar centenas de anos a decomporem-se.
fotografia de Hannah Whitaker, National Geographic

Os talheres de plástico estão por toda a parte, e a maioria só pode ser usada apenas uma vez. Todos os anos, milhões de garfos, facas e colheres acabam no lixo. Mas, tal como acontece com outros itens de plástico – como os sacos e as garrafas – os talheres podem demorar séculos a decomporem-se naturalmente, dando ao lixo plástico tempo suficiente para se infiltrar no ambiente.

A Ocean Conservancy engloba os talheres entre os itens “mais mortíferos” para as tartarugas-marinhas, pássaros e mamíferos, e as alternativas têm-se revelado particularmente difíceis de encontrar, embora não sejam impossíveis.

Uma solução lógica seria andarmos com os nossos próprios talheres, mas isso pode atrair alguns olhares desconfortáveis. No entanto, durante muitos séculos teria sido embaraçoso viajar sem um conjunto individual de talheres.

“Podíamos andar com uma pequena bolsa e transportar os nossos talheres pessoais”, diz Sarah Coffin, responsável pela exposição de 2006 – Feeding Desire: Design and the Tools of the Table, 1500-2005 – no museu de design Cooper Hewitt, em Nova Iorque.

Os Plásticos Explicados Em Minutos
Os Plásticos Explicados Em Minutos

Antigamente, transportar os nossos talheres não era apenas uma necessidade logística – geralmente não eram fornecidos – mas também ajudava a evitar doenças. "Se usarmos os nossos talheres", explica Sarah, "não precisamos de nos preocupar com os germes de outra pessoa na nossa sopa." O que usávamos para comer também era uma espécie de símbolo do nosso estatuto. "Era como se fosse um relógio de bolso."

Os talheres eram geralmente feitos de madeira, de pedra ou de conchas. Os conjuntos mais ornamentados podiam ser feitos de ouro ou marfim, e podiam até ser dobráveis para serem mais práticos. No início do século XX, começou a surgir o aço inoxidável, mais elegante e resistente à ferrugem. Mas durante a Segunda Guerra Mundial, um material ainda mais inovador disseminou-se entre os talheres: plástico.

‘Reis do descartável’
Ao início, os talheres de plástico eram considerados reutilizáveis. Chris Witmore, professor de arqueologia na Universidade Texas Tech, tem memórias da sua avó a lavar os talheres de plástico. Mas, à medida que a economia do pós-guerra explodia, os hábitos simples introduzidos pela Grande Depressão e pela história agrária desapareceram.

“Na segunda metade do século XX, a abundância em excesso acabou por definir a forma como a maioria das pessoas vive”, diz Whitmore. E isso deu origem a uma “cultura descartável”.

Segundo os historiadores, tornar os utensílios de plástico brilhantes e atraentes contribuiu para torná-los muito populares.
Segundo os historiadores, tornar os utensílios de plástico brilhantes e atraentes contribuiu para torná-los muito populares.
fotografia de Hannah Whitaker, National Geographic

“Os americanos eram os reis do descartável”, diz Sarah. Entre outras invenções estava o spork (colher/garfo) de plástico, que a Van Brode Milling Company patenteou em 1970. Mas Sarah refere que a afinidade francesa por piqueniques também ajudou a estimular o crescimento de itens descartáveis.

O designer Jean-Pierre Vitrac, por exemplo, inventou um tabuleiro de plástico para piqueniques que tinha um garfo, uma colher, uma faca e um copo embutidos. Podíamos separá-los para serem usados e no fim das refeições ia tudo para o lixo. Estes tabuleiros estavam disponíveis em cores vivas, algo que, segundo Sarah, também ajudou a tornar os plásticos mais populares.

O casamento entre cultura e conveniência fez com que empresas como a francesa Sodexo, uma das maiores fornecedoras de serviços alimentares do mundo, começassem a usar plástico. “A conveniência fez com que esta mentalidade descartável se instalasse no nosso quotidiano”, diz Judy Panayos, diretora para a sustentabilidade na Sodexo.

Hoje, a empresa compra mensalmente 44 milhões de utensílios descartáveis apenas nos EUA. Globalmente, os talheres de plástico alimentam uma indústria de 2.6 mil milhões de dólares.

Mas a conveniência tem os seus custos. Tal como acontece com muitos outros itens de plástico, os utensílios também acabam no ambiente. De acordo com os dados de limpeza de praias compilados pela ONG 5Gyres, os utensílios são o sétimo item de plástico mais encontrado.

FONTES: PLASTIC POLLUTION COALITION; MINISTRY OF ECOLOGICAL AND SOLIDARITY TRANSITION, FRANCE; POLYMER PLASTICS; 5 GYRES
FONTES: PLASTIC POLLUTION COALITION; MINISTRY OF ECOLOGICAL AND SOLIDARITY TRANSITION, FRANCE; POLYMER PLASTICS; 5 GYRES
fotografia de MONICA SERRANO, NGM STAFF; KELSEY NOWAKOWSKI

“Os descartáveis de alimentos e bebidas estão esmagadoramente no topo da lista”, disse Anna Cummins, diretora executiva da 5Gyres, destacando intencionalmente toda esta categoria.

