Amazónia Arde Como Nunca – A Culpa é da Desflorestação

As chamas são tão grandes que o fumo pode ser visto do espaço, e os especialistas afirmam que os incêndios podem ter sérios impactos climáticos.sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Na Amazónia, os fogos ardem com tanta intensidade que o fumo cobriu as cidades vizinhas com uma nuvem negra.

Diversas fontes noticiosas dizem que, este ano, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil registou um nível recorde de 72.843 incêndios, um aumento de 80% em relação ao ano passado. Mais de 9.000 desses incêndios foram registados na semana passada.

A dimensão do fogo ainda não foi determinada, mas os incêndios propagam-se por diversos estados da Amazónia. No dia 11 de agosto, a NASA reparou que os incêndios tinham atingido proporções observáveis do espaço.

“Isto é, sem dúvida alguma, uma das duas únicas ocasiões onde tivemos incêndios como este na Amazónia”, diz Thomas Lovejoy, ecologista e Explorador National Geographic.

"Não existem dúvidas de que isto é uma consequência do recente aumento da desflorestação", diz.

Políticas ambientais assentes no negócio
Os ambientalistas já vinham a soar o alarme para os problemas da desflorestação desde que o atual presidente do presidente do país, Jair Bolsonaro, foi eleito em 2018. Grande parte da sua campanha eleitoral assentava na abertura da Amazónia à exploração empresarial. E quando Bolsonaro chegou ao poder, fez o que prometeu.

Os dados divulgados pelo INPE no início deste mês revelam que no Brasil, só este verão, a área de floresta dizimada foi maior do que nos últimos três anos juntos.

“Em anos anteriores, os incêndios estavam normalmente relacionados com a falta de chuva, mas este ano tem sido muito húmido”, diz Adriane Muelbert, ecologista que estudou os efeitos da desflorestação da Amazónia nas alterações climáticas.

“Isto leva-nos a pensar que estes fogos se devem à desflorestação”, diz Adriane.

Para além da madeira, muitas das árvores na Amazónia são cortadas para plantar soja ou para abrir caminho para as lucrativas pastagens de gado. As queimadas são muito usadas para eliminar árvores rapidamente. E tal como os incêndios que assolam a Califórnia, a maioria começa pela mão humana, mas depois descontrolam-se.

Thomas Lovejoy descreve um sistema cíclico onde a desflorestação seca a região, estimulando ainda mais a perda florestal. Grande parte da chuva na Amazónia é gerada pela própria floresta tropical, mas à medida que as árvores desaparecem, a chuva também diminui. Os especialistas temem que esta espiral descendente possa secar a floresta até ao ponto de não retorno – e a Amazónia pode acabar mais parecida com uma savana do que com uma floresta tropical.

“A Amazónia tem este ponto de inflexão porque cria metade das suas chuvas”, diz Thomas. É por essa razão que, segundo ele, “a Amazónia tem de ser gerida como um sistema.”

Os incêndios e as alterações climáticas
Se a desflorestação e o descontrolo das queimadas se mantiver, Thomas e Adriane advertem que os fogos com esta dimensão podem continuar. E a perda massiva de  área florestal pode ter efeitos globais.

A proteção da Amazónia é muitas vezes apontada como uma das formas mais eficazes para mitigar o efeito das alterações climáticas. Anualmente, o ecossistema amazónico absorve milhões de toneladas de emissões de carbono. Quando as suas árvores são cortadas ou queimadas, não só libertam o carbono que armazenam, como a humanidade também perde uma ferramenta de absorção de carbono.

"Qualquer floresta destruída é uma ameaça à biodiversidade e às pessoas que dela dependem", diz Thomas. E acrescenta que "a grande ameaça reside na quantidade de carbono libertada na atmosfera".

Adriane Muelbert diz que ainda é muito cedo para se calcular o carbono emitido por estes incêndios.

No início deste mês, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas divulgou um relatório que dizia que se o mundo quiser evitar os piores impactos das alterações climáticas, não pode perder florestas.

“É uma tragédia”, diz Adriane sobre os incêndios e sobre a desflorestação que os originou. “É um crime contra o planeta, e um crime contra a humanidade.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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