Anna argumenta que o foco recente dos ambientalistas em itens individuais – sejam sacos, palhinhas ou outros – não está a dar frutos e que o setor precisa de uma abordagem mais abrangente. "Um foco em produtos individuais, apesar de importante, não nos vai levar ao nível que precisamos."

Reduzir o desperdício
Em janeiro, partiu de Lisboa um avião da Hi Fly com destino ao Brasil. Tal como em muitas outras viagens da companhia aérea portuguesa, os assistentes de bordo serviram bebidas e comida – mas com uma diferença. Segundo a companhia aérea, este foi o primeiro voo de passageiros do mundo sem plásticos descartáveis.

A Hi Fly utilizou uma gama de materiais de substituição, desde descartáveis de papel até descartáveis à base de plantas. Os talheres eram feitos de bambu reutilizável – depois, a companhia aérea levou-os para as suas instalações para serem lavados – até 100 vezes.

De acordo com a companhia aérea, este voo foi o primeiro passo para eliminar todos os plásticos descartáveis até ao final de 2019. O exemplo foi seguido por outras companhias; em abril, as companhias aéreas etíopes marcaram o Dia da Terra com um voo sem plásticos.

Os talheres estão incluídos numa reação anti-plástico mais ampla. Em 2016, a França foi o primeiro país a interditar os talheres, pratos e copos de plástico. Em todo o mundo, estão a ser feitas experiências com materiais alternativos ao plástico, que vão desde o amido de batata e folhas de areca a talheres comestíveis à base de grãos.

As vendas de produtos substitutos ainda são relativamente baixas, muitas vezes prejudicadas pelos custos mais elevados e, por vezes, devido aos benefícios ambientais questionáveis. As chamadas opções de bioplástico, por exemplo, feitas de materiais à base de plantas, podem exigir condições específicas para se decomporem, para além da água e energia desperdiçadas na sua produção. Mas o mercado de talheres biodegradáveis está a crescer.

PLANETA OU PLÁSTICO?
Três coisas que pode fazer para ajudar na solução:

1. Transportar talheres reutilizáveis.

2. Se utilizar talheres descartáveis, assegure-se de que são feitos de materiais biodegradáveis ou compostáveis.

3. Opte por comer em estabelecimentos que não usam utensílios de plástico.

Uma nova abordagem aos produtos descartáveis
Existem várias empresas que estão a criar utensílios de materiais à base de plantas, incluindo madeira. Alguns desses materiais vêm de árvores de crescimento rápido, como bétula ou bambu; e a marca canadiana Aspenware inclui os excessos de madeira da indústria madeireira nos seus utensílios.

Uma linha de talheres descartáveis de madeira chamada Clickeat é um dos exemplos. Um conjunto de utensílios (garfo, faca e uma colher opcional) que se separam em instrumentos individuais e que podem ser descartados depois de utilizados.

“São compostáveis e biodegradáveis”, diz o fundador da empresa Steven Adler.

Adler percebeu pela primeira vez a extensão do problema dos resíduos plásticos há cerca de 10 anos, quando surfava com um amigo no Chile. A praia estava coberta de lixo plástico. Alarmado, Adler começou a conversar com outras pessoas sobre a melhor forma de resolver a questão.

“Todas as pessoas falavam dos sacos de plástico e das garrafas, mas ninguém falava dos utensílios”, recorda Adler. Com o objetivo de encontrar uma alternativa, fundou a sua empresa, a Simplo.

Embora Adler considere a Clickeat preferível a muitas das outras opções que existem (sobretudo aos bioplásticos), insiste que não está a tentar impedir que as pessoas encontrem outras soluções, como andarem com os seus próprios talheres; Adler quer simplesmente oferecer opções mais viáveis.

“O nosso objetivo não é substituir os produtos reutilizáveis”, disse. “Estamos a tentar redefinir o conceito de produto descartável.”

Na China, os ambientalistas fizeram campanhas para as pessoas andarem com os seus próprios pauzinhos. O site Etsy tem uma secção inteira dedicada a talheres reutilizáveis. E o movimento BYO (Traz os Teus Próprios) talheres parece estar a ganhar terreno.

“Eu tenho os meus na mochila”, diz Panayos sobre os seus talheres reutilizáveis.

A Sodexo está cada vez mais empenhada na eliminação faseada de sacos de plástico descartáveis e de embalagens de alimentos em espuma de poliestireno, para além de fazer das palhinhas um item “a pedido”.

Mas Panayos diz que os utensílios de plástico continuam a ser particularmente difíceis de substituir em grande escala. Os pontos problemáticos incluem instalações que têm capacidades limitadas de lavagem de loiça e locais como prisões – onde são necessárias opções mais flexíveis e menos perigosas.

Chris Whitmore, o professor da Universidade Texas Tech, diz: “Quando os plásticos estiverem por todo o lado e forem ingeridos por tudo e todos, o único caminho será a redução.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